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5 homenagens para responsáveis pela morte de negros e indígenas no Brasil

por: Kauê Vieira

O assassinato covarde de George Floyd, morto pelo joelho do policial branco Derek Chauvin em Minneapolis, Minnesota, nos Estados Unidos, abriu caminho para um grito engasgado na garganta de homens e mulheres negras que convivem com todos os efeitos do racismo. 

– EUA cria memorial para jamais esquecer a vergonha da escravidão. Brasil deveria fazer o mesmo

A morte do homem de 46 anos que supostamente teria apresentado uma nota falsa de 20 dólares desencadeou os maiores protestos contra o racismo nos EUA desde o assassinato de Martin Luther King Jr., em 1968. A fúria dos manifestantes fez o presidente Donald Trump ser levado para um esconderijo secreto em um bunker na Casa Branca. 

Protestos pelo assassinato de George Floyd tomaram os EUA

Não distante do colonialismo baseado no sangue de africanos escravizados, o Reino Unido parece estar de frente com o passado racista. A explosão de protestos dissidentes do Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) teve o auge com a derrubada em um rio da cidade de Bristol de um monumento em homenagem ao dono de escravizados Edward Colston.

– Martin Luther King derrubou última trincheira segregada garantindo aos negros o direito ao voto

O ato simbólico contra a opressão racial recebeu a compreensão do prefeito de Bristol. Marvin Rees, que é negro e filho de imigrantes da Jamaica, disse que o monumento o incomodava. 

Estátua de Edward Colston, dono de escravizados

Estátua de Edward Colston, dono de escravizados

Estátua de Edward Colston, dono de escravizados

“Eu não posso e não vou fingir que a estátua de um traficante de escravos na cidade em que eu nasci e cresci não era uma afronta pessoal e para pessoas como eu”, destacou o prefeito em conversa com a BBC. 

Na Bélgica, uma estátua que homenageia um dos genocidas mais sanguinários da história da humanidade foi arrancada após intervenções de manifestantes. A estátua foi removida da cidade belga de Antwerp. O rei Leopoldo II comandou missões no Congo que culminaram na morte de 10 a 15 milhões de africanos no que ficou conhecido como o primeiro caso em que houve o emprego da frase ‘crime contra a humanidade’. 

Rei Leopoldo II comandou um genocídio negro no Congo

E o Brasil? 

Embora tenha seus próprios genocidas e casos e mais casos de violência contra a população negra, o Brasil parece observar tudo com um silêncio ensurdecedor. É como se o país estivesse recolhido num canto assistindo com preocupação o levante antirracista que se espalha pelo mundo. 

Protesto exige o fim do genocídio negro no Brasil

Protesto exige o fim do genocídio negro no Brasil

O país, é bom dizer, foi palco de protestos pelas vidas negras na primeira semana de junho. Em São Paulo, as manifestações que tiveram a participação de Mano Brown e Thaíde, terminaram com bombas e violência da polícia. Além disso, o debate sobre a exaltação de assassinos parece tomar corpo por aqui. Afinal, porque o país não discute suas próprias estátuas? 

O Hypeness listou alguns monumentos e símbolos brasileiros que exaltam a trajetória de homens que dizimaram populações indígenas e contribuíram para o sucesso da escravidão negra. 

1. Borba Gato 

Em São Paulo, quem passa pela Zona Sul da cidade dá de cara com um monumento grande de um homem segurando uma arma. Borba Gato, ali retratado, foi um bandeirante paulista responsável pela morte e a escravização de centenas de indígenas. Ao menos 30 mil índios foram capturados por bandeirantes paulistas e vítimas de abusos como o estupro.

Estátua que homenageia Borba Gato, em São Paulo

“Nem suas roupas seriam como as daquela estátua de gosto duvidoso de Borba Gato em Santo Amaro, que está vestida quase como um nobre. Aliás, nobreza é uma coisa que os bandeirantes não tinham. Eram homens duros, que falavam mais guarani do que português, andavam descalços e não tinham pudor de usar golpes baixos para enganar os índios, como se disfarçarem de padres”, diz trecho do texto ‘Os Indígenas e os Bandeirantes Reescrevendo a História Convencional’, publicado pela Universidade de São Paulo. 

