Debate

Duas acusações de estupro e uma de tentativa contra Prior reacendem debate sobre machismo no ‘BBB’

por: Karol Gomes

Um dos participantes mais populares do ‘Big Brother Brasil 20’, acolhido até mesmo por famosos após a sua eliminação, Felipe Prior está sendo acusado por dois estupros e uma tentativa de estupro. Protegidas por pseudônimos, as vítimas falaram à revista Marie Claire, que publicou suas histórias com exclusividade. 

A Marie Claire explicou que as vítimas foram agredidas por Prior em 2014, 2016 e 2018 e convivam com o trauma desde então. Porém decidiram denunciar após ver que seu agressor em comum iria participar de um reality show na TV Globo e que isso o tornaria famoso – mas não sem antes se unirem para prestar depoimento de maneira coletiva, de maneira a terem apoio e confirmações de suas experiências

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Felipe Prior: duas acusações de estupro e uma de tentativa

A revista teve acesso aos relatos por meio de documento presente na notitia criminis (protocolado no Departamento de Inquéritos do Fórum Central Criminal em 17 de março de 2020 pelas advogadas Maira Pinheiro e Juliana de Almeida Valente a fim de dar início a uma investigação criminal). As três histórias publicadas têm elementos em comum: aconteceram durante ou depois de festas dos jogos universitários das faculdades de arquitetura e urbanismo de São Paulo, chamados de InterFAU. As alunas estavam embriagadas e, consequentemente, com dificuldades de se defender fisicamente, foram persuadidas pelo agressor e levadas para um lugar isolado, disseram ‘não‘ mas foram ignoradas. 

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Todas falaram também sobre o uso de força física por parte de Prior. Uma das vítimas chegou a sangrar e precisar usar fralda geriátrica, além de ajuda para ir ao banheiro depois durante o período de recuperação da agressão. 

A maneira reiterada e habitual com que Felipe incorria nesse tipo de conduta levou à deliberação, por parte da comissão organizadora da InterFAU, do impedimento de seu acesso ao ambiente dos jogos universitários. Um dos relatos no documento que a Marie Claire teve acesso foi determinante para essa decisão pois, ao contrário dos demais, têm testemunhas que confirmam a versão da vítima: “uma voz feminina chorando. A voz dizia ‘Para, tá me machucando’ e continuava chorando”, disse uma das testemunhas.

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No entanto, até mesmo após a entrada de Prior na vigésima edição do Big Brother Brasil, nem a Faculdade, nem a Atlética da InterFAU prestaram queixas. As denúncias começaram a aparecer nas redes sociais em janeiro, por parte de pessoas que o conheciam de festas universitárias, indicando que ele teria tido um mau comportamento durante o período da faculdade, especialmente contra as mulheres. A InterFAU foi questionada nas redes conforme mostra o tuíte da usuária @morestydia, publicado do dia 27 de março. Em resposta à usuária, a InterFAU escreveu: “Temos ciência do que está acontecendo e nos pronunciaremos no momento certo”

O medo ou a demora da vítima para a denúncia, embora não seja indicado, é sempre compreensível: segundo pesquisa de 2019, realizada pelo DataFolha a pedido do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), que ouviu 2.084 pessoas em 130 municípios brasileiros, 52% das mulheres que sofreram alguma agressão no último ano ficaram caladas.

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Já dados de 2018 do Ministério Público de São Paulo, dizem que apenas 5 das 124 vítimas de feminicídio no estado entre março de 2016 e março de 2017 haviam registrado boletim de ocorrência contra o agressor —ou seja, 4% delas.

Sobre o fato das mulheres não terem registrado boletim de ocorrência na ocasião dos crimes, a criminalista Maira Pinheiro, advogada das três mulheres disse a Marie Claire.

Precisamos entender que lidamos com vítimas reais e não ideais. Acompanhando esse tipo de caso cotidianamente, percebemos que infelizmente é comum que entre a ocorrência da violência e a decisão de denunciar, passe um certo tempo. Isso tem a ver com o tratamento revitimizador que muitas dessas mulheres recebem junto às instituições, a falta de apoio de amigos e familiares e, de maneira geral, com a cultura do estupro, que normaliza situações de violência sexual e não cultua a valorização do consentimento. Todas as vítimas relataram sentimentos de culpa após os fatos. Isso é emblemático, pois revela como, diante desse tipo de caso, o senso comum tende a focar mais numa suposta ‘responsabilidade’ da vítima em não ser capaz de evitar os atos do agressor.

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Felipe Prior: duas acusações de estupro e uma de tentativa

Mas o que leva instituições a não denunciarem agressão que ocorrem dentro de suas capacidades? Ou ainda: como um programa de televisão seleciona um participante com tal histórico? 

Por mais que não houvessem denúncias formais de Prior no momento de sua inscrição para o ‘Big Brother’, a proibição da InterFAU já estava em vigor, isso sem contar os relatos sobre sua agressividade. Profissão e até formação educacional de participantes são avaliados no momento da seleção e porque não reputação? 

