06 • 05 • 2020 às 18:07
Atualizada em 30 • 06 • 2020 às 19:27
Yuri Ferreira• RedatorÉ jornalista paulistano e quase-cientista social. É formado pela Escola de Jornalismo da Énois e conclui graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo. Já publicou em veículos como The Guardian, The Intercept, UOL, Vice, Carta e hoje atua como redator aqui no Hypeness desde o ano de 2019. Também atua como produtor cultural, estuda programação e tem três gatos.
Antes da pandemia de coronavírus, já se previa uma uma epidemia de escala global que afetaria o mundo. As autoridades não levaram a sério na época – e muitas não estão levando até agora – e estamos sofrendo os efeitos da falta de investimento em pesquisa. Mas, segundo alguns especialistas, a crise do coronavírus pode ser apenas o começo do problema. Em entrevista à BBC, o médico da USP e professor da FGV, Eduardo Massad, afirmou que talvez a ‘grande pandemia‘ ainda esteja para chegar.
Professor emérito da USP e titular da FGV, Massad acredita que uma nova pandemia esteja à caminho
Segundo o professor, a interação de grupos com baixo acesso à proteína – com o consumo de animais silvestres como ratos, morcegos e aves – , além dos grandes circuitos migratórios e cadeias de produção global, bem como as grandes aglomerações humanas são alguns dos fatores que contribuem para a ideia de que a pandemia de coronavírus é apenas o começo.
“A Grande Epidemia seria uma pandemia de proporções catastróficas que poderia matar algo como 2 bilhões de pessoas no mundo em um ano. Ela causaria uma queda significativa na expectativa de vida da humanidade: da média atual de 72 anos para aproximadamente 58 anos. Essa possibilidade existe e se baseia, em parte, em eventos históricos como a peste bubônica”, afirmou o professor à BBC.
O professor adiciona que ela poderia ter similaridade ao coronavírus no que se refere ao surgimento: provavelmente de origem zoonose – ou seja, vinda de animais. Entretanto, precisaria ter a mesma ou maior transmissibilidade e um nível de mortalidade ainda maior. Ele cita a preocupação que o mundo tem com a H5N1, a Gripe Aviária, que tem uma grande capacidade de transmissão mas (ainda) não migrou para seres humanos.
Tendo como referência a Peste Bubônica, que aconteceu no século 14 e dizimou, segundo estimativas, até 60% da população europeia, Hassad prevê que uma grande epidemia ainda poderia acontecer. A sua visão é corroborada pelo epidemiologista Ian Lipkin, professor da Universidade de Columbia, que também acredita que logo após o coronavírus, podemos enfrentar outra pandemia.
“Acredito que estejamos vendo essas crises de saúde mais frequentemente por fatores como aquecimento global, migração populacional, comércio internacional e turismo ainda maior. Esses fenômenos contribuem para a rapidez para as quais as epidemias estão aparecendo. Desde a Gripe Espanhola, vimos o HIV, a febre de Nipah, a Chicungunha, SARS, MERS. Eu acompanhei ao menos 15 pandemias em potencial”, disse ele.
Hassad acredita que o coronavírus irá dar lições sobre a importância do distanciamento social. Mas reitera que não vê uma transição simples com a covid-19. “Minhas preocupações de médio e longo prazo dizem respeito aos efeitos econômicos das medidas de distanciamento e dos impactos sobre a saúde mental das populações atingidas por elas. À ansiedade pelo medo da doença somam-se os efeitos de uma quarentena prolongada por várias semanas enfrentada por um número enorme de pessoas ao redor do mundo”, afirmou.