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A gente fantasia demais uma conversa (ou porque apps de relacionamentos não funcionam) | Do Amor #136

por: Jader Pires

Deixar os olhos se voltarem pela nonagésima vez para o relógio gigante estampado no celular. Não saber ao certo, enquanto cutuca a nuca num coçar desajeitado, se aguarda na calçada gelada mais uns minutos ou se penetra de vez no bar e vai pedindo alguma coisa quente. Não foi nada muito combinado, então os envolvidos ficam meio ressabiados de fazer muitas perguntas, de aparentar qualquer cobrança. Quando o date aparece a gente ajusta as costuras da roupa, procura retirar qualquer impureza ou pó dos ombros, limpa a garganta com um pigarro discreto, respira fundo e, tal qual um menino Mario Jr, a gente solta mais ar que o necessário para falar “roi”. Tem a antecipação, existe o devaneio de como seria versus como está sendo, a destruição e reconstrução de nossas narrativas e expectativas, a surpresa na afirmação forte dita no contrapé que nos deixa emudecidos ou o completo oposto, a aprazível sensação de se perceber sendo escutado.

A pessoa do outro lado da mesa reage. É pergunta e resposta, é joga y joga, o notar imediato do efeito causado quando a piada é boa, quando se apanha a referência ao meme no ato. Porra, como é gostoso sair com alguém. A música que toca parece envolver aqueles dois como se fossem três mexicanos de sombrero negro e bigode grosso cantando no ouvidinho deles “piensa que yo por ti estaré esperando hasta que tú decidas regresar”. O álcool, meus amigues, que loucura, bate um mormaço no peito, a calidez no pé das coxas, o corpo parece emborrachar-se, assim como nossas certezas também vão ficando mais elásticas. A risada solta que nos envergonha no dia seguinte. Porra, como é gostoso demais sair com alguém. Quem? Ah, um amigo que apresenta, o trabalho que bota duas figuras aparentemente diferentes na mesma sala várias vezes na semana, se trombam na saída da academia, de um show, do estádio de futebol. “Conheci aqui no bar mesmo”, “acredita que a gente se conheceu no metrô? No trânsito!”.

Num aplicativo de relacionamento. Leiam esta frase ouvindo dentro da cabecinha de vocês o vácuo do buraco fundo em que ela ainda está caindo, triste e solitária rumo ao cemitério das boas frases que nunca receberão o devido carinho.

Apps de paquera, de arranjar crush, de procurar alguém pra shippar, ou meter mesmo, parece o erro dos erros, o defeito por definição, a escorregadela que ninguém com um mínimo de dignidade se dispõe a gostar. Afinal, se você não tem um contatinho sequer, é porque já tá na cara que és um perdedor nato, uma necessitada que ninguém dá atenção. Já embutimos todas as más sortes no currículo de quem baixa uma coisa dessas. Mais ainda, quando nos botamos na constrangedora situação de tentar puxar conversa com alguém por lá. Homens infantis atropelando qualquer ritmo, as fotos de pinto. Garotas cheias de não me toque que se dizem livres no século vinte e um mas segue à risca todo o manual de encontros americanos dos anos oitenta. Um papo bobo, um leriado chato, tentativas arrastadas, bate aqui, não emplaca acolá. E o desapontamento.

Por que tão frustrante?

A gente romantiza por demais a ideia de conversa. Como eu fiz acima. É uma delícia, mas não é o trocar de ideias que é bom, mas todo o conjunto! Gostos e cheiros, a consistência, o tecido. A gente bebe e a gente come e a gente sente todo o boteco se aproximando de nós, valorizamos muito mais do que só a conversa em si. E aí que vem um pulo maravilhoso do gato: precisamos valorizar mais a conversa! Uma menos idealizada, menos bate e prontos hollywoodianos com frases de impacto, epifanias e finais inesperados. Como? Atenção. Podemos ter conversas menos distraídas (e a desatenção, essa sim, é um espírito sem luz feito o Alexandre d’A Viagem mandando insistentes “esquece essa janela, vai ver mais um vídeo do TikTok”), com reais interesses. Ansiedade e vício em narrativa (já falei sobre vícios em narrativa no Do Amor #121) também retumbam no desenrolar pelo aplicativo porque temos muitas vezes um único objetivo (dar uma trepada antes do final de semana ou só ter algo mais interessante pra fazer que ver a novela repetida na tevê, trocar uma ideia, dar uma boa risada) e focamos somente nele, afunilando possibilidades e pedindo encarecidamente pra que a frustração nos abrace forte.

A gente só tem o que tá na manga, esquece bebida quentinha, esquece o vinco da roupa, desencana das canções, da iluminação, do sorrisinho no tête-à-tête. Tem que teclar gostoso, né? Se a gente entrar nos apps de namoro disponíveis para o que pode chegar nos apps de namoro (não incluído foto de pau), a gente pode se divertir bem. 

“Você garante?”. Claro que não.

Mas se você não confiar no seu talento de envolver alguém num papo gostoso de uma horinha ou duas, quem mais vai?

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Jader Pires
Jader Pires é escritor. Largou a publicidade, a experiência de sete anos em um banco e foi escrever. Começou a ler livros depois dos vinte e teve que correr atrás do tempo perdido. Já lançou três livros: o Ela Prefere as Uvas Verdes e o Do Amor, de contos, e agora, lança o seu primeiro romance, Deserto Negro, já disponível para compra. Siga-o no Instagram! @jaderpires.

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