Inspiração

Afro-americanos se mobilizaram pra salvar última nação africana não colonizada de Mussolini, em 1935

por: Vitor Paiva

A história da Etiópia é não só parte fundamental da história do povo negro, como também da própria origem da humanidade: nação onde os mais antigos traços da existência humana foram encontrados, acredita-se que o homo sapiens pode ter se originado em solo etíope. Trata-se também da história de uma das únicas nações africanas que mantiveram sua independência quando da sanguinária Conferência de Berlim, que entre 1884 e 1885 traçou a divisão territorial do continente africano entre os países europeus. E mais: entre 1916 e 1974 a Etiópia foi governada por Haile Selassie, imperador descendente do Rei Salomão e da Rainha de Sabá que, para os adeptos da religião rastafári, é Deus encarnado – Selassie é Jah Rás Tafari, tão cantado por Bob Marley em suas canções. Muito antes do surgimento do reggae, porém, em 1935, foi para defender essa incrível história e nação, em um exemplo inequívoco da força pan-africana e do nacionalismo negro, que a população negra dos EUA se alistou para lutar contra a invasão italiana que ameaçava a independência da Etiópia.

“Voluntários para a Etiópia: registrem-se aqui”, diz cartaz no Harlem, em 1935 © reprodução

Localizada no chamado Chifre Africano, a Etiópia resistia como símbolo de resistência e redenção – emblema da esperança de igualdade racial e libertação das amarras e horrores do colonialismo branco. Por isso, pequenas multidões se reuniram ao redor das mesas de alistamento no bairro negro do Harlem, em Nova Iorque, oferecendo-se voluntariamente como soldados para lutar pela Etiópia contra a investida do ditador fascista Benito Mussolini, que viria a se tornar o principal aliado de Adolf Hitler na ascensão nazista que culminaria na segunda guerra. Outros milhares de voluntários se reuniram também em cidades como Chicago, Boston e Detroit para juntarem-se aos seus irmãos etíopes na frente de batalha.

Imagem de Mussolini na Etiópia, em 1935, durante a ocupação italiana no país

A Etiópia já havia resistido a duas tentativas prévias de invasão – da Inglaterra e da própria Itália – entre 1881 e 1914, quando 90% do continente africano foi invadido e ocupado por países europeus. Em agosto de 1935, Mussolini procurou se vingar da derrota italiana prévia, a fim de dominar o país – e enviou o imperador Haile Selassie para o exílio.

O imperador etíope Haile Selassie, ou Jah para os rastafaris

A invasão foi brutal, e conforme as notícias se espalhavam, aos milhares a população negra nos EUA – incluindo mulheres, como mostram as incríveis filmagens – rapidamente compreenderam que essa era a nação pela qual valia lutar, e se ofereceram para lutar pela nação negra.

Os esforços, porém, foram quase todos em vão: o governo dos EUA proibiu a saída de quase todos os que quiseram lutar, criando situação de tensão social e racial no país.

Cartum registrando as filas de alistamento nos EUA à época

Entre os poucos que conseguiram chegar à Etiópia estava John C. Robinson, pioneiro na aviação negra nos EUA, país que ainda impedia que uma pessoa negra se tornasse oficialmente um piloto. Robinson trabalhava como zelador em uma escola de aviação de Chicago, onde aprendeu a voar, e ao chegar na Etiópia foi escalado à condição de liderar a Força Aérea etíope.

O piloto John C. Robinson

Eram somente 20 aviões e 50 pilotos, no entanto, e todos sem armas: em maio de 1936 a derrota se mostrou inevitável, Haile Selassie, o último dos reis salomônicos, foi expulso de seu país, e Robinson voltou aos EUA. Com a entrada da Itália na Segunda Guerra, porém, por pressão especialmente do Reino Unido, a Etiópia se viu livre da ocupação italiana em 1941. Robinson voltou a uma Etiópia livre, para se tornar piloto na Ethiopian Airlines, a primeira (e por muitos anos a única) companhia aérea africana, mas antes para ser celebrado como herói de um dos mais incríveis (e mais apagados) capítulos da história negra – na África, nos EUA, no mundo.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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