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Influencer humilha empregada doméstica em exemplo prático de racismo; veja vídeo

por: Karol Gomes

Em uma sequência de vídeos publicados em seus Stories para pouco mais de 150 mil pessoas, o influenciador digital Luan Tavares expõe e humilha a trabalhadora doméstica, identificada posteriormente como ‘Ana‘, enquanto ela limpava seu banheiro. 

Nos vídeos, é possível ouvi-lo questionar o valor da diária cobrada pelo serviço, a quantidade de produto de limpeza usada pela profissional e até mesmo a frequência e qualidade do trabalho dela: “ela vai gastar uma água sanitária só nesse banheiro”, reclama. O caso aconteceu em Itabaiana, em Sergipe, onde mora Luan.

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Na publicação, Luan Tavares grava Ana se movimentando dentro de seu banheiro para fazer a limpeza do espaço. “Até que enfim, limpando meu banheiro!”, diz. Em tom irônico, o influencer comenta, então, do preço que ela cobra para realizar as tarefas dentro da casa que, “em tempos de crise”, poderia abaixar. A mulher ainda tenta explicar que em Aracaju, capital sergipana, o dia de faxina custa R$ 130, mas ele rebate: “Aqui é Itabaiana”.

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O influenciador recebeu uma enxurrada de críticas de seus seguidores, pela exposição de Ana e pela falta de respeito direcionada às empregadas domésticas e foi forçado a fazer um vídeo para pedir desculpas – Ana aparece ao seu lado enquanto o patrão diz que tudo não passou de um “mal-entendido”

Ele disse que a profissional trabalha “há bastante tempo” em sua casa, que mora no sítio dos pais dele, que eles sempre brincam entre si e que “semana passada até doou roupas pra ela pois ela é uma pessoa necessitada”. Ele pede para que Ana confirme as informações.

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A postura de Luan Tavares reafirma o racismo

O comportamento de Luan, até mesmo no momento do pedido de desculpas, é uma demonstração de que a relação entre patrões e trabalhadores — ainda mais afetada em tempos de isolamento social — permanece problemática desde escravidão, ainda não superada no Brasil.

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Até mesmo o governo do país já expôs a herança escravocrata que nos persegue. Em fevereiro deste ano, o ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes, afirmou que a conversão do dólar, alta como está agora, é um bom sinal, pois quando o dólar estava próximo a R$ 1,80, as exportações caíam, mas o país tinha “empregada doméstica indo para Disneylândia”

Na ocasião, o que ele quis dizer ficou claro: o dólar mais alto é o novo normal e pessoas de classe média ou mais baixa viajando para a Disney é o oposto de normal. 

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Por muito tempo não havia ao menos uma legislação adequada para as empregadas domésticas (a maioria mulheres negras) no Brasil e, quando isso finalmente aconteceu, a gritaria de indignação foi generalizada, diante do estabelecimento do direito profissional mínimo. 

Na mesma época, uma página foi criada no Facebook para que retratos desses tratos entre patrões e empregadas pudessem ser relatados. A ‘Eu Empregada Doméstica’ até virou livro depois de reunir comentários, apontamentos e relatos que revelam situações que ilustram a desigualdade e o destrato que essa tão importante classe profissional sempre sofreu. 

A maioria dos posts expõe a maneira com que um tratamento preconceituoso, desigual e vil é aparentemente naturalizado no Brasil, como se fosse simplesmente parte de um acordo profissional. Assim como, para Luan, pode parecer normal humilhar uma empregada que, segundo ele mesmo diz, está a anos trabalhando para ele. 

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Fotos: Reprodução / Instagram


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.


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