Debate

Subnotificação e coronavírus: o que o caso do Equador pode ensinar ao Brasil

Yuri Ferreira - 17/04/2020

O Brasil está sofrendo com a baixa capacidade de testes para coronavírus. O país, que postergou a compra dos kits para testagem e possui cerca de 300 testes para cada milhão de habitantes, pode acabar sofrendo graves consequências da doença, que certamente terá um espalhamento mais rápido e, consequentemente, uma sobrecarga do sistema de saúde.

Uma província no Equador pode mostrar o grande problema da baixa capacidade de testagem para covid-19. Em Guaya, região litorânea do país latino, 6,7 mil pessoas morreram no último mês. A média geral é de 1 mil pessoas por mês. O aumento de 670% nas mortes está diretamente relacionado à pandemia: com a intensa superlotação dos hospitais da região, casos de covid-19 e de outras doenças acabam sendo ignorados e a população adoece.

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O elevado número de casos também aponta para o fato de que talvez a doença esteja sendo subnotificada. 70% dos casos confirmados no Equador estão em Guaya e “não há espaço nem para vivos, nem para mortos”, disse a prefeita de Guayaquil, capital da província. O país, que tem poder econômico pequeno em comparação com as grandes potências mundiais, não tem capacidade de testagem.

A quantidade de mortos em Guayaquil é assustadora; não há capacidade no sistema funerário e hospitalar do país. Subnotificação levou a uma situação insustentável

No nosso país, a quarentena instaurada tem baixa recepção. Segundo a Inloco, mais da metade dos estados tem circulação de pelo menos 50% da população desrespeitando a ordem de isolamento social. Um levantamento do G1 mostra que 61% dos internados com sintomas de covid-19 ainda não receberam testes sobre a doença. A situação pode ser similar a observada na Itália: sem lockdown e pessoas assintomáticas circulando pelas cidades, o vírus se espalha em grande velocidade, com dificuldade para achatar a curva.

“O fato de a gente estar, no momento, fazendo exame só para casos moderados a graves mascara a realidade da infecção aqui no país”, explicou a infectologista Raquel Stucchi, professora da Unicamp, ao GLOBO.

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Segundo a Prefeitura de São Paulo, o número de mortos presumido (com casos confirmados e suspeitos) ultrapassa 1200 na cidade, três vezes maior do que o exibido pelo Ministério de Saúde.

Não dá para desconsiderar mais na estratégia esta pessoa que morreu com todas as características clínicas que era de covid-19, que foi testada, mas eu não tenho resultado. Não dá para deixar fora [das estatísticas] para montar uma estratégia da secretaria. Não é um contingente pequeno, é mais de duas vezes o número de mortes confirmadas. Por isso que a gente passou a fazer uma conta só“, afirmou o Secretário de Saúde de São Paulo ao UOL.

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Segundo a Fundação Oswaldo Cruz, na semana entre 15 e 21 de março o Brasil registrou 9 vezes mais internações por insuficiência respiratório do que o normal. Os números aparentemente baixos do país – que está em boa situação em comparação às grandes potências do mundo – não deveriam tranquilizar. Pelo contrário, podem apontar para um futuro próximo bastante sombrio.

“Mas isso já preocupa. Isso significa que nós já estamos colocando uma carga em cima da rede hospitalar extremamente elevada – muito acima do que a gente esperaria necessitar de leitos hospitalares para doenças respiratórias nesse período do ano. É fundamental que a população faça adesão massiva às campanhas de distanciamento social, para que a gente consiga frear o número de hospitalizações para que não entre em colapso no nosso sistema de saúde”, afirmou ao G1 Marcelo Gomes, do Programa de Computação Científica da Fiocruz

 

 

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Fotos: © Getty


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness.