Inspiração

A cidade que já foi uma das mais violentas dos EUA agora colhe os frutos da refundação da polícia

14 • 06 • 2020 às 20:15
Atualizada em 17 • 06 • 2020 às 20:09
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Desde o brutal assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis que o Conselho da Cidade passou a debater, com vasta maioria em favor, pelo fim da Polícia local na forma que funciona, e uma absoluta reforma na política de segurança – visando, entre muitas transformações necessárias, o fim do racismo estrutural na maneira que a polícia atua. Por mais que naturalmente o tema se afirme em Minneapolis com mais agudez e urgência, a verdade é que tal debate se dá – deve se dar – não só na cidade onde Floyd morreu, mas também em todos os EUA – e basta olhar para o Brasil para se ter certeza que, em verdade, o debate precisa se dar em todo o mundo.

“Em solidariedade”, diz o cartaz carregado pelo policial em manifestação em Camden © CAMDEN COUNTY PD

Para deixar claro o óbvio, o debate não é sobre não ter polícia, mas sim sobre o que a polícia pode e deve fazer. Entre tantas, uma cidade, porém, oferece um bom exemplo do potencial e tal reforma: antes uma das mais pobres e consideradas mais perigosas de todo o país, Camden, em Nova Jersey, hoje vê na prática as conquistas, a redução vertiginosa nos casos de violência policial, a partir da reforma da polícia local. No último dia 30 tal caso foi ilustrado à perfeição: diante de uma marcha na cidade, a polícia monitorou a manifestação com cartazes de solidariedade à causa, contando com a presença do chefe do departamento – Joseph Wysocki, um policial branco – e, pasmem, oferecendo sorvetes aos manifestantes.

“Vidas Negras Importam” © CAMDEN COUNTY PD

“O que vemos hoje em Camden é resultado de muitos anos de depósito na conta do relacionamento”, diz Scott Thomson, chefe de polícia da cidade até 2019. Foi ele quem liderou a mudança da polícia da cidade para um policiamento comunitário de 2013 até o ano passado – quando os índices de homicídio caíram, de 67 em 2012, para 25 em 2019. A reforma em Camden foi tão abrangente e eficaz que até o presidente Barack Obama felicitou o processo. O pico de crimes em 2012 motivou a reforma: o departamento foi extinto, e uma nova força policial foi estabelecida com o dobro de oficiais, direcionados, no entanto, para monitoração e interação não-violenta.

© CAMDEN COUNTY PD

Em Camden, as regras são claras: amenizar as crises eventuais é a palavra de ordem diante de uma ocorrência. O uso de táticas potencialmente letais – como asfixia ou disparar um tiro – só podem se dar em último caso, e após todas as outras táticas terem falhado. “Isso exige que a força seja não somente razoável e necessária, mas também proporcional”, diz Farhang Heydari, diretor-executivo do projeto. “São exigências e não sugestões”.

Policial em Camden joga basquete com criança © CAMDEN COUNTY PD

Um policial deve intervir no caso de um colega usar força excessiva, e o departamento pode demitir qualquer oficial que tenha cometido excessos. O resultado? Desde 2014 que o número de denúncias por força excessiva por parte da polícia caiu 95%. A hora é de mudança em todo o planeta e, em meio a tantas tragédias, Camden é um bom exemplo – uma hipótese de esperança.

Joseph Wysocki, chefe de polícia de Camden, ao lado de manifestante © Getty

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