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Considerando que a proposta principal do reality seja a convivência entre desconhecidos, a segurança dos mesmos, nesse caso, principalmente das mulheres, deveria ser uma prioridade. Este ponto também foi levantado no início da edição do ‘BBB20’, quando foi noticiado que o ex-jogador de futebol Hadson da Silva Nery já foi indiciado por agressão doméstica pela sua ex-mulher, Elen Cristina Vara Nery.

Segundo o site Notícias da TV, o processo está registrado no Tribunal de Justiça do Estado do Pará. Elen entrou com o pedido de medida protetiva contra o participante do reality após duas denúncias. Em 2018, o juiz Maurício Ponte Ferreira de Souza determinou que Hadson ficasse 100 metros longe de sua ex-esposa, assim, não tendo nenhum contato com ela. 

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Ainda nesta edição do ‘BBB20’, o Brasil presenciou casos de assédio sexual por parte dos jogadores Petrix Barbosa, Pyong Lee e Daniel Lenhardt durante as festas que ocorrem durante o programa. Em todos os casos, o diretor do programa chamou as vítimas ao confessionário para falarem sobre como se sentiram, mas nada foi feito, já que, na maioria das vezes, elas nem mesmo se lembravam dos ocorridos por causa do excesso de bebidas. Diante da falta de punição para os agressores, o público acabava colocando os atos como principais critérios de eliminação dos participantes. 

Outro caso de misoginia também provocou briga na casa: a maioria dos homens se uniram com o plano de ‘seduzir‘ as participantes que tinham namorados do lado de fora da competição, a fim de desmoralizá-las diante do público – Prior, Hadson e Petrix faziam parte do grupo. 

A tática, entendida como machista, predatória e desrespeitosa, levou as participantes a confrontarem Hadson durante o jogo. O participante negou a situação esquecendo que todas as conversas que teve anteriormente foram gravadas. 

E, enquanto Prior ganhava fama durante sua participação no ‘BBB’, suas vítimas precisavam conviver com os traumas. Uma delas disse a Marie Claire que a agressividade que ele mostrou no jogo não é nada comparado a como ele é verdadeiramente. Outra disse que “as meninas que moram comigo gostam de assistir BBB. Imagina ter que ver a cara dele todo dia? Mas ao mesmo tempo foi importante para que eu pensasse no  passado. Eu achava que ia superar através do esquecimento. E vê-lo na TV me despertou muitos gatilhos e medo de me relacionar com homens”.

Sobre as acusações contra o participante, a Comunicação da Rede Globo informou à reportagem de Marie Claire, que “a Globo é veementemente contra qualquer tipo de violência, como se percebe diariamente em seus programas jornalísticos e mesmo nas obras do entretenimento, e entende que cabe às autoridades a apuração rigorosa de denúncias como estas”.

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No Brasil, o crime de estupro consta no artigo 213 do Código Penal e consiste em: constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. O estupro é tipificado como crime hediondo e é válido mediante violência real (agressão) ou presumida (praticado contra menores de 14 anos, alienados mentais ou pessoas que não possam oferecer resistência). Atualmente a pena é de seis a 10 anos de reclusão, aumentando para oito a 12 anos quando há lesão corporal da vítima.

As advogadas entraram com um pedido de medidas cautelares para que Felipe fosse proibido de manter contato com as vítimas e testemunhas por qualquer meio de comunicação, inclusive por meio de terceiros e internet. A solicitação foi acolhida pela Promotoria de Justiça do Estado de São Paulo e aguarda julgamento. Como os crimes aconteceram em três cidades diferentes – onde ocorreram cada edição do InterFAU -, a investigação poderá ser realizada por um grupo especializado do Ministério Público ou se desdobrar em até três inquéritos policiais diferentes.

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A Marie Claire declarou ainda que procurou Felipe Antoniazzi Prior para que ele respondesse às acusações.

O primeiro contato com seu assessor de imprensa foi feito na quarta-feira, 01 de abril. Em uma mensagem de texto, pedimos um número de telefone para apresentar as denúncias. Diante da ausência de resposta, a reportagem enviou o conteúdo das denúncias em mensagens privadas para o WhatsApp do assessor às 11hs da manhã da quinta-feira, dia 02. Diante do novo silêncio, ligou insistentemente em seu telefone celular. A resposta do assessor veio por WhatsApp às 12h40. ‘Isso aí é mentira’ escreveu.  Diante da insistência para que respondesse às acusações, o assessor respondeu: “acho que agora não”, e logo depois ‘assim que eu entrar em contato com a família eu te aviso’. Marie Claire deu o prazo um dia para que o assessor ou o próprio Felipe se manifestassem formalmente diante das acusações, o que não aconteceu, apesar das tentativas da reportagem. Um novo foi contato foi feito nesta sexta-feira pela manhã, avisando da iminência da publicação da reportagem – outra vez sem resposta.

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Fotos: Reprodução/TV Globo


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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