Entrevista Hypeness

Quarentena, consumo responsável e bons drinks em um papo com Neli Pereira

por: Gabriela Rassy

Que todo mundo virou a Palmirinha na quarentena já sabemos. Mas a alta do bolo de cenoura e do pão de fermentação natural vem acompanhada de bons drinks, certamente. Para falar sobre esses dias de isolamento social e pedir algumas dicas para arrasar nos coquetéis, convidamos a bruxa sem defeitos Neli Pereira.

Ela é jornalista, bartender e proprietária do Espaço Zebra junto com o artista plástico Renato Larini. Nesse lugar que é um misto de speakeasy, galeria de arte e loja, ela coloca em prática sua pesquisa que a transforma numa perfeita alquimista dos coquetéis.

Sua carreira percorre a cultura brasileira até chegar nas tradicionais garrafadas medicinais. Ela percebeu que muitas das ervas já usadas pelos botecos desse Brasil, como catuaba, carqueja e jurubeba, vinham da sabedoria ancestral das nossas curandeiras, benzedeiras e erveiras. Então passou a investigar todos os sabores da nossa terra para, a partir deles, criar drinks inovadores e muito brasileiros.

Neli passou a se interessar de fato por coquetéis depois de uma carreira longeva no jornalismo. Passando por emissoras nacionais e internacionais, ela fez mestrado em estudos culturais latino-americanos para estudar a identidade brasileira lá atrás em 2005. “A coquetelaria só fez sentido para falar sobre o Brasil”, explica.

Ela tem um trabalho muito importante que é de coquetelaria brasileira com ingredientes que a gente deveria mas não conhece – ou que a gente conhece fora do contexto dos coquetéis, como chá ou infusão.

Para mim é super importante falar sobre isso e sobre consumo responsável de álcool nesse momento, afinal de contas é importante lembrar que a gente vive uma crise de saúde e como a gente brinda dizendo saúde, precisamos estar saudáveis.

Batemos um papo para falar de lives, da pesquisa de ervas, de saúde e, claro, de coquetel:

HYP | No meio dessa quarentena muitas pessoas estão usando com tudo as lives. Como é esta experiência para você?

NELI | Eu acho sensacional! Eu não tenho televisão em casa, não tenho nenhum desses canais pagos de séries – eu não gosto de assistir séries -, então eu acho que as lives são uma forma de você fazer curadoria de conteúdo que te interessa. Muita gente que produz conteúdo ou que tem experiências profissionais interessantes acabou utilizando essa plataforma para criar. Então hoje está muito mais fácil de você consumir conteúdos que você gosta e, mais do que isso, de você incentivar essas pessoas a virarem de fato influenciadoras. Muita gente ficava guardando esse conteúdo para si e agora tá liberando essas informações. Tenho assistido várias e eu mesma faço lives todos os dias. Eu sou jornalista de formação, tenho uma facilidade e gosto de me comunicar e acho que a coquetelaria, que é que eu trabalho ultimamente, precisa dessa comunicação por que muita gente quer beber drink em casa e não sabe como fazer, não conhece tanto das categorias de um destilado ou de outro. Então as lives são uma forma da gente consumir conteúdo de qualidade. Eu tenho certeza que seja qual for o seu interesse, tem alguém falando sobre isso hoje em algum ao vivo.

Tem um amigo meu que diz que tá com medo de abrir a geladeira e tá lá: a cebola está ao vivo! Não tenho problema contanto que a cebola, minha gente, tenha algo a dizer.

HYP | Você é uma super bruxa da coquetelaria! Como chega nas misturas que unem drinks a ervas medicinais?

NELI | Eu percebi lá em 2012, 2013 que existia uma onda de coquetelaria, mas que pouca gente estava falando sobre ingredientes nacionais. Quando eu fui pesquisar aquelas infusões que a gente já usa nos botecos – catuaba, carqueja, jurubeba, sassafrás – percebi que isso não estava vindo para o universo dos bares de coquetéis. Notei que muitas dessas ervas, plantas, cascas e raízes são usadas medicinalmente nas nossas Garrafadas medicinais pelas benzedeiras, erveiras, mateiros e tanta gente pelo Brasil afora. O que eu fiz então foi uma pesquisa de sabor: afinal de contas que gosto tem o boldo, a catuaba, a jurubeba? Não me interessou tanto o princípio ativo desses ingredientes, mas o princípio de sabor. Assim, minha coquetelaria é inteira com base no ingrediente. Eu nunca começo um coquetel pensando: “nossa eu quero fazer um coquetel parecido com o clássico x”. Não, eu começo pensando que quero fazer um coquetel de cumaru, de priprioca. Daí mais ou menos o ingrediente vai me dizendo como trabalhar a partir de um perfil de aromas e sabores. E de saberes! Por que eles também já são usados na cultura brasileira de alguma forma e é sempre interessante ouvir – até porque essa cultura se passa por uma tradição oral – o que as pessoas que já trabalham com esses ingredientes, que são os guardiões da nossa cultura, têm a dizer sobre eles. É muito simples para mim chegar nos sabores por que parto sempre dos ingredientes e é o respeito a esses ingredientes, a quem plantou, a quem colheu e ao sabor natural deles que faz toda a minha coquetelaria.

