Reportagem Hypeness

Mulheres dominam mais de 70% da produção científica nacional, mas ainda enfrentam desafios de gênero

por: Gabrielle Estevans

Mais de 70% da produção científica nacional é feminina. O dado, levantado pela Organização dos estados Ibero-americanos (OEI), coloca o Brasil na liderança entre países da América Latina com maior número de artigos assinados por mulheres. 

A pesquisadora e CEO da MagicScience Brasil, Jackeline Alecrim, é uma das cientistas que endossam esses números. Seu trabalho é pioneiro e de reconhecimento internacional: Alecrim desenvolveu uma formulação realmente efetiva contra a alopecia, popularmente conhecida como calvície. “É maravilhoso ver como nós mulheres podemos fazer a diferença em todas as áreas, não apenas dentro daquilo que é estereótipo ou clichê. Isto é resultado direto da luta que temos assumindo desde gerações anteriores em busca de igualdade de gênero e de mostrar à sociedade que podemos fazer muito mais do que cuidar da casa e dos filhos, mas também contribuir para o desenvolvimento científico e fazer descobertas que mudam o mundo”, relata. 

Elas são maioria, mas são protagonistas no mundo científico?

 

Mulheres brasileiras têm 34% mais chance de se formar no ensino superior que seus pares masculinos, aponta o relatório Education at Glance 2019, mas a chance de conseguir emprego é menor. A remuneração também é diferente: de acordo com o estudo Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento habitual médio mensal delas é 75% do que ganham os homens. Os números tendem a ser ainda mais díspares quando é feito o recorte de classe e raça. 

Imagem: nappy.co

Vieses não tão invisíveis assim, como jornadas triplas de trabalho e o machismo estrutural, também são obstáculos às mulheres acadêmicas: “A circulação das ideias dessas mulheres certamente é menor. Primeiro porque há uma tendência a sair do mundo acadêmico quando começa a pesar a carga de trabalho doméstico e de cuidado — há muitas doutoras, mas não se vê publicação dessas mulheres como seria de se esperar —, e segundo porque as publicações em conjunto colocam os homens como principais, seja por uma relação de hierarquia entre coordenadores de pesquisas e assistentes de pesquisa, seja por uma relação patriarcal mesmo, na qual se justifica de diferentes formas porque é ‘mais interessante’ que o nome do homem venha primeiro na publicação”, explica Larissa Araújo, doutoranda em Antropologia e Sociologia. 

Mesmo em áreas em que a presença feminina é massiva, ainda assim produções masculinas ganham destaque e ascensão maior que a de mulheres. “Venho de uma área de graduação considerada feminina, que é o Design de Moda. O grosso da produção científica em moda vem de mulheres, mas é possível observar a ascensão de alguns autores homens que, mesmo não sendo pesquisadores, logo se tornam referência na área, ainda que suas publicações sejam fracas em termos científicos”, diz Iana Perez, doutoranda em Design pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Quando seguiu para a pós-graduação, o cenário não foi diferente: “A maioria dos textos clássicos de Design em geral é escrita por homens. Isso se reflete também na minha área de pesquisa, que é o design para a sustentabilidade. Se pedirem para alguém da área listar os principais autores, dificilmente vão mencionar alguma mulher. Inclusive, já vi muita apresentação de moda e design em que se referiam a uma mulher como ‘o autor’. É como se não houvesse o devido reconhecimento da produção científica de mulheres”. Para a doutoranda, é preciso quebrar as barreiras impostas pelo patriarcado para que autoras sejam devidamente reconhecidas e não fiquem à sombra de seus colegas homens. Também é necessário que as próprias instituições se posicionem e garantam políticas de apoio e incentivo para mulheres. “Além de tudo, há a questão das pesquisadoras mães ou que ficam grávidas e que nem sempre recebem o devido respaldo por parte dos programas de pós-graduação”, pontua. 

 

Coronavírus

 

A pandemia de covid-19 decretada no dia 11 de março pela Organização Mundial de Saúde (OMS) também trouxe à superfície questões de gênero. No caso da educação, já há casos de total abandono por parte de instituições acadêmicas com alunas de baixa renda. É o caso de Cintía Silva de Deus, que teve sua história revelada pelo The Intercept no começo de abril. A universitária é moradora do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo, e preside há dois anos a Comissão de Mães do Crusp. Junto de outras onze famílias, ela vive no que é conhecido como “bloco das mães”. Segundo seu relato, a USP as deixou à própria sorte. Depois de dispensar os funcionários terceirizados para que pudessem passar a quarentena em casa, as moradoras assumiram a limpeza do espaço. A universidade não forneceu nenhum material de limpeza. Também não orientou mães que têm filhos com problemas respiratórios. “O abandono ficou mais evidente agora, mas ele não é de hoje”, desabafa, em entrevista ao veículo. 

Atualmente fazendo trabalho de campo, em Quito, Equador, para sua pesquisa de doutorado, Larissa Araújo diz que o semestre de aulas não foi suspenso e que há mínimo preparo de sua instituição para enfrentar a crise, mas que, mesmo assim, ainda há falhas: “A minha universidade é na Suíça, lá o semestre não foi suspenso e as aulas estão acontecendo online. O setor administrativo está fazendo teletrabalho. Eu, particularmente, não tive nenhum tipo de ajuda para ser repatriada, mas sei que estão acompanhando os pesquisadores que estão na Suiça, acompanhando os casos confirmados de coronavírus e promovendo atividades virtuais para manter a saúde mental dos que estão em isolamento por lá. Pra quem está longe, fica mais complicado acompanhar por questão do fuso horário. Então eu diria que há uma certa preocupação com os estudantes, mas nada mais contundente em relação à ajuda financeira emergencial ou suspensão de pagamento de tuition fee, por exemplo”. 

Imagem: nappy.co

Já na UNESP, instituição de Iana Perez, o despreparo para conduzir a situação é maior: “Uma hora não é pra passar atividade pros alunos de graduação, outra hora é pra passar, depois informam que talvez suspendam o calendário, e em seguida anunciam que as atividades foram mantidas até tal dia, mas não decidiram ainda o que fazer depois disso. Agora, está tudo muito incerto, a gente não sabe se o calendário vai ser mantido, modificado, suspenso ou cancelado. Em parte existe o medo de dar abertura para o modelo EaD, e em parte existe uma preocupação genuína com os alunos que não têm bom acesso à internet, mas não parece ainda haver um consenso em relação ao que fazer”. 

Mesmo com as dificuldades, Perez traz uma lição de sororidade para a questão. “Não tenho nada do que reclamar da minha orientadora. Ela está mantendo o calendário de reuniões do grupo de pesquisa e de orientações mensais por videoconferência e é, em geral, muito compreensiva. E, no meio disso tudo e da ameaça de cortes de bolsas, eu recebi a notícia de que finalmente receberei uma bolsa de doutorado. Ainda que esteja tudo muito incerto e que haja diversas falhas de comunicação na minha universidade, as atividades de ensino e de pesquisa é que tem me mantido de pé todos esses dias”. 

 

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Gabrielle Estevans
Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.

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