Debate

Seita religiosa e cafeicultor com selo de qualidade integram nova lista do trabalho escravo

Yuri Ferreira - 16/04/2020

Apesar de o Brasil ter abolido a escravidão em 1888, o trabalho forçado em lavouras no nosso país ainda está longe de ter acabado.Entre 1995 e 2016, mais de 56 mil pessoas foram libertadas de condições análogas a escravidão e a situação se mantém em diversos estados do país. Hoje sob o guarda-chuva do Ministério da Economia, a inspeção de condições de trabalho acontece continuamente e uma lista de empresários que submetem pessoas a trabalhos forçados é disponibilizada ao público.

Foram anunciados novos 41 integrantes da ‘lista suja’ que é mantida desde 2003 para mapear os escravizadores do nosso país. A nova lista, conforme publicado na Repórter Brasil, conta com três nomes que saltam aos olhos. O cafeicultor Joair Aparecido de Oliveira, a seita Comunidade Cristã Traduzindo o Verbo e a garimpeira Raimunda Oliveira Nunes.

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Joair Aparecido Nunes mantinha três trabalhadores em condições análogas à escravidão em sua fazenda na cidade de Conceição do Ipanema, em Minas Gerais. Os funcionários da lavoura de café produziram para um selo de qualidade chamado Nucoffee, que exporta cafés de alta qualidade para o exterior.

Apesar de manter a fazendo de Jaoir em seu site, a Nucoffe afirmou que não negocia mais com o cafeicultor desde 2017. A empresa disse ainda que a “permanência ao programa está condicionada ao atendimento de boas práticas agrícolas e trabalhistas”.

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A Comunidade Cristã Traduzindo o Verbo foi autuada por manter mais de 500 pessoas em condições análogas à escravidão. Uma reportagem do Intercept Brasil de 2018 denunciou o sistema: pessoas recuperadas do vício em drogas eram recrutados para trabalharem fazendas da seita sem receber salário: apenas alimentação e dormitório.

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Raimunda Oliveira Nunes é a proprietária de um garimpo ilegal em Itaituba, cidade no oeste do Pará. Segundo os auditores do governo, ela submeteu 38 pessoas a trabalho escravizado, num processo chamado de ‘servidão por dívida’: os trabalhadores passaram a dever para ela e todo o ouro extraído ia pras mãos delas.

Segundo o Repórter Brasil, quando foi autuada pela auditoria, ela afirmou que “O bandido que tá na rua ninguém pega. A gente, que tá aqui trabalhando, merecia mais consideração”, argumentou. “Estão me tratando que nem bandido”. No caso, manter pessoas em condições de escravidão é crime tipificado no artigo 149 do Código Penal.

 

 

 

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness.