Debate

Agência Pública: agrotóxicos com potencial cancerígeno são encontrados na água do Brasil

por: Yuri Ferreira

Uma reportagem da Agência Pública, mostrou que os níveis de agrotóxicos na nossa água são preocupantes. Uma fraca regulação, a difícil medição dos índices e a liberação de novos pesticidas pelo Governo Federal são alguns dos fatores que contribuem para a incrível quantidade de “defensivos agrícolas” na água que sai da torneira dos brasileiros. Muitos deles são considerados como prováveis cancerígenas pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e, segundo a União Europeia, são causadores de disfunções endócrinas.

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Pressão do agronegócio para reduzir o debate sobre agrotóxicos preocupa especialistas

Desde Março, o Ministério da Agricultura, chefiado por Tereza Cristina, liberou a entrada de 100 agrotóxicos no Brasil e aguarda o sinal verde para mais 200. Acontece que essas substâncias vão parar na água que nós ingerimos e, não, o filtro de água não consegue retirar esse tipo de químico da sua torneira. Além disso, as estações de tratamento não são capazes de fazer a limpeza.

– 26 mil é o número de brasileiros com intoxicação por agrotóxicos nos últimos 10 anos

A pesquisadora Larissa Mies Bombardi, da USP, afirmou em entrevista à Rede Brasil Atual, que o Governo tem aproveitado a pandemia para passar pautas polêmicas sem discussão. “Eu diria que isso é um oportunismo sem precedentes. Não é hora da gente discutir isso. É hora da gente cuidar da pandemia”, declarou a professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo. Bombardi é Pós-Doutora e foi autora do Atlas ‘Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia’.

Sinal verde para o veneno 

O Brasil permite quantidades enormes de agrotóxicos na água. Enquanto a UE adota um máximo de 0,5 microgramas de todos os agrotóxicos somados por litro, o Brasil autoriza, somente para o glifosato, 500 microgramas. Mil vezes mais. Com a combinação de diversos pesticidas, cientistas temem os impactos disso na saúde das pessoas.

Ainda de acordo com a reportagem feita pela Aência Pública em parceria com o Repórter Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) recomenda que o Brasil adote novas métricas para controlar a presença dos ‘defensivos agrícolas‘ na água. Além disso, a Fundação pediu ao Ministério de Saúde – que está fazendo consulta pública sobre o tema – para que aumente o número de substâncias a serem testadas na água. Hoje, são 37. A Fiocruz propõe que ao menos mais 35 componentes sejam incluídos na lista.

– Anvisa divulga lista de alimentos com maior nível de contaminação por agrotóxicos

A alta permissibilidade dos últimos governos com a utilização dos ‘defensivos agrícolas‘ é preocupante em diversos aspectos: além da contaminação aquática, o uso de agrotóxicos pode estar associado ao desaparecimento das abelhas, um problema silencioso que deve afetar drasticamente o meio-ambiente.

A pressão pela desregulamentação dos pesticidas na agricultura vem da Bancada Ruralista. Com forte influência no Ministério da Agricultura e grande presença parlamentar, a articulação do agronegócio pressiona pela liberação total dos pesticidas e regulamentação fundiária, como na Medida Provisória 910, que busca permitir a grilagem, prática que incentiva o desmatamento no interior do nosso país.

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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