Debate

Quarentena por coronavírus faz EUA registrar 1º mês em 18 anos sem tiros em escolas

por: Yuri Ferreira

A pandemia de coronavírus impactou diretamente as nossas vidas e tem escancarado diversas das incongruências da nossa sociedade. Desigualdade social, acesso à saúde, condições de saneamento básico são algumas das primeiras e mais claras, especialmente no nosso país. E nos EUA, o país com o maior número de casos e mortes por covid-19 no mundo todo, um fato de sua realidade foi demostrada com dois pés na porta: a violência por armas nas escolas.

Um levantamento feito pelo jornalista Robert Klemko revelou que março foi o primeiro mês em que não houve tiroteios em escolas desde 2002. A situação excepcional da covid-19 que levou ao fechamento de 120 mil escolas públicas nos EUA no dia 21 de março claramente contribui para o número histórico.

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Em uma manifestação no Novo México, o pedido é que nas salas de aula tenham lápis, não armas

Os EUA tem uma das políticas armamentistas mais desregulamentadas de todo o mundo. O forte lobby no Congresso, centrado pela NRA (Associação Nacional dos Rifles) impede que a discussão sobre quaisquer restrições para compras de armas sejam tomadas. Regulamentações de porte ou limitações por tipos de arma não existem.

O problema estadunidense com tiroteios em escolas nasce dessa questão: pelo porte de armas ser cultural, especialmente no interior do país, crianças acabam tendo contato com rifles, submetralhadoras e pistolas. E desde os anos 70, os EUA tem altos índices de violência por armas nas escolas. Em 2018, o número de high-school shootings chegou em seu pico: foram 94 tiroteios, quase 2 por semana.

-Atirador da Flórida que matou 17 participava de movimentos de supremacia branca

Inspirados em fóruns na internet que cultuam essa prática, a violência vem do extremismo: supremacia  branca, misoginia e ódio a minorias são os elementos teóricos que pintam a vida desses adolescentes atiradores. Eles se tornam heróis e suas atitudes se replicam nas redes. É um fenômeno intrínseco à cultura digital, especialmente dos chans, fóruns anônimos de discussão.

Aqui no Brasil, tivemos alguns casos similares. Vimos, em 2012, o massacre de Realengo, no Rio, e, no ano passado, o caso de Suzano, na região metropolitana de SP. Ambos causados por violência com armas e ambos com conexão aos chans.

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O Brasil não é um dos países mais armados do mundo, mas é o que mais mata por arma de fogo. Segundo o Mapa da Violência, graças ao Estatuto do Desarmamento, 160.036 mortes foram evitadas graças à lei. Antes da política, sancionada em 2003, o número de mortes por arma de fogo crescia a 5% por ano. Após o Estatuto, o número cai em 1% ao ano.

Nos EUA, o alvo não é só o ambiente escolar. Os tiroteios em boates e igrejas, reais atentados terroristas, também acontecem frequentemente graças à desregulamentação. Um dos casos mais chocantes foi da balada gay Pulse, em Orlando, na Flórida, em que o atirador matou 49 pessoas. O Hypeness relembra a emocionante série de fotos que conta as histórias dos sobreviventes do ataque em Orlando.

A segunda emenda da clássica Constituição Americana tem o direito ao porte de armas garantido, o que causa grande entrave legal na discussão. Mas diversos estados e cidades tem criado leis para regulamentar e reduzir a circulação desse tipo de objeto. Chicago, por exemplo, proibiu o porte pistolas – grande responsável pela violência urbana-, permitindo apenas a posse de rifles de caça.

Vigília por vítimas de um tiroteio em uma escola de ensino médio na Flórida

Para se ter uma ideia da importância do lobby das indústria bélica dentro da política americana, é só observar os dados da última eleição para presidente: o então candidato Donald Trump recebeu mais de 30 milhões de dólares em doações da Associação Nacional dos Rifles. Não a toa, defendeu que uma política adequada contra os tiroteios nas escolas fossem professores armados.

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Por lá, debate acaba sendo bem mais longo. As dificuldades de regulamentação no Congresso e a paixão cultural pelo porte são entraves complexos para uma restrição do uso no país. Segundo a CNN, durante a quarentena, as empresas de vendas de munição online aumentaram mais de 1000% suas vendas no Colorado, 945% no Arizona e 897% em Ohio. Mas talvez, agente possa pensar em uma outra realidade, um outro mundo, em que armas não sejam tão importantes assim, afinal, nenhum vírus se mata na bala.

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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