Seleção Hypeness

Antifascismo: 10 personalidades que lutaram contra a tirania e você deveria conhecer

por: Yuri Ferreira

O antifascismo virou hype. Enquanto medidas autoritárias tem tomado conta do mundo democrático, como nos EUA e no Brasil, insurgências populares começam a pipocar nas grandes capitais. O presidente Donald Trump, dos EUA, declarou em seu Twitter que irá colocar o ‘Antifa’ como uma organização terrorista após os protestos contra o racismo que tem tomado conta das ruas das cidades americanos. Mas o que é ser antifascista? E quem são as personalidades que fizeram parte dessa luta ao longo da história?

Muito além de um filtro no Instagram, a luta contra o fascismo passa por uma ação prática contra as práticas fascistas. Mas o que é fascismo? Para sabermos ao que se opõem os Antifas, é importante compreender do que se trata essa palavra que muita vezes é esvaziada de sentido.

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Para combater o fascismo, 8 personalidades antifascistas pra você conhecer e estudar

Vale chamar o dicionário Michaelis nessas horas:

fascismo

fas·cis·mo
  •  Sistema ou regime político e filosófico, antiliberal, imperialista e antidemocrático, centrado em um governo de caráter autoritário, representado pela existência de um partido único e pela figura de um ditador, fundado na ideologia de exaltação dos valores da raça e da nação em detrimento do individualismo, como o estabelecido na Itália por Benito Mussolini (1883-1945), em 1922, cujo emblema era, simbolicamente, o fascio, isto é, o feixe de varas dos lictores romanos.
  • Tendência para o controle ditatorial; regime autoritário.
  • Atitude ou postura própria de fascista.

Vamos nos tomar nosso foco último item: a atitude ou postura própria de fascista. Que atitude é essa? Pois bem, é a atitude que decide concentrar poder em uma só forma existência e eliminar o outro. Uma atitude do fascista Mussolini era matar seus opositores, como fez a Ditadura Militar no Brasil. Outra atitude do nazifascista Hitler era impedir certas pessoas de se reproduzir, coisa que um ex-deputado brasileiro, que eu não citarei, também já defendeu. Citemos aqui a filósofa Márcia Tiburi, em um artigo na revista Caros Amigos:

“Incapaz de supor a existência da “alteridade”, o fascista encontra um modo de ser. Como experiência de si podemos considerar o fascismo um logro, mas não para quem, vivendo um profundo empobrecimento subjetivo, não tem outra saída. A negação do outro é funcional para quem dela se serve. Ela pode ser o único jeito de garantir que se existe. Em termos simples: de conquistar um lugar no mundo.”

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A luta organizada Antifascista surgiu nas linhas de frente do Partido Comunista Alemão, nos anos 1930. Outras forças antifascistas que buscavam batalhar contra essa nova forma de governo se organizaram na Itália do Duce e na Espanha de Franco. O movimento antifascista seria um movimento inerente à esquerda; a busca de justiça social e pluralidade era o grande foco do movimento antifascista, que lutaria contra qualquer forma do Estado retirar direitos dos seus cidadãos.

Nessa Seleção Hypeness, vamos tentar falar de notórios antifascistas – e tomamos aqui a terceira definição do dicionário – que combateram a opressão em todos os continentes do mundo. Dos povos maori da Nova Zelândia até as trincheiras da Segunda Guerra Mundial, dos palcos de Acra até o Brasil, tem um antifascista aqui pra te inspirar a lutar contra a opressão.

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Poderíamos citar os originais revolucionários antifascistas de nome ou renomados anti-establishment, como Ghandi, Bob Marley, Mandela e Martin Luther King. Mas preferimos dar enfoque em antifas de todo o mundo, na luta anti-colonial e naqueles cuja importante história você (talvez) ainda não conheça. De punhos erguidos, pode colocar ‘Bella Ciao’, canção dos partizanos que lutaram contra o fascismo na Europa, e dá uma olhada nas histórias que a gente resolveu te contar:

Pavlichenko, a dama da morte

Lyudmila Pavlichenko era o terror de Hitler. A mira da ‘Dama da Morte’ levou mais de 500 nazistas para a vala.

O ano era 1942 e Stalin implorava para que os EUA entrassem no continente europeu – que aconteceria no ano seguinte, na invasão da Sicília. Para isso, enviou uma figura diplomática importante para a Casa Branca. Lyudmila Pavlichenko – ou ‘Dama da Morte’ – poderia ser somente mais uma das milhares de mulheres que estavam na gélida Europa dos anos 40 enfrentando os nazistas. Mas a sua pontaria era fora do comum. Ela encontrou Frank Delano Roosevelt com um currículo impecável: eram 309 soldados nazistas que já haviam caído pelos tiros da tenente soviética.

Durante sua tour pelos EUA junto da primeira dama Eleanor Roosevelt, Pavlichenko serviu de exemplo para convocar os estadunidenses ao combate contra o pior regime da história. “Cada alemão que permaneça vivo matará mulheres, crianças e velhos. Os nazistas mortos são inofensivos. Por isso, ao matar um deles, estou salvando vidas”.

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Foi nos EUA onde Pavlichenko se mostrou mais assustada com a imprensa, que fazia perguntas sobre maquiagens, comprimentos de saia e até os tecidos de suas roupas íntimas. Lyudmilla não deixava barato. “Se vê que, para os americanos, o importante é se as mulheres vestem roupa íntima de seda por baixo do uniforme. Mas o significado verdadeiro do uniforme, isso eles (os americanos) precisam aprender”, afirmava a heroína.

Com mais de 500 nazistas na conta, Lyudmilla voltou para a faculdade de História que cursava antes da Grande Guerra. Heroína da União Soviética, mais alto posto de condecoração que um membro das forças do Exército Vermelho poderia conquistar, a ‘Dama da Morte’ era o terror dos fascistas e assim ficará pra sempre na história.

Para saber mais sobre a história da sniper soviética, vale a pena ver o filme ‘Batalha por Sevastopol’, que inclusive, dá pra ver legendado no Youtube. Para ouvir, vale apreciar Woody Guthrie, um dos maiores cantores antifascistas da história, em ‘Miss Pavlichenko’:

Angela Davis, a inimiga dos WASPs

Angela Davis colocou fogo nos EUA através da luta por uma sociedade mais justa e igualitária

A mulher mais procurada dos EUA. Essa era Angela Davis nos anos 70. A comunista negra que incendiava a juventude americana com suas palavras contra a opressão foi perseguida pelo governo americano pela sua luta contra a ideologia dos WASPs (White Anglo-Saxon and Protestant ou, em português, Branco, Anglo-saxônico e Protestante), que dominava o conservadorismo estadunidense.

A ascensão da Ku Klux Klan e o medo do socialismo que permeava a Guerra Fria nos EUA fez com que Angela se tornasse uma inimiga pública. Ao denunciar a desigualdade social, o racismo e o machismo da sociedade estadunidense, se tornou um símbolo de luta ao redor do mundo todo. O punho erguido contra a opressão faz parte do imaginário criado por Davis.

– Por que a luta por democracia não existe sem Angela Davis

É claro que ela incomodava as autoridades americanas. Como uma mulher negra e de esquerda poderia ser relevante? Em agosto de 1970 foi acusada de conspiração, sequestro e homicídio pelo Estado da Califórnia. O caso envolvia a tentativa de fuga de três jovens acusados de terem assassinado um guarda em uma prisão californiana. Durante o julgamento, eles partiram para a ação violenta, sequestraram o juiz do caso e foram assassinados pela polícia. Angela esteve presente no julgamento, mas não participou da ação.

Depois de ser indiciada, iniciou uma fuga pelos EUA que durou cerca de dois meses. A mídia foi completamente tomada pelo debate racial. Foi presa em Nova York. Durante seu encarceramento, milhares de pessoas se manifestaram pela sua liberdade. Após grande pressão popular, foi absolvida dos casos.

– A vida e a luta de Angela Davis, desde os anos 1960 até o discurso na Marcha das Mulheres nos EUA

Entretanto, vale ressaltar que o antifascismo de Davis não ficou só na ação política. Antes mesmo de sua militância política e da perseguição, Angela era professora na Universidade da Califórnia. Doutora em filosofia pela Universidade de Humboldt, ela é uma das maiores pensadoras do direito e uma das principais vozes pelo abolicionismo penal em atividade.

Para entender o pensamento social de Davis, vale ler seu livro ‘Mulher, raça e classe’ (editado no Brasil pela Boitempo) e ‘A democracia da abolição: Para além do império, das prisões e da tortura’ (editado pela Record). Para assistir, vale o documentário ‘Libertem Angela Davis’, que relata a perseguição política contra a ativista. Aproveita e dá uma olhada também no artigo “‘Democracia baseada na supremacia branca?’. Em SP, Angela Davis não vê liberdade sem mulheres negras” aqui no Hypeness, que relata o discurso de Angela realizado em SP no ano passado.

Fela Kuti, o som do pan-africanismo

Fela Kuti lutou por uma África Unida e Livre, seguindo o legado de sua mãe

Não era qualquer um que tinha peito para bater a criatividade de Fela Kuti. O nigeriano foi para Londres pra estudar medicina nos anos 1950, mas descobriu que era muito melhor operando o saxofone do que o bisturi. Fela Kuti ganhou uma notoriedade dentro da cena musical londrina pela mistura incrível e nova que fazia entre o highlife – estilo originário de Gana – e o jazz junto de seus companheiros da banda Koola Lombitos. Em 1967, vai à Gana estudar música, junta diversos estilos no que ele chama de Afrobeat, um estilo de música novo e inventivo que poucos haviam feito até então.

Depois, vai aos EUA fazer uma turnê e descobre um tal de Partido dos Panteras Negras. A inovação que o movimento negro fez na cabeça de Kuti foi transformadora. Ele finalmente passara a entender a luta de sua mãe, Funmilayo Ransome-Kutim. Ela era uma das principais ativistas pelos direitos das mulheres na África Oriental. Foi a primeira mulher a dirigir um carro no país. Lutou contra o colonialismo britânico na região e articulou o Conselho Nacional da Nigéria e Camarões e a Federação de Sociedades de Mulheres, que seria um dos principais braços africanos na luta pelos direitos da mulher.

– O dia em que Paul McCartney fumou o baseado mais forte de sua vida com Fela Kuti na Nigéria

Voltando a seu filho Fela: ele foi