Debate

‘E daí?’ Capa diz tudo sobre fala do presidente em dia com recorde de mortos por coronavírus

por: Karol Gomes

No dia em que o número de mortes por coronavírus no Brasil atingiu a marca de 5 mil, superando os óbitos da China, epicentro da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) lamentou o cenário, mas essa foi a parte mais humana de uma fala sem tato e que fez piada com a situação.

O presidente ainda usou o próprio nome – Jair Messias – para fazer um trocadilho. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, reagiu ele à pergunta de um repórter em frente ao Palácio da Alvorada, em Brasília, e referindo-se ao personagem bíblico. A resposta arrancou risos de apoiadores do presidente que estavam dentro do cercado montada diariamente na residência oficial.

‘E daí?’, disse Bolsonaro sobre recorde de mortes por coronavírus

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Em tempos de tantas perdas, é esperado que o presidente manifeste, no mínimo, respeito com os falecidos e com os profissionais que atuam na linha de frente dessa batalha contra a pandemia. É essa insatisfação que exposta pela capa do Estado de Minas desta quarta-feira (29), manhã seguinte a fala de Bolsonaro.

O próprio presidente pode fazer parte dos números, mas seu quadro de saúde ainda é incerto. Apesar de dizer publicamente que testou negativo para o novo coronavírus, Bolsonaro se nega a apresentar o resultado e classifica o exame como “sigiloso”. Ele chegou inclusive a dizer, durante participação no ‘Brasil Urgente’, da TV Bandeirantes, que a sua palavra vale mais do que um papel.

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Já na entrevista de ontem, Bolsonaro foi questionado sobre uma ação movida pelo jornal O Estado de S. Paulo. A juíza Ana Lúcia Petri Betto deu o prazo de 48 horas (sob pena de multa de R$ 5 mil) para que Bolsonaro forneça “o laudo de todos os exames” que fez para diagnosticar a Covid-19.

“Daqui a pouco vão querer saber se eu sou virgem ou não. Dá positivo ou não? Se nós dois [presidente e o repórter] estivermos com Aids, a lei nos garante o anonimato. Da minha parte, não tem problema nenhum em mostrar, mas quero ter o direito de não mostrar”, afirmou Bolsonaro. A Advocacia-Geral da União informou que irá recorrer.

Capa do jornal Estado de Minas

Pergunta pro Teich 

Questionado novamente sobre o recorde, afirmou que que os números deveriam ser tratados pelo ministro da Saúde, Nelson Teich, e não por ele. 

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Em abril, o presidente colocou Teich no lugar de Luiz Henrique Mandetta por não concordar com as orientações sobre isolamento social do então ministro, que seguia as determinações da OMS (Organização Mundial da Saúde). Na entrevista, Bolsonaro tratou o cenário de mortes como naturais, afirmando que um dia ele também morrerá. 

Nesta terça-feira (28), o Ministério da Saúde anunciou que subiu para 5.017 o número total de mortes provocadas pela doença no país, 474 delas registradas nas últimas 24 horas. Com os dados atualizados, o Brasil ultrapassou a China, que registra oficialmente 4.643 mortes por conta da Covid-19.

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No total, o Brasil possui 71.886 casos oficiais no país, segundo os dados mais recentes do Ministério, com 5.385 novos diagnósticos de ontem para hoje. Segundo a pasta, ao menos 34.325 pacientes estão em acompanhamento e mais de 32.544 já se recuperaram. 

Os números ainda estão diante de serem precisos se considerados os casos onde não foram feitos testes para comprovar a doença: 1.156 óbitos seguem em investigação.

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A taxa de letalidade — que compara os casos totais pelos números de óbitos confirmados — no Brasil é de 7%, segundo a atualização do governo. O ministro da Saúde, Nelson Teich, disse nesta terça-feira (28) que há “agravamento da situação” da Covid-19 no Brasil. 

“O que tem que ficar claro é um número que vem crescendo. Alguns dias atrás eu coloquei que isso poderia ser um acúmulo de casos de dias anteriores, que foi simplesmente resgatado, mas como a gente tem uma manutenção desses números elevados e crescentes, a gente tem que abordar isso como um problema, com uma curva que vem crescendo, com o agravamento da situação”, disse. 

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Na quinta-feira (23), quando foram anunciadas 407 mortes, Teich afirmou que era preciso esperar os dias seguintes para avaliar se o aumento representava uma tendência ou apenas a divulgação de casos acumulados.

Ao reavaliar a situação, Teich fez a ressalva de que, na análise da pasta, o agravamento “continua restrito” a algumas localidades que estão enfrentando as “maiores dificuldades”. Ele listou Manaus, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.

O secretário nacional de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, fez uma previsão de agravamento dos casos nas próximas semanas.

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“Os estados que mais nos preocupam são aqueles que estão apresentando a situação mais intensa da transmissão. São Paulo nas próximas semanas pode ter uma intensidade na região metropolitana. Rio de Janeiro, Pernambuco, Recife, Ceará, Fortaleza e Manaus são os locais que no momento nos chamam mais atenção”, disse. 

No início da pandemia, o presidente chegou a chamar a Covid-19 de “gripezinha”.

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Fotos: foto 1: Reprodução/foto 2: Reprodução/Instagram/foto 3: EBC


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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