Matéria Especial Hypeness

Moraes Moreira: a grandeza da música brasileira na medida de seu violão e de suas canções

por: Vitor Paiva

Corria o início dos anos 70 quando a campainha subitamente tocou no apartamento de Botafogo onde Moraes Moreira viva com seus companheiros dos Novos Baianos. O baixista Dadi Carvalho olhou pelo olho mágico e viu um homem de terno e gravata: é a polícia, pensou. O Brasil vivia, afinal, tempos da ditadura militar, e todo homem de terno era suspeito, especialmente à porta de um grupo de jovens músicos baianos ligados à contracultura, ao desbunde, ao movimento hippie, à alegria. Para ser um dos Novos Baianos era preciso não só tocar junto, mas também morar junto, viver junto, pensar junto, sentir junto. Um policial, no entanto, não carrega um violão: o homem de terno era João Gilberto – e assim, de uma festa com violões e dessa influência direta, nascia a mistura que levaria à feitura de Acabou Chorare, o melhor disco da história da MPB.

Para criar a fusão que faria dos Novos Baianos um dos mais importantes capítulos da Música Popular Brasileira misturou-se à influência do violão sincopado e suingado de João e à tradição do samba e da música brasileira as guitarras distorcidas aos moldes de Jimi Hendrix pelas mãos de Pepeu Gomes, à voz doce e singular de Baby Consuelo, ao canto inconfundível de Paulinho Boca de Cantor – e mais.

Os Novos Baianos nos anos 70: o jovem Moraes está no alto à direita, de camisa listrada

Nada disso, porém, seria remotamente possível sem a voz, o espetacular violão e principalmente as composições de Moraes Moreira, que merece hoje todo aplauso ao se despedir da vida aos 72 anos, no Rio de Janeiro.

Moraes Moreira © Wikimedia Commons

O primeiro disco do grupo, É Ferro na Boneca, já o colocaria em destaque, como um excelente álbumde rock brasileiro, sob a influência dos tropicalistas, de Gilberto Gil, de Hendrix e dos grupos ingleses de então. Ninguém na MPB, porém, foi capaz de reunir em um mesmo registro tantos clássicos, com acabamento tão refinado e original quanto os Novos Baianos fizeram em 1972, com o disco Acabou Chorare.

Capa do disco Acabou Chorare

Da lendária abertura com “Brasil Pandeiro” (única releitura do disco, de clássico samba composto por Assis Valente) até o final com a reprise de “Preta Pretinha”, cada faixa no disco é tão histórica quanto inesquecível, como verdadeiros documentos da potência máxima a que a música brasileira pode alcançar – e cada uma dessa faixas é assinada por Moraes, sempre em parceria com Luiz Galvão, ora com a participação também de Pepeu ou de Paulinho.

“Preta Pretinha”, “Tinindo Trincando”, “Swing de Campo Grande”, “Acabou Chorare”, “Mistério do Planeta”, “A Menina Dança”, “Besta é Tu”, “Um Bilhete pra Didi” e esse é somente um único disco dos Novos Baianos. Não é por acaso que Acabou Chorare alcançou o topo da lista dos 100 Maiores Discos da Música Brasileira que a revista Rolling Stone realizou, através do voto críticos, pesquisadores, estudiosos, produtores e jornalistas – num raro caso em que esse tipo de eleição faz justiça ao que merece.

O disco seguinte, Novos Baianos F. C., é também uma grande obra, assim como Novos Baianos, a despedida de Moraes do grupo, ambos de 1974.

Moraes foi o compositor de praticamente todas as canções dos Novos Baianos, e se a fusão de estilos se tornaria marca do grupo, a partir do início de sua carreira solo, Moraes Moreira se confirmaria como um dos mais versáteis e singulares compositores da música brasileira. Seu nome está cravado na história do rock no Brasil da mesma forma que não é possível atravessar um carnaval ou uma festa de São João sem dançar a uma de suas composições.

Moraes também compôs com poetas como Paulo Leminski, Chacal, e músicos como Armandinho, Dodô, Osmar e seu filho Davi Moraes, mas sua grande parceiro foi mesmo Galvão.

A influência das drogas, em especial o LSD e a maconha, como um dos tantos arcabouços da arquitetura estética das canções, foi algo também preconizado por Moraes e os Novos Baianos no Brasil – da mesma forma que fizeram Os Beatles, Dylan, Hendrix e tantos outros na Inglaterra e nos EUA. Nada disso seria realmente relevante não fosse a imensa qualidade e a natureza quase enigmática e misteriosa das canções de Moraes e Galvão: difícil objetivamente decifrar cada um de seus significados, mas impossível não se misturar com tais canções, feito fossem partes de nossos corações, ao fim de cada audição. Moraes Moreira é – e que o tempo presente desse verbo jamais se altere – um desses artistas capazes de oferecer sentido, futuro e propósito a um país.

© Wikimedia Commons

E a seleção de grandes canções segue, interminável: “Eu Sou o Caso Deles”, “Vagabundo Não é Fácil”, “Dê um rolê”, “É Ferro na Boneca”, “Lá vem o Brasil descendo a ladeira”, “Festa do Interior”, “Pombo Correio” e a lista mal começou. Seu mestre João Gilberto tinha na mão direita de seu violão uma explosão de ritmos e estilos, e Moraes Moreira honrou essa herança ao luminoso e evidente patamar do gênio que é – não é preciso maior esforço para entender que a glória da música brasileira necessariamente passa por seu violão, seu canto, suas canções.

A camisa colorida de Moraes entre os Novos Baianos © Facebook

E se música popular é o coração cultural do Brasil, esse coração seguirá batendo, para além de qualquer finitude mera: a carne é de carnaval, o coração é igual – e sempre será.

© Facebook

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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