Matéria Especial Hypeness

Belchior e seus versos sempre atuais nos dão força em tempos incertos

por: Jader Pires

Tenho ouvido muitos discos, sim. Conversado com pessoas. À distância. No momento em que escrevo essas sentimentalidades, impulsionado pelo “Alucinação”, de 1976, já tem três anos e quatro dias que Belchior se foi e temos passados os cem mil casos confirmados de Coronavírus no Brasil, com mais de sete mil mortos (dados do Ministério da Saúde colhidos em 4 de Maio). Você poderia me perguntar “e daí?”, mas sei que não seria tão baixo a este ponto. O caso é que, se o álbum “Alucinação” fez nossas cabeças em 2018, agora em vinte vinte ele é uma roupa que ainda nos serve, sim. 

O aconchego do folk, da graça na beatlemania e todos os tons do forró, do baião num rompante juvenil, inocente. Belchior era um sábio por ser ingênuo. E a gente anda tanto precisando de um escape…

Por isso fui buscar nos trinta e um minutos combinadas em dez faixas, palavras de alento pra gente passar com um pouco mais de folga por esses tempos problemáticos de isolamento. Sem dinheiro no banco, mas trazendo de cabeça umas canções do rádio.

Viver é melhor que sonhar

O mundo como conhecíamos já não existe mais. Lemos esta frase e suas variantes quilos de vezes e ainda não nos acostumamos com ela. Pudera, as mudanças drásticas demoram a ser assimiladas. Só que é chegado o tempo de entendermos as implicações práticas dessa doideira toda e começarmos, já, a viver e não mais passear no mundo das ideias. Sim, já faz tempo, cabelo ao vento e gente jovem, reunida, mas a distância imposta pela quarentena não precisa gerar afastamentos ou inconclusões. A movimentação aqui é simples: amem! Tretem. Chamem as pessoas que vocês gostam para seguir as relações, não coloquem papos na espera, afagos para depois do fim, nem atrasem resoluções, planos mirabolantes. A adaptação vai se fazer necessária, ainda somos os mesmos, em casa, guardados por deus! 

Aproveitem, amigos e amigas! O momento é o mais complexo possível, mas nossa vidinha é, ainda, uma só. Aproveitemos.

O novo sempre vem

 O que nos parece, esses tempos revoltosos, é que estamos no ápice de uma narrativa e que, claro, depois disso virá o final. Mas não é bem assim. Somos viciados em narrativas, nossa mente pede conclusões, mas estamos mais para sapos boiando de barriga para cima no meio do lago, com implicações mais violentas e menos violentas das ondas que nos acometem por acaso, sem cadência ou motivo. Então, se nos colocamos nesse mundão pra levitar com ventura (lembram que o Los Hermanos fez uma versão de A Palo Seco, do Belchior?), saibam que a pandemia não é limiar de nada e o pós-pandemia não é a conclusão de porra nenhuma! Ciclos e reações e casualidades. O novo já chegou e o novíssimo vai chegar. Dá pra vislumbrar milhares de posições das nossa vidas com o novo.

E fiquem tranquilos. Uma nova mudança, em breve vai acontecer.

Cuidado meu bem, há perigo na esquina

Mas momentos difíceis pedem essa nossa atenção redobrada, olhar lúcido para o que acontece de perigoso e trágico, para as lambanças governamentais, as trapalhadas ministeriais, as canastrices que os protetores da opulenta capacidade econômica insistem em perpetrar. Tudo tá como o diabo gosta, tá. E se a minha alucinação é suportar o dia a dia, façamos isso também com ternura, mas com fúria de quem não acha que tá tudo bem, que tá tudo legal.

Podíamos estar pensando em progressividades de solturas, mas não temos números. Podíamos estar, neste momento, empoleirados em janelas cantando canções de ajuda e socorro, aplaudindo os heróis que se arriscam nas entregas e na saúde, nos serviços essenciais. Mas não temos nem a oportunidade de nos colocarmos em um clima esperançoso. Além do enorme problema de saúde, temos uma crise política avassaladora e uma sucessão de erros e equívocos e incapacidades no gerir da pandemia. Não temos planos. Não podemos pensar em planos. 

Amigo, eu me desesperava…

Um tango argentino, que neste exato instante conta com duzentos e quarenta e seis mortes (dados do Governo Argentino) me vai bem melhor. Sejam afáveis, mas sejam duros. Sejam duros, mas sejam afetuosos.

Afinal, mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar. 

Viver é que é o grande perigo. Esse ano? Eu não morro.

Obrigado, Belchior. De novo.

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Jader Pires
Jader Pires é escritor. Largou a publicidade, a experiência de sete anos em um banco e foi escrever. Começou a ler livros depois dos vinte e teve que correr atrás do tempo perdido. Já lançou três livros: o Ela Prefere as Uvas Verdes e o Do Amor, de contos, e agora, lança o seu primeiro romance, Deserto Negro, já disponível para compra. Siga-o no Instagram! @jaderpires.

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