HYP | Qual o maior desafio para fazer um bom coquetel?

NELI | Primeiro de tudo é pensar no equilíbrio e que menos é mais. Não adianta você fazer um bom coquetel que tem nove ingredientes, por que você vai ter o gosto de nove coisas perdidas ali no meio. Para mim, o principal desafio é você respeitar sem esconder o sabor daquele ingrediente, daquele destilado, seja ele uma cachaça, uma vodka, rum, bourbon, whisky. O que acontece muitas vezes é que os sabores ficam escondidos dentro do coquetel, muito por causa da acidez do limão, do cítrico, ou do açúcar e é isso que eu procuro não fazer. Eu gosto de fazer uma coquetelaria simples, de três ou quatro ingredientes no máximo, respeitando esses ingredientes. Acho que esse é o principal desafio.

HYP | A OMS recomenda que as pessoas diminuam o consumo de bebidas alcoólicas. Qual a sua opinião sobre esse tema?

NELI | Eu acho que é super bem-vinda essa recomendação. Tem uma palavra que eu acho super pertinente para esse momento que é temperança, moderação, isso é, consumir o álcool de uma maneira responsável. A gente não quer ter relação abusiva com ninguém, muito menos com o álcool. Nesse momento a gente tem que tomar cuidado sempre com mudança de hábito de consumo: se você não era alguém que bebia na hora do almoço e começou a beber, se você não era alguém que bebia uma garrafa inteira de vinho e começou a beber, se de repente aquela conta de destilados deu uma aumentada significativa e você está bebendo todos os dias, então é a hora de tomar cuidado. Acho que a reflexão a respeito do jeito que a gente bebe é super importante. Aí um monte de gente me fala: ‘mas, Neli, você trabalha com álcool não quer que as pessoas bebam’? Eu quero que as pessoas bebam de forma saudável e que elas continuem levando essa boa relação com álcool durante algum tempo. Não adianta querer que as pessoas bebam demais da conta, ultrapassem esses limites, porque elas não vão ficar saudáveis. Eu sempre brinco que o Brasil não nos obriga a beber. O Brasil nos obriga a ficar saudáveis, atentos e alertas nesse momento de pandemia. Então acho que é super bem-vinda a recomendação e qualquer pessoa que trabalha com bebidas tem a responsabilidade e a obrigação de incentivar o consumo responsável, inclusive ensinando a fazer coquetéis que têm um baixo teor alcoólico e não aquele monte de destilado um em cima do outro, que aí não vai resolver problema de ninguém.

HYP | Você me daria uma dica de drink para tentar fazer aqui na minha casa?

NELI | Eu não gosto de conversar de bico seco! É bom a gente ter sempre um coquetel, então vou dar dica de dois que são muito fáceis de fazer e que tenho certeza que você tem em casa. Aquele restinho de vinho que sobrou na geladeira rende bons coquetéis. Para quem gosta do spritz – e não é só aquele que ficou conhecido, alaranjadão – essa é uma bebida que mistura qualquer fundo viníco – de vinho – com uma bebida gaseificada. Então vamos lá:

Spritz

2 doses de qualquer vinho que sobrou na sua geladeira (se não tiver dosador pode usar o copinho de cachaça, que tem 50 ml) – vale vinho tinto, branco, rosé, qual você quiser!
Coloque gelo numa taça
Complete com o dobro (200ml) de água com gás* ou Club soda ou outra bebida gaseificada cítrica
Decore com frutas ou ervas, como alecrim, manjericão, hortelã..
Se for fazer em larga escala, arrisque uma sangria adicionando algum destilado que você goste (pode ser vodka saborizada, gin…) sempre na proporção: 1 de vinho, 1 de destilado, 2 de água com gás e decoração
* Neli sempre recomenda usar água com gás que você fica no lado mais seguro e vai garantir que o sabor fique bom

Drink de compota

1 dose de destilado (50ml)
2 colheres da compota ou geleia que você tem em casa ali fazendo aniversário na geladeira
Bata tudo na coqueteleira – ou num copo com tampa que você tiver
Pode colocar um tiquinho de limão se gostar de acidez
Sirva numa taça bonitona

Saúde!

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Fotos: Renato Larini e João Sal


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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