Matéria Especial Hypeness

Violência contra a mulher e coronavírus: a casa como cativeiro em tempos de isolamento social

por: Clara Caldeira

No fim de março, há quase um mês, quando começaram as recomendações de isolamento social com o objetivo de achatar a curva de contaminação pelo novo coronavírus no Brasil, um dado já chamava a atenção. Com apenas poucos dias de quarentena, o estado do Rio de Janeiro, um dos primeiro a adotar o isolamento como política de combate à pandemia, já registrava um aumento de 50% nos casos de violência contra a mulher.

Na semana passada, a ONG Think Olga divulgou o relatório “Mulheres em Tempos de Pandemia: os agravantes de desigualdades, os catalisadores de mudanças”. O levantamento alerta para o fato de que, a despeito de todos os impactos e mudanças que estamos vivenciando (e ainda vamos vivenciar) coletivamente, o abalo sentido por grupos mais vulneráveis, entre eles as mulheres, será mais profundo, complexo e potencialmente duradouro.

Segundo o documento “Gênero e Covid-19 na América Latina e no Caribe: Dimensões de Gênero na resposta”, publicado pela ONU Mulheres no dia 20 de março, “enfrentar uma quarentena é um desafio para todos, mas para mulheres em situação de vulnerabilidade pode ser trágico. No Brasil, onde a população feminina sofre violência a cada quatro minutos e em que 43% dos casos acontecem dentro de casa, essa preocupação é real”.

Violência contra a mulher: uma pandemia dentro da pandemia

Na China, segundo ONGs de proteção à mulher, denúncias de vítimas e testemunhas aumentaram três vezes desde o início da quarentena. Em um condado da província chinesa de Hubei, epicentro inicial do surto do novo coronavírus, a violência doméstica triplicou em fevereiro. 

Um dos casos que acabou tendo exposição na mídia foi o de uma parente da ativista Xiao Li, que vive na província de Henan. Segundo ela, a familiar relatou numa rede social estar sofrendo agressões por parte do ex-marido. 

“Estávamos super preocupados com o quão fácil era para o agressor bater nela durante a quarentena”, disse em entrevista ao Sixth Tone. “Não há restaurantes abertos, nenhum transporte permitido. Eles (a mulher e seus filhos) não comem há muito tempo”. Xiao Li conseguiu uma permissão para retirar sua familiar do local em que ela estava, distanciando-a de seu agressor. 

Mas esse não foi um caso isolado. Para denunciar casos de violência e ajudar mulheres a pedir ajuda, foi criada a hashtag #AntiDomesticViolenceDuringEpidemic (#ContraViolênciaDomésticaDuranteEpidemia). O recurso foi usado mais de 3 mil vezes na rede social chinesa Sina Weibo com relatos de vítimas ou testemunhas.

Leia também: Coronavirus, isolamento social e a sobrecarga de mulheres mães

Na França, as denúncias cresceram 30% desde o início do lock down, em 17 de março. Ligações de emergência para canais de denúncia aumentaram 33% em Cingapura, 30% no Chipre e 25% na Argentina. Aumento das denúncias de agressão e de pedidos de abrigo durante a pandemia também foram registrados na Espanha, no Canadá, Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e Brasil.

De acordo com um levantamento feito pela Folha, no estado de São Paulo, o número de feminicídios quase dobrou nessa quarentena, em comparação com o mesmo período do ano anterior. De 24 de março – data em que passou a valer, oficialmente, o fechamento de comércios, bares e restaurantes no estado – a 13 de abril, 16 mulheres foram assassinadas dentro de casa. No mesmo período de 2019, foram nove, segundo boletins de ocorrência registrados.

Wânia Pasinato e Elisa Sardão Colares, especialistas em questões relacionadas a violência de gênero, feminicídio e direitos humanos lembram que, historicamente, em situações de extrema ruptura social causadas por crises políticas, econômicas ou sanitárias, homens e mulheres sofrem todas as consequências como deslocamentos forçados, perda de casa e bens, medo, insegurança, fome e doenças.

