Empreendedorismo

Coronavírus: Líbano autoriza cultivo de maconha para recuperar economia

por: Yuri Ferreira

A República do Líbano sancionou uma lei no último dia 21 de abril que regulamenta o plantio da cannabis para fins medicinais e industriais em seu território. O país se torna o primeiro a regularizar a planta no Mundo Árabe e dá um passo à frente para sua recuperação econômica. O Líbano está em recessão econômica desde 2018 e tem uma crescente dívida externa em um cenário que se intensificou com a disseminação do novo coroanvírus.

O debate no Líbano não é de hoje e se acalorou desde 2018, quando o =presidente do parlamento libanês, Nabih Berry, declarou que os membros da casa estudavam a adoção de uma regulamentação que permitisse a produção de maconha para fins medicinais “como em diversos países europeus e Estados dos EUA”. À época, o Ministro da Economia informou à Bloomberg que o Líbano tinha uma das melhores maconhas do mundo.

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Experiências bem sucedidas economicamente e similaridade climática entre Israel e Líbano colaboraram para a legalização da produção de maconha no país

Segundo a McKinsey, uma das maiores consultoras econômicas do planeta, uma das saídas para a recuperação econômica pós-pandemia da nação árabe está na legalização da maconha, que poderia render mais de 1 bilhão de dólares anualmente aos cofres públicos. Apesar do boom econômico que ocorreu em 2008, o Líbano entrou em desaceleração econômica já em 2016 e a sua dívida chegou a 80 bilhões de dólares.

A história da cannabis no país é bastante complexa: seu cultivo e consumo recreacional era comum até 1916, quando foi proibida na forma de haxixe. Após a independência da França, em 1943, o Líbano teve dificuldade em instaurar um regime pacífico, especialmente após a instituição do Estado de Israel na fronteira sul. Com a chegada de milhares de refugiados palestinos ao país e uma sucessão de crises, uma guerra civil eclodiu em 1975.

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Durante 15 anos, o Líbano viveu um conflito de forças triplas: Israel, Irã e a ONU tinham aliados na Guerra Civil, que coincide com diversos interesses da Guerra Fria no Mundo Árabe. Durante o período de instabilidade, a maconha foi uma das principais fontes de renda para famílias de agricultores no interior.

Na foto abaixo, vemos uma colheita de maconha em 1985, no auge do conflito nacional:

Mulher faz a colheita de maconha no Vale de Bekka em meio a crise humanitária que o país vivia em 1985

Após a resolução da Guerra Civil e a instauração de um governo geopoliticamente aliado aos EUA, a potência fez pressão para que o Líbano proibisse a planta novamente, decisão acatada pelas autoridades libanesas. Entretanto, o conflito que se desenrolou na fronteira norte do país, na Síria, fez com que a região do Vale de Bekka voltasse a cultivar maconha de maneira massiva e ilegal.

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Para aumentar a arrecadação nacional e se tornar uma das potências na produção da maconha, em especial na região do Oriente Médio, a decisão histórica do Líbano segue a de seu vizinho, Israel, que já mantém produções legalizadas de maconha para fins científicos e industriais.

As ideias mirabolantes causadas pela crise econômica no país desembocaram em uma grande crise política. No ano passado, milhares de libaneses incendiaram a nação com manifestações graças ao chamado “imposto do Whatsapp”, em que o governo cobraria uma pequena taxa por mensagens instantâneas de celular. Talvez a maconha tenha de sido, de fato, uma das melhores alternativas para relaxar um pouco a situação.

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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