Debate

Luisa Mell estrela campanha que relaciona consumo de carne com pandemia

por: Yuri Ferreira


A influenciadora e ativista Luisa Mell fez um vídeo, em parceira com a Sociedade Vegetariana Brasileira, associando o consumo de carne com o crescimento do número de pandemias nos últimos anos: da AIDS ao novo coronavírus, passando por Ebola, SARS e Gripe Suína. A campanha também conta com a participação de diversos médicos e a apresentadora Xuxa. O mote do vídeo é “pare de comer carne”.

Luisa Mell afirmou que o novo coronavírus serve de lição para que a humanidade pare com o consumo de carne

O argumento utilizado pela Sociedade Vegetariana Brasileira, no entanto, é bastante complexo e está em discussão nos meios científicos. Médicos, artistas e influenciadores fomentam o debate para o abandono de consumo de carne, responsável pela grande concentração de animais e pelo uso exagerado de antibióticos, dois fatores que contribuem para o surgimento de novas doenças como a covid-19.

“A COVID-19 é uma tragédia global. Também é um lembrete contundente de que toda a vida na Terra está conectada e que, se desejamos preservar nossas próprias vidas, também devemos nos esforçar para preservar a vida de todos”,  afirmou Luisa Mell em uma postagem no Instagram.

– Luisa Mell diz que não haveria fome no mundo se as pessoas fossem veganas

Confira o vídeo de Luisa Mell e Xuxa pedindo que o consumo de carne sera interrompido:

Confira uma postagem de Luisa Mell comentando a questão em seu Instagram:

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É hora de encarar a verdade. Combater a causa da pandemia que estamos vivendo. A COVID-19 é uma tragédia global. Também é um lembrete contundente de que toda a vida na Terra está conectada e que, se desejamos preservar nossas próprias vidas, também devemos nos esforçar para preservar a vida de todos. A próxima pandemia vai chegar se não mudarmos a forma como interagimos com a vida selvagem Investigadores afirmam que a pandemia de covid-19 deve ser encarada como um aviso mortal. Ou seja, devemos pensar nos animais como parceiros, cuja saúde e habitats têm de ser protegidos para evitar o próximo surto global. #TireAsPandemiasDoCardápio. Visite www.milliondollarvegan.com/pt-br/ para descobrir mais.​ @milliondollarveganbrasil @milliondollarvegan #TakePandemicsOffTheMenu #TireAsPandemiasDoCardápio #RetironsLesPandémiesDuMenu #NimmPandemienVomSpeiseplan #TogliamoLePandemieDalMenù #QuitemosLasPandemiasDelMenú​ #महामारियों_को_भोजन_से_हटाओ

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A relação coronavírus e consumo de carne

A correlação entre o surgimento da pandemia de coronavírus e da HIV com o consumo de carne, entretanto, não é comprovada cientificamente. Enquanto a HIV não tem uma origem certa: sabe-se que ela veio de símios e que seus primeiros casos ocorreram na década de 50, mas não é possível estimar se seu contato com os humanos veio do consumo de carne, ou da convivência entre aglomerações e os animais.

Quanto ao coronavírus, as evidências são mais claras, mas ainda inconclusivas: enquanto se acreditou que a origem da doença estava no mercado de carnes de Wuhan, onde o surto começou, novas evidências apontaram para pacientes que não tinham relação com mercado e foram infectados antes dos trabalhadores do mercado de carnes.

Mercado de carnes em Wuhan, na província de Hubei, era apontado como origem da doença, mas novos indícios apontam que o coronavírus surgiu antes do surto no estabelecimento

“Uma grande proporção dos casos iniciais no fim de dezembro e no começo de janeiro tinham uma ligação direta com o mercado de carnes de Wuhan, onde diversos tipos de animais eram vendidos para consumo humano. O vírus, entretanto, pode ter sido introduzido no mercado via um animal ou via um humano infectado. Investigações subsequentes mostraram que os primeiros casos de covid-19, registrados no dia 1 de dezembro não tinham conexão com o mercado. Estudos adicionais estão sendo feitos e se acredita que as primeiras infecções aconteceram na segunda semana de novembro de 2019, antes dos casos no mercado em Wuhan”, afirma a OMS.

Após fortes críticas da comunidade internacional aos mercados de carne da China, onde são comercializados animais selvagens capturados ou forçados a viver em cativeiro, o presidente do país anunciou que esse tipo de comércio está suspenso.

Suspeita-se também que o consumo desse tipo de carne também tenha sido a origem da epidemia de SARS, em 2002. Um dos principais animais relacionados ao novo coronavírus que é vendido nesse tipo de estabelecimento é o pangolim. Enquanto alguns estudos iniciais mostraram que ele era o possível vetor entre o ser humano e o morcego, a teoria foi perdendo força com novas evidências.

A preocupação, entretanto, é válida. O uso massivo de antibióticos em animais em criação intensiva – gado, frango e porco – é o que geraram as superbactérias, micro-organismos capazes de resistir a quantidades enormes de remédios. Estima-se que até 2050, mais de 10 milhões de pessoas irão morrer por causa das dessa nova ameça àsaúde humano .

Outro principal foco de doenças é aglomeração de animais em criação intensiva. Com a aglomeração e as condições bizarras de sobrevivência a que os bichinhos são submetidos, a baixa resistência imunológica e a proximidade espacial entre animais é um clique para a proliferação de novas doenças. A gripe aviária (H5N1), por exemplo, é uma das maiores preocupações de saúde hoje em dia. O vírus, que tem altíssima mortalidade, nunca migrou para seres humanos, mas pode fazê-lo a qualquer momento. Seu espalhamento está diretamente relacionado à forma como os animais são tratados para alimentação.

“Quando superlotamos fazendas com milhares de animais no espaço de um campo de futebol, que ficam com pata ao lado de pato, além do stress que permeia seus corpos e derruba o seu sistema imunológico, há amôna destruindo os seus pulmões e uma falta de ar fresco e luz do sol: todos esses fatores juntos são o caminho certo para quem deseja criar uma epidemia rapidamente”, disse Michael Greger, biólogo e escritor de “Gripe Aviária: Um Vírus com a Nossa Culpa”, à VOX.

Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) disponibilizaram um relatório anual informando que 70% das novas doenças em humanos estão relacionadas ao consumo de carne. A FAO condições sanitárias frágeis em regiões da Ásia e da África, as criações intensivas que intensificam a contaminação de animais até as mudanças climáticas que alteram a imunidade da fauna do planeta.

As recomendação da ONU, entretanto, não passam por um veganismo internacional, mas o fortalecimento de políticas públicas, como o fornecimento de alimentos de origem animal segura, a produção sustentável de sementes, a redução da desigualdade socioeconômica, o controle das mudanças climáticas, a prevenção do contato entre vetores selvagem e animais domésticos e humanos.

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Fotos: Foto 1: Reprodução/Youtube Foto 2: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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