No caso das mulheres e meninas, cada uma dessas consequências acaba por vir acompanhadas de agravamentos de violências de natureza física, psicológica, sexual, patrimonial e moral, com os devidos e duros contornos da violência que se vê baseada no gênero. Nesses contextos, a ausência de instituições responsáveis por dar respostas às violências de gênero acaba sendo ainda mais sentida na sociedade, com recuo de possíveis ganhos institucionais de contenção e enfrentamento a essas violências existentes nos períodos de normalidade. 

(Wânia Pasinato e Elisa Sardão Colares, especialistas em questões relacionadas a violência de gênero, feminicídio e direitos humanos.)

Leia a análise completa em: Pandemia, violência contra as mulheres e a ameaça que vem dos números

Comorbidades colocam Brasil no grupo de risco

E por falar em Brasil, não podemos nos esquecer que, mesmo antes da pandemia, já ostentávamos a 5ª maior taxa de feminicídios do mundo (4,8 para 100 mil mulheres), segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ainda segundo a organização, 5 mil mulheres são assassinadas por ano, localizando o Brasil em sétimo colocado em números absolutos dentre 83 países pesquisados. Em 2015, o Mapa da Violência sobre homicídios de mulheres revelou que, no país, entre 1980 e 2013, 106.093 pessoas morreram por sua condição de gênero. Ainda segundo o documento, entre 2003 e 2013, o número de feminicídios passou de 3.937 casos para 4.762 mortes. Na mesma década, o número de assassinatos de mulheres negras cresceu 54%, passando de 1.864 para 2.875.

Segundo relatório publicado em novembro de 2018 pelo Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (Onudd), das 87 mil mulheres assassinadas no mundo em 2017, cerca de 50 mil foram mortas por um parceiro amoroso ou familiar. Uma mulher é morta por alguém que conhece a cada 10 minutos e 137 mulheres são mortas diariamente por algum parente. Ainda segundo o relatório, a África e as Américas são as regiões onde mulheres têm o maior risco de serem assassinadas por pessoas próximas. 

Olhando para estes números, além da tristeza, só nos resta agora uma preocupação: o agravamento deste cenário que já começa a ser detectado por pesquisas e levantamentos. O motivo? O fato de que, durante a quarentena, a grande maioria das mulheres fica confinada junto do agressor e com contato restrito com parentes, amigos e instâncias públicas de apoio, acolhimento e denúncia. 

A casa como cativeiro

Segundo relatório publicado pela ONU no início de abril, a combinação de aumento no stress social e medidas de restrição de circulação e isolamento já está causando um crescimento exponencial na violência contra as mulheres. De acordo com a organização, isso acontece por um motivo simples, mas cuja solução pode ser complexa: durante a quarentena muitas mulheres acabam ficando presas com seus agressores.

Na maioria dos casos, a violência contra a mulher acontece dentro de um relacionamento. Dados do Ministério da Saúde apontam que, no Brasil, 70% dos casos de violência contra a mulher ocorrem dentro de casa e, em quase todos eles, o agressor é uma pessoa próxima, na maioria das vezes o parceiro amoroso. 

Com o confinamento e o stress gerado pela pandemia de Covid-19, a tensão nesses lares aumenta ainda mais. Segundo a diretora executiva adjunta da ONU Mulheres, Åsa Regnér, em entrevista ao podcast café da Manhã, da Folha de S. Paulo, no episódio que foi ao ar na última quinta-feira, 16 de março, “Se você vive em confinamento, você provavelmente está fazendo isso com seu parceiro. tanto homens como mulheres estão em muitos casos sob pressão e frustração por causa de uma economia enfraquecida, ou que sabe de um parente que está doente ou qualquer coisa assim. Mas a violência não vem da frustração em si, todo mundo está frustrado, mas aqueles que usam violência em outras situações podem, provavelmente, usar a violência no isolamento e no confinamento”.

