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Sleeping Giants: a luta contra as fake news que tira o sono de políticos no Brasil e no Mundo

por: Yuri Ferreira

O Sleeping Giants Brasil se tornou, em menos de uma semana, um dos principais polos de luta contra as fake news no nosso país. Criticado por políticos de extrema direita, como Carlos Bolsonaro, o movimento tem um método de combate novo, mas bastante simples. No Twitter, ele notifica as empresas que anunciam em sites que veiculam notícias falsas, como O Jornal da Cidade Online. Em 6 dias, a plataforma alcançou quase 300 mil seguidores, dezenas de marcas já foram notificadas e irão retirar suas propagandas do website.

O financiamento por publicidade é um dos principais benefícios para os criadores de notícias falsas no Brasil. Conforme aponta uma reportagem do The Intercept, esses veículos podem alcançar rentabilidade de até R$ 25 mil por mês. Alguns deles foram aconselhados pelo próprio Google sobre como ganhar mais cliques e aumentar a rentabilidade das suas plataformas. O Google é o principal veiculador de publicidade online no mundo. Através do Adsense – que você vê aqui no Hypeness também – a empresa facilita a exibição de anúncios em websites ao redor de toda a internet.

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Perfil do Sleeping Giants Brasil superou expectativas e alcançou 280 mil seguidores nas redes em menos de uma semana

Nos EUA, o movimento começou após a eleição de Donald Trump, com foco no combate ao Breitbart, principal veiculador de notícias falsas do mundo. Após alguns anos, ele chegou no Brasil com toda a força – e já até superou o número de seguidores da sede do movimento. A gente conversou com a Nandini Jammi, a co-fundadora do Sleeping Giants nos EUA, para entender melhor como surgiu a ideia.

“Tudo começou como um acidente. O Breitbart estava no pico de sua influência. Eu e o Matt Rivitz não nos conhecíamos na época, mas nós dois visitamos o site depois das eleições presidenciais de 2016 e notamos a mesma coisa: o Breitbart estava lotado de anúncios de marcas que provavelmente não gostariam de estar ali. Nos encontramos online, quando ambos estávamos mandando prints pras marcas pedindo para que elas colocassem o Breitbart na blacklist. O projeto cresceu do dia pra noite. Pessoas começaram a ver os resultados rápidos e começaram a se juntar a nós. Fizemos algumas instruções para quem quisesse aderir ao movimento, montamos planilhas para listar as marcas que tomaram ações e só continuamos a crescer. Posteriormente, descobrimos que o Breitbart perdeu 90% de sua renda com três meses de nossa campanha”conta.

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O Breitbart é apontado como principal espalhador de notícias falsas na internet americana. Empresa perdeu milhões de dólares após campanha do Sleeping Giants

Entretanto, não foi só a máquina de ódio de Donald Trump que perdeu renda por causa da ação dos ativistas. Outras empresas também foram afetadas pelo trabalho dos gigantes adormecidos:

  • O Sleeping Giants liderou a campanha para que marcas cancelassem seus contratos com Bill O’Reilly, o apresentador da Fox News que comprovadamente abusou sexualmente de suas companheiras de trabalho por anos.
  • A pressão conseguiu retirar diversos racistas, neo-nazistas e teóricos da conspiração das redes sociais. Alex Jones, por exemplo, foi removido do Spotify, Facebook, Twitter e da Apple por causa dos nossos esforços. “Essas pessoas estão violando os Termos de Serviço e Diretrizes de Comunidade. A gente só pede para que as redes fortaleçam suas políticas”, afirma Nandini.
  • O movimento conseguiu tirar as plataformas de monetização de organizações que espalham o ódio. Por exemplo, o PayPal parou de trabalhar com a Ku-Klux Klan.
  • O Cloudflare, serviço de proteção de dados na rede, largou sites como o The Daily Stormer e o 8chan, após a pressão do Sleeping Giants.

