Arte

 Aldir Blanc: thread mostra como hino contra a ditadura de Elis Regina passou pela censura

por: Vitor Paiva

É justo que o nome da artista e colorista digital mineira Marina Amaral seja tão recorrente aqui no Hypeness: seja por colocar cor em fotos históricas do passado ou por impedir que esqueçamos dos horrores de Auschwitz colorindo fotos dos prisioneiros nos campos de concentração, o fato é que o trabalho de Marina é realmente incrível. Seu perfil no Twitter merece os mais de 210 mil seguidores que possui: além do próprio trabalho e da divulgação dos mais incríveis arquivos fotográficos, o perfil é uma fonte vasta de conhecimento, cultura e de conscientização. Em homenagem à vida e obra do poeta e compositor Aldir Blanc, falecido no último dia 04, Marina reuniu uma porção de documentos, registros e histórias sobre algumas de suas principais composições em uma thread – especialmente em sua relação com a censura e a ditadura militar.

O compositor Aldir Blanc © Facebook

A thread começa onde tinha mesmo de começar: com “O Bêbado e o Equilibrista”, espécie de hino da anistia e do fim da ditadura no Brasil, composta por Aldir e João Bosco e lançada por Elis Regina em 1979. Uma foto mostra o documento oficial da passagem da letra pela censura – e segue: um áudio de Elis, falando sobre a gravação, uma reportagem sobre a feitura da canção, e ainda o belo relato sobre o trecho da letra que diz de um Brasil que “sonha com a volta do irmão do Henfil”.

A letra se refere ao sociólogo e ativista Herbert de Souza, o Betinho, irmão do cartunista Henfil, que havia sido exilado. “Henfil descreveu a chegada de Betinho: ‘Todas as pessoas levaram um gravador com a fita da música’”, escreveu Marina.

E as postagens não se restringem a essa canção: falam também de “Mestre-Sala dos Mares”, outro clássico de Bosco e Blanc, lançada em 1975 também por Elis, mas antes censurada diversas vezes ao contar a história de João Candido Felisberto, líder negro da “Revolta da Chibata”, em 1910. “Blanc relatou, em uma entrevista, que foram várias as idas ao departamento de Censura para liberar o samba. Naquele tempo, era praticamente inadmissível que uma canção homenageasse um marinheiro negro que havia se revoltado contra o governo.”, diz uma das postagens, em citação de reportagem.

João Bosco e Aldir © reprodução

E ainda mais informações, matérias, imagens e materiais nessa singela homenagem levantada por Marina a um dos maiores nomes de nossa música, de nossa poesia e da cultura brasileira como um todo. O trabalho merece a visita, como mais uma pequena lâmpada a iluminar a grandeza de Aldir Blanc, que faleceu no último dia 04 de maio, por conta da Covid-19.

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© fotos: reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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