Os números são alarmantes, mas especialistas acreditam que os índices de denúncia de violência doméstica não representam a realidade, já que há uma expectativa de ampla subnotificação. O fato de a mulher não poder sair de casa dificulta a denúncia. Ou seja, as vítimas estão isoladas e monitoradas por seus agressores e o quadro podem ser bem pior do que o que indicam as estatísticas.

Metendo a colher: como governos e indivíduos podem ajudar

Iniciativas pelo mundo todo já estão atuando para tentar diminuir o impacto do isolamento social na vida de mulheres que estão em relacionamentos violentos. Na Argentina, foi criado um código para a mulher pedir ajuda quando ligar para a farmácia. A iniciativa do governo, em parceria com a Confederação Farmacêutica, sugere que a mulher que precisar de ajuda peça para comprar uma máscara vermelha. Os atendentes dizem então que o produto não está disponível em, em seguida, pedem os dados da pessoa para repassá-los ao serviço de atendimento a agressão doméstica.

Em Portugal, o governo aumentou o número de vagas nos abrigos de mulheres, por meio, inclusive, de parcerias com hotéis e AirBnbs e criou um serviço de atendimento por SMS, para evitar que a mulher precise falar em voz alta ao realizar uma denúncia. Na França, o governo iniciou um movimento de custear estadias em hotéis para poder afastar vítimas de seus agressores. 

Aqui no Brasil, o Mapa do Acolhimento está mapeando dados de serviços da rede pública, que prestam serviços a mulheres vítimas de violência durante a quarentena imposta pelo coronavírus. A campanha Tô Com Elas prevê a criação de um mapa online georreferenciado reunindo mais de 5 mil serviços públicos em todo o território brasileiro onde serão listadas delegacias, centros de referência, defensorias, hospitais de emergência, entre outros. Para isso, foram recrutadas 500 voluntárias e voluntários. Cada pessoa se comprometeu a entrar em contato com 10 serviços públicos para realização do mapeamento.

Leia também: Coronavírus e o impacto nos negócios de mulheres empreendedoras

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos lançou um aplicativo, chamado Direitos Humanos Brasil, que possibilita que vítimas de violência doméstica façam a denúncia online. No estado de São Paulo, desde o início do mês, é possível fazer o boletim de ocorrência deste tipo de crime pela internet. No site da Polícia Civil, basta clicar em “outras ocorrências” para registrar o B.O., que pode incluir ainda o envio de imagens e o pedido de medidas protetivas. Os números de Disque Denúncia seguem funcionando normalmente. Basta discar 180 ou 190. 

Mas cada um de nós também pode ajudar. Se você tem alguma amiga ou parente e sabe que essa pessoa vive um relacionamento abusivo, mantenha contato diário. Crie um código para que essa pessoa possa te pedir ajuda caso seja necessário. Reúna os dados da pessoa enquanto a situação estiver tranquila para que, num caso extremo, possa ajudá-la a fazer um boletim de ocorrência. Se ouvir gritos ou discussões na vizinhança, não ignore, preste atenção. Para interromper uma situação de violência você pode ligar para o 190 ou mesmo tocar a campainha ou bater na porta para que o agressor saiba que está sendo ouvido. Meta a colher. Sempre. Nunca é demais lembrar. Você pode estar salvando a vida de uma mulher.

 

Publicidade


Clara Caldeira
Quatro anos e meio à frente do conteúdo do Hypeness, após atuar por seis anos como editora no Catraca Livre, Clara Caldeira é jornalista com 15 anos de experiência em cultura, comportamento, cidadania, tendências e pesquisadora em comunicação, gênero, corpo e meio ambiente. Já participou de projetos de reportagens, documentários, branded content e formações diversas com ONGs, assessorias culturais e publicações digitais variadas.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Filha de George Floyd diz que ‘papai mudou o mundo’ e mãe lamenta ausência de figura paterna