 

É importante reiterar que esse tipo de serviço é bastante importante para transformar a internet em um lugar mais seguro. Sabemos, como é indicado pela CPMI das Fake News, que diversos sites e equipes de ataque virtual, trabalham para promover a desinformação nas redes sociais. A jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de São Paulo, revelou que empresários fizeram disparos em massa por Whatsapp espalhando notícias falsas que afetaram diretamente o curso das eleições no nosso país.

Um dos principais comandantes do ambiente de ódio na internet é o estrategista político Steve Bannon, que auxiliou a campanha e Donald Trump e tem relações próximas com a família Bolsonaro. O supremacista branco de extrema-direita afirmou que os Sleeping Giants são “os piores”. Nandini Jammi acredita que esse é um ótimo elogio.

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Steve Bannon foi estrategista da Casa Branca e é o principal ideólogo de comunicação dos sites da “direita populista”. Ele se reuniu com Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, antes da eleição e é amigo de Olavo de Carvalho.

“É, ele acha que a gente é o pior. Bannon é um vigarista. Ele explorou as brechas do ecossistema da tecnologia, mas seu trabalho só funciona nas sombras. O Breitbart só era rentável porque as marcas não sabiam que estavam financiando esse tipo de iniciativa nefasta. Quando a gente trouxe à luz a informação e deu às marcas a oportunidade de responder, é claro que ninguém queria se associar com ele. A luz do sol é o melhor desinfetante”, afirmou a co-fundadora do movimento.

Eles financiam desinformação, fake news, discurso de ódio, enfim. Infelizmente, estamos presos em um sistema podre, e isso nos deixa sem opções: precisamos pressionar os anunciantes a remover as propagandas um por um

No Brasil, o principal estrategista de Jair Bolsonaro durante a campanha, Carlos Bolsonaro, já mostrou que está incomodado com o trabalho do Sleeping Giants:

Não, Jornal da Cidade Online, você não está sofrendo censura

Enquanto as alguns propagadores das ideias do Jornal da Cidade Online acusam o movimento de difamação, censura ou qualquer outro tipo de ilegalidade, o advogado Lucas Mourão explicou o porquê do movimento ser completamente amparado pela lei:

Muita gente questionou o método da rede de ativistas: ao invés de ir contra as marcas, por que não pedir ao Google para que retire o AdSense do site? Nandini explica:

“Para começar, é claro que o Google não deveria disponibilizar anúncios nesses locais. Sites como o Breitbart ou o Jornal da Cidade violam as políticas de conteúdo do Adsense. E eles não deveriam estar na rede. Isso é uma promessa do Google aos seus consumidores. Entretanto, o próprio Google não reforça seus próprios padrões de comunidade e não se importa se as marcas estão tendo problemas por causa desses anúncios”, afirma.

Por exemplo, o Google afirma que proíbe conteúdos que “assedie, intimide ou oprima um indivíduo ou grupo.” Como comprovado pela Justiça Brasileira, o site fez isso: o site Jornal da Cidade Online foi condenado na 44ª Vara Cível do Rio de Janeiro a indenizar Felipe Santa Cruz, presidente da OAB, em R$ 150 mil.

O apoia.se, uma plataforma de financiamento coletivo online que permitia doação mensal para o site também retirou a campanha que destinava  R$19 mil por mês ao Jornal da Cidade Online. Eles reclamam sofrer de censura, mas a opção é das próprias empresas: esse é o livre-mercado.

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Enquanto isso, a união para conscientização das marcas continua. O perfil do Sleeping Giants continua crescendo. Nandini relembra o mais importante:

“O objetivo desses sites é fazer dinheiro. A melhor maneira de fazer isso é garantindo tráfico através de clickbaits, discurso de ódio e propagação de mentiras com seus artigos. É o modelo de negócios deles. Nossa missão é acabar com o lucro deles.”

 

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Fotos: Destaques: Reprodução Foto 1: Reprodução Foto 2: © Getty Images Foto 3: Reprodução


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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