Debate

Cemitério erguido para Gripe Espanhola sepulta vítimas de covid-19 cem anos depois

por: Vitor Paiva

102 anos depois de sua fundação, o cemitério de São José, em Macéio, completa um triste círculo, praticamente retornando à sua função original: se em 1918 sua construção se deu para receber as vítimas da gripe espanhola, em 2020 ele recebe os corpos daqueles que morreram por causa da pandemia do novo coronavírus. Os dados de sua fundação não são claros, mas estima-se que cerca de 2 mil pessoas tenham morrido na capital do estado do Alagoas – mas os números podem ser muito maiores: a pouca documentação mostra que, entre o dia 1 e o dia 10 de dezembro de 1918, 126 pessoas foram enterradas no Cemitério de São José.

Cemitério de São José, em Maceió © Ascom

A repetição se dá como uma farsa trágica: até o dia 03 de maio de 2020, Alagoas havia registrado 1.441 casos do novo coronavírus, com 64 mortes – mas, assim como em todo o Brasil (e, pasmem, como também se deu 102 anos atrás com a gripe espanhola) o controle é pouco e a subnotificação é muita: os números devem ser muito piores.

Em 1924 o cemitério ganhou um muro ao redor © História de Alagoas

E o descaso oficial também era similar, conforme mostra reportagem da BBC Brasil – que conversou com o historiador Edberto Ticianelli, que confirmou que no início a “espanhola” foi tratada como uma gripe benigna.

Anúncio mostrando como se comportar para combater a disseminação da gripe espanhola em 1918

Rapidamente, porém, outra realidade se impôs – como também acontece agora: as aulas foram suspensas, o comércio fechado, e a recomendação de que todos fiquem em casa, evitando aglomerações a todo custo. A gripe espanhola tirou a vida de cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo – desses, 35 mil no mínimo eram brasileiros. A repetição dos erros leva a repetição das tragédias – e ao cemitério de São José retomando sua triste função original. Que a ciência nos salve, para que o final da história ao menos não se repita.

Entrada do cemitério © História de Alagoas

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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