Debate

O que é hipocondria e como a pandemia de coronavírus influencia a vida de quem sofre com ela

Gabrielle Estevans - 15/04/2020 | Atualizada em - 22/04/2020

Diretamente ligada à ansiedade e a transtornos obsessivos compulsivos, a hipocondria ganhou novos contornos com a chegada do coronavírus e sua disseminação pelo globo. E se antes hipocondríacos já tinham preocupação abundante com doenças e um medo excessivo da morte, agora ganham mais um inimigo. Antes apontada como doença e desde 2013 considerada pelo Manual de Diagnóstico Psiquiátrico como transtorno de sintomas somáticos e transtorno de ansiedade, a hipocondria se caracteriza pela focalização compulsiva do pensamento e das preocupações sobre o próprio estado de saúde e pela maximização de sintomas. A partir daí, frequentemente há a procura de médicos diversos e realização de exames rotineiros. Em contextos pandêmicos, não é só o pânico de portar o vírus que assusta hipocondríacos. É também o terror prévio de não poderem recorrer ao sistema de saúde — já sobrecarregados pelo mundo por conta de sintomáticos e pacientes que testaram positivo para a COVID-19. 

Para M.* os dias de quarentena têm sido de altos e baixos. Hipocondríaca “desde sempre”, diz que não teve um momento “Eureka” em que se viu, pela primeira vez, vivenciando o transtorno: “Sempre tive muito medo de doença, medo da morte. Acho que quando comecei a ter os primeiros episódios de pânico esse lado hipocondríaco tenha se aguçado, mas sempre convivi com ele, desde a minha infância. Foi na análise que consegui nomeá-lo”. Com a pandemia, e trabalhando de casa, sai raramente para compras eventuais que precisam ser feitas. “Fui comprar frutas e legumes aqui no quarteirão de casa e depois nem consegui dormir com medo de ter pegado algo. Nos dias seguintes àqueles em que participo dos panelaços contra Jair Bolsonaro acordo com dor de garganta de tanto gritar e já fico receosa achando que é um sintoma de COVID. Mesmo assim, na medida do possível, estou me saindo melhor do que pensei que ficaria, até mesmo porque minha psicóloga me lembra que, hoje, esse pânico não é só vivido pelos hipocondríacos, mas pela população em geral”, explica. Além das sessões de terapia, M. diz que também recorre a um controle das informações que consome. Assim, evita, na medida do possível, gatilhos que possam agravar a condição.  

Imagem: nappy.co

Ajuda profissional 

Não é o suficiente que, nesse momento, hipocondríacos abusem de tentativas autoconvencimento ou recorram à positividade tóxica — que defende que sentimentos lidos como ruins devem ser colocados para baixo do tapete. A recomendação é que procurem ajuda profissional. “Já é sabido que o paciente verdadeiramente hipocondríaco não se tranquiliza quando confrontado com argumentos racionais que tem como objetivo oferecer-lhe evidências concretas da falácia de sua lógica. Então a metodologia permanece a mesma: investigar a despeito da objetividade dos fatos, se não resta algo que está sendo deslocado de outra cena do passado histórico rememorado para a cena atual objetivamente preocupante com suas ameaças de perigo real”, reitera Julio Cesar Nascimento, psicanalista e professor do Curso de Formação do Centro de Estudos Psicanalíticos. 

Imagem: nappy.co

Em tempos de quarentena, psicólogos têm oferecido acolhimento online para combater ansiedade pelo isolamento. Clínicas e profissionais liberais estão atendendo por videochamada e telefone para que pacientes continuem fazendo suas sessões. Também há atendimentos gratuitos para quem não pode pagar. 

* A pedido da fonte, mantivemos apenas a inicial de seu nome

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Gabrielle Estevans
Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.

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