Ciência

Cloroquina: OMS suspende testes e pneumologista referência diz que se curou de coronavírus sem o remédio

por: Yuri Ferreira

Os testes com cloroquina e hidroxicloroquina foram suspensos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Os medicamentos usados no tratamento do coronavírus não tiveram bons resultados contra a doença segundo um estudo publicado pelo The Lancet, uma das principais publicações científicas de todo o mundo. A pesquisa, feita com 96 mil pacientes da covid-19 indicaram que os medicamentos, que costumam tratar de malária e doenças autoimunes, aumentam o risco de morte em pacientes da nova doença.

Após a publicação do estudo, que praticamente encerrou o debate sobre a droga no campo científico, a OMS anunciou que os tratamentos com a droga serão suspensos. A decisão confronta em especial o governo de Donald Trump – que afirmava tomar hidroxicloroquina preventivamente contra o novo coronavírus – e o Brasil, que baixou um protocolo de utilização em massa dos remédios no país.

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O diretor geral da Organização Mundial da Saúde foi claro ao declarar que a OMS suspenderia os testes com cloroquina

Tedros Adhanom Ghebreyesus, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, fez o comunicado em coletiva nessaterça-feira. “O grupo executivo implementou uma pausa temporária do braço da hidroxicloroquina no Estudo de Solidariedade, enquanto os dados de segurança são revisados pelo Conselho de Monitoramento de Segurança de Dados”, afirmou. “Desejo reiterar que esses medicamentos são aceitos como geralmente seguros para uso em pacientes com doenças autoimunes ou malária. A OMS fornecerá mais atualizações à medida que sabemos mais”, concluiu.

O estudo do The Lancet aponta que as consequências cardíacas da cloroquina podem piorar os quadros de arritmia em pacientes com coronavírus. O estudo ainda reiterou que a mortalidade foi maior no grupo que usou a droga. No grupo que não tomou medicamentos, 9,3% morreram.  No grupo que fez somente uso de cloroquina, a mortalidade foi de 16%. No grupo que tomou hidroxicloroquina com antibióticos, a taxa foi de 23%.

Pneumologista se curou sem cloroquina

Em entrevista à coluna de Guilherme Amado na ÉPOCA, a pneumologista Margareth Dalcolmo, da Fiocruz, afirmou que não ministrou a cloroquina como medicação para nenhum de seus pacientes e nem em si mesma quando foi contaminada.

“Não usei em nenhum paciente que tratei desde o início da epidemia, com base nas informações disponíveis e à falta de qualquer robustez cientifica para tal. O tempo e os estudos que saíram provaram a ausência de qualquer eficácia e até aumento de complicações e mortalidade, em todos os momentos da doença”, explicou.

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No começo da pandemia, medicamento – hoje comprovadamente ineficaz – se esgotou das farmácias. Riscos cardíacos da cloroquina são altos

No Brasil, o médico Nelson Teich foi demitido do Ministério da Saúde por não autorizar a utilização em massa do medicamento, especialmente devido à falta de estudos que comprovassem a eficácia do medicamento. O Governo Federal optou pela utilização do remédio.

“Jamais a usaria em mim mesmo ou autorizaria qualquer colega a fazê-lo em mim. Me perguntaram se usei algum desses remédios sem nenhuma validade, como vermífugos e similares. Não, e jamais os usaria. Usei anticoagulantes desde o primeiro sintoma porque a doença é sabidamente trombogênica”, afirmou Margareth Dalcolmo.

Margareth Dalcomo, que teve covid-19, não recomenda a cloroquina

O oncologista e comunicador Drauzio Varella também criticou médicos negacionistas. Para ele, a negação da ciência é grave e a utilização da cloroquina tem sido amplamente politizada, o que não deveria acontecer. Em entrevista à rádio Metrópoles, o médico aproveitou para reiterar sua posição pró-ciência:

“Estamos numa situação hoje em que, se você votou no atual presidente da República, você é contra o isolamento e a favor da cloroquina. Se você não votou e não gosta do presidente, você é a favor do isolamento. Não tem cabimento uma coisa. Chegamos a politizar o uso de um medicamento. Que coisa mais insensata”, afirmou.

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Fotos: foto 1: Getty Images/foto 2: Getty Images/foto 3: Reprodução/TV Globo


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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