Debate

Infectologista de hospital referência do Brasil convive com xingamentos e buzinaço: ‘Filha da p* pra baixo’

por: Yuri Ferreira

Em uma entrevista à Revista Esquinas publicada no HuffPost Brasil, o infectologista Jamal Suleiman, do Hospital Emílio Ribas, que fica na capital paulista, desabafou acerca da sua difícil batalha contra os negacionistas da pandemia do novo coronavírus. Ele relatou um pouco da rotina dos profissionais de saúde que estão na linha de frente da batalha contra a pior epidemia vista pela humanidade nos últimos 100 anos. A reportagem foi feita por Samirah Fakhouri.

Jamal frequentemente aparece em veículos da mídia como especialista, afinal, como infectologista de um dos principais centros de saúde pública do Brasil, sua opinião deve ser levada em conta. Entretanto, os conspiradores obscurantistas que negam a existência da pandemia, influenciados por grupos ideológicos da política brasileira, transformaram o período – que já seria difícil – em um inferno.

– Coronavírus: mostre a fala de David Uip emocionado por cura para quem ainda quer romper quarentena

“Eu fiquei de plantão no fim de semana de 2 a 3 de maio e, só pra você ter uma ideia, todos os dias teve buzinaço na porta do hospital… Para eles, o Emílio Ribas estava vazio. A verdade era o contrário: estávamos com 100% da capacidade ocupada”, relatou Jamal durante a entrevista.

Jamal tem sido uma das principais vozes na mídia para incentivar o isolamento social e tem sofrido ataques nas redes sociais

Ele acredita que as autoridades e, em especial, o Governo Federal, carregam boa parte da culpa pela rejeição à quarentena e às medidas de proteção estabelecidas pelo Ministério da Saúde e pela OMS. Para ele, a influência perigosa das ideias conspiratórias dificulta a vida do cidadão:

“O que aconteceu foi que não teve um dia sequer que o presidente da República não tentou desconstruir essa abordagem de segurança, que é mundial, apoiada em evidências científicas e referendada pelo próprio Ministério da Saúde. Como é que a população vai seguir alguma recomendação quando se tem saindo de um mesmo foco [o governo federal] duas informações antagônicas? Na cabeça de alguém sem domínio técnico da gravidade da situação, qual você acha que será a verdade que essa pessoa seguirá? Muitas vezes, segue a mais confortável: sair para rua, se aglomerar, desrespeitar as normas”, reiterou.

– William Bonner dá bronca no ‘JN’ em quem ainda não entendeu gravidade da pandemia

Em recente entrevista à Globo News, Jamal não segurou o choro ao relatar a situação da pandemia no Brasil

Em uma entrevista para a Folha de São Paulo, Jamal defende a instituição de um lockdown. Para ele, a pergunta que resta é: se Espanha, Portugal, Itália e China conseguiram aceitar a quarentena e ficaram em casa, por que o Brasil não poderia conseguir. Suas ideias, apesar de tudo, parecem ser odiadas pelos negacionistas, que atacam o especialista nas redes sociais.

“Eu gosto de dizer que tenho duas mães, a mãe que me criou e que eu amo de paixão, que também está de saco cheio do isolamento, que acha que a abandonei… E aquela que é puta, que é do que muitos me chamam nas redes sociais e até quando me veem na rua. Filho da puta virou elogio. É disso pra baixo. Eu bloqueio, denuncio, bloqueio e denuncio. Você vê que em alguns casos é por falta de informação. Em outros, é porque precisam descontar em alguém. Se as pessoas estão buscando respostas, não é buzinar na porta do hospital que trará essas respostas. Muito menos duvidar da única medida que nós temos [o isolamento social]. Essa dúvida mata”, desabafou Jamal.

Publicidade

Fotos: Reprodução/Globoplay


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Caso Robinho: jornalistas da Globo tem número vazados e sofrem ataques