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Brasil importa testes de coronavírus de ‘terceira divisão’ e com alto índice de falha, diz site

por: Karol Gomes

Um levantamento do site Intercept cruzou dados de processos de liberação de testes para detectar coronavírus do Brasil, com os de sistemas de vigilância sanitária de outros países e constatou que o país está comprando produtos de terceira divisão.

De acordo com a pesquisa, 75% dos reagentes para a verificação do vírus da Covid-19 já autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, chegam ao Brasil sem a chancela internacional apropriada.

Isso quer dizer que prefeituras, governos e empresas brasileiras estão comprando testes que não têm aval do controle sanitário dos países de origem para serem vendidos neles.

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O maior problema está nos testes importados da China. Dos 28 laboratórios estrangeiros cujos testes foram aprovados pela Anvisa, 15 são chineses. No entanto, somente três deles foram aprovados pela vigilância sanitária do país. Do total de 28 laboratórios estrangeiros, apenas sete desses foram aprovados em inspeções efetivas em seus países de origem.

A qualidade dos testes fabricados pelo Hangzhou Biotest Biotech já foi questionada num estudo realizado na Universidade de Stanford, na Califórnia. Na verificação feita por um grupo de 17 pesquisadores da instituição, a partir de amostras de 37 pessoas sabidamente contaminadas, os testes da Hangzhou Biotest Biotech apontaram, equivocadamente, que 12 delas não tinham a covid-19: uma sensibilidade de apenas 67,2%.

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Antes mesmo da divulgação do estudo de Stanford, o governo chinês proibiu em 1º de abril a exportação dos testes desse fabricante – por também ter identificado problemas na precisão deles. A restrição atingiu vários outros fabricantes locais e tinha por objetivo “controlar estritamente a qualidade, manter a ordem de exportação e reprimir produtos falsificados e de má qualidade”.

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Os kits fabricados pela Hangzhou Biotest Biotech chegaram no início de abril. Àquela época, o exame já não podia ser exportado. O governo da Paraíba também comprou esses mesmos testes, e o início da aplicação deles no estado foi documentado em reportagem do Fantástico, da TV Globo, em 26 de abril.

O caso da Hangzhou Biotest Biotech não é isolado. Outra fabricante chinesa, a Chaozhou Hybribio Biochemistry, não tem chancela do governo de Pequim para exportar seus testes. Apesar disso, aparentemente a Bahia é a grande vitrine mundial de seus produtos.

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A página da empresa na internet destaca a entrega de testes para o governo baiano – foram 60 mil –, despachados por avião em 30 de março. É a única menção a clientes externos durante a pandemia, além de uma postagem sobre uma carta de agradecimento recebida do governo da Hungria.

A Brazil 3 Business Participações, representante da Chaozhou Hybribio Biochemistry por aqui, diz ter acordo que prevê a aquisição de 3 milhões de testes para serem revendidos no mercado brasileiro. O governo baiano foi procurado para comentar o negócio na quarta-feira, dia 29, por email, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.

Em função da pandemia, em 19 de março a Anvisa mudou as regras de aprovação de testes no Brasil. O objetivo era tirar burocracias do caminho para permitir o abastecimento mais rápido do defasado mercado nacional, despreparado para enfrentar a situação atual. Logo, a agência decidiu aceitar documentação incompleta dos fabricantes e não fazer inspeção para certificar práticas adequadas de fabricação.

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Em caso de pendência de documentos, em vez da autorização padrão de dez anos, seria dada uma licença provisória, de um ano. Nesse período, a fabricante e sua representante no Brasil poderiam atualizar a documentação e prorrogar a comercialização por mais nove anos.

Em abril, a Organização Mundial da Saúde, a OMS, também passou a avaliar testes, para dar mais um carimbo de credibilidade aos produtos. A entidade começou a receber, de forma voluntária, ensaios de fabricantes de testes rápidos, com o objetivo de “auxiliar agências e estados-membros interessados na adequada utilização de diagnósticos in vitro específicos, baseados em um conjunto mínimo de dados disponíveis sobre qualidade, segurança e performance”.

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Foto: Getty Images


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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