2. Duque de Caxias 

Ele é nome de cidade do Rio de Janeiro, bairros e mais bairros no Brasil, terminais e linhas de ônibus. Agora, o que muita gente não sabe é o passado de Duque de Caxias. Embora tenha entrado para a história como um pacificador, Luís Alves de Lima e Silva era imperialista e escravocrata. 

O homem nascido em agosto de 1803, foi um dos pilares do massacre dos 10 mil mortos da Balaiada. A revolta aconteceu no Maranhão, em 1838, quando os chamados balaios reagiram ao estupro de mulheres por parte de policiais. Duque de Caxias, então, usou cavalos, canhões e armas contra o foice e facões dos que se rebelaram. Ele foi nomeado como Presidente e Comandante das Armas da Província.

Estátua de Duque de Caxias no Rio de Janeiro

Duque de Caxias teve participação também na Guerra dos Farrapos, que promoveu o enfrentamento entre o império e os detentores de terras escravagistas. Em determinado momento, Caxias teve que tomar uma decisão sobre o que fazer com os negros que lutaram ao lado dos farrapos. Ele optou por comandar uma espécie de emboscada que resultou na morte dessas pessoas, atacadas pelo exército imperial em 14 de novembro. 

“Poupe o sangue brasileiro o quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou dos índios, pois bem se sabe que essa pobre gente ainda pode ser útil no futuro”, instruiu Duque de Caxias sobre um evento que tirou a vida de pelo menos 1.700 lanceiros negros

3. Raposo Tavares 

Nome de uma das principais rodovias de São Paulo, Raposo Tavares é dono de um passado nefasto. No século 16, ele participou de expedições bandeirantes para capturar e escravizar índios. No ano de 1628, Raposo Tavares juntou 900 súditos da Coroa portuguesa, entre eles brancos e mamelucos, para uma expedição que prendeu mais de 2 mil indígenas e atacou outras 13 missões jesuítas.

Rodovia Raposo Tavares, em SP

O homem participou da destruição de aldeias indígenas em terras em Tati e Maracaju, entre outras. Além de rodovia, Raposo Tavares empresta o nome para um bairro de São Paulo. 

4. Cristóvão Colombo 

Tido por décadas como o responsável pelo ‘descobrimento’ das Américas, Cristóvão Colombo tem um monumento em sua homenagem na cidade de Santa Rosa, no Rio Grande do Sul. A fama de supostamente comandar genocídios de nativos norte-americanos é velha, sobretudo para as pessoas acompanham de perto a trajetória do navegador e explorador italiano. 

Estátua de Cristóvão Colombo em Santa Rosa, RS

A história oferece posições distintas entre historiadores. De um lado estão os que enxergam certo exagero nas críticas contra Colombo. Do outro, nomes como o do historiador britânico Roger Crowley, que falou ao El País sobre Colombo. Para ele, o italiano abriu caminho para “uma era de assassinato maciço por parte dos conquistadores europeus”. Para ele, que rechaça a intenção de extermínio, Colombo “é o pai fundador do genocídio no Novo Mundo”.

5. Barão de São Gonçalo 

Nome de rua na cidade homônima do Rio de Janeiro, Belarmino Ricardo Siqueira recebeu o título de Barão de São Gonçalo em 1849, aos 58 anos, por causa das posses e riqueza. Foi ele o último senhor de engenho no Colubandê, que recebeu seu amigo pessoal, o imperador D. Pedro II, diversas vezes em suas fazendas. No ano em que morreu, em 1873, o Barão de São Gonçalo tinha 216 escravizados que trabalhavam nas fazendas do Engenho Novo e Morro Grande. 

Fazenda Colubandê na cidade que leva o nome de um dono de escravizados

A Fazenda Colubandê teve descendentes do Barão de São Gonçalos até meados de 1968. Os escravizados viviam no subsolo da construção, que possuíam inclusive masmorras.  

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Fotos: fotos de 1 8: Getty Images/foto 9: Wikipédia/foto 10: Arquivo/AI/foto 11: Reprodução/foto 12: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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