Fotografia

Fotos de entregadores em quarentena italiana para refletir sobre racismo e colonização

por: Gabriela Glette

A Itália foi um dos países mais afetados pelo coronavírus e também um dos primeiros do ocidente a apresentar casos. No entanto, é preciso tomar cuidado com aquele discurso clássico da quarentena, afinal, no mundo em que vivemos, poder estar em quarentena é um grande privilégio. Se o isolamento social apresenta inúmeros desafios, sorte de quem pode ficar em casa, fazer home office e mergulhar no tédio sem fim. Porque, enquanto isto, a população vulnerável não pôde se dar a este luxo e estas fotografias de entregadores em plena quarentena italiana denunciam exatamente isto. Afinal, quarentena pra quem?

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Enquanto cidades, antes repletas de turistas, se transformaram em lugares fantasmas, os canais de Veneza ficaram mais transparentes do que nunca e o nível de poluição baixou drasticamente. Consequência direta do isolamento horizontal, centenas de pessoas não tiveram esta opção, ora porque não tinham um lar, ou ainda porque precisavam continuar trabalhando para poder comprar comida. Este série fotográfica foi feita pela fotógrafa italiana Eleonora Costi, que decidiu usar sua arte para homenagear entregadores do mundo inteiro.

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E quem são estas pessoas? Assim como outros países europeus, a Itália também teve seu papel na colonização africana. Responsável pela colonização da Somália e Eritréia, assim como da Líbia – no Oriente Médio, a história nós já conhecemos. Se antes o continente africano era formado sobretudo por sociedades tribais bem organizadas, depois da chegada dos europeus, os povos que não foram dizimados pelos colonizadores tiveram que viver segundo a organização imposta pelos estrangeiros, inclusive em relação ao idioma. A função “civilizar”, que costumamos aprender nos livros de história, nada mais foi do que  o consentimento para a livre exploração da África, que hoje luta por mais liberdade, acesso aos direitos básicos e qualidade de vida.

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Nos últimos anos, uma série de conflitos políticos, ideológicos, assim como a busca por uma vida melhor, fez ressurgir inúmeros movimentos migratórios no país. Pela proximidade geográfica em relação à África e Oriente Médio, milhares de imigrantes chegam pelo mar, em botes salva-vidas que não garantem que a viagem seja bem sucedida. Muitos morrem, outros tantos chegam sem meios de subsistência e, para estes, à margem da sociedade, restam os chamados subempregos, única oportunidade àqueles sem oportunidades.

Se bares e restaurantes estiveram fechados por mais de 2 meses, eles contavam com o essencial serviço de delivery para continuar faturando e pagando o salário de seus funcionários. À medida que a pandemia se agravava, os entregadores de aplicativo transformavam-se em protagonistas. Sushi, pizza, compras de supermercados e até mesmo drogas eles entregaram durante o caos. Enquanto parte da população se isolou em casa, a procura por serviços que evitam o deslocamento e aglomeração de pessoas, especialmente para a entrega de comida e bens de consumo na porta de casa, aumentou. Em sua maioria negros e imigrantes, estes entregadores arriscaram suas vidas, mas isto não foi fruto de uma escolha deliberada. À margem da sociedade, esta era a única opção que eles tinham. Eles ajudaram os restaurantes a sobreviver e permitiram que os italianos satisfizessem alguns de seus desejos. Além dos profissionais da saúde, eles também são nossos heróis!

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Fotos: Instagram


Gabriela Glette
Uma jornalista que ama poesia e mora na França, onde faz mestrado em comunicação. Apaixonada por viagens e inquieta por natureza, ela encontrou no nomadismo digital o segredo de sua felicidade, e transforma a saudade que sente da família e amigos em combustível para escrever suas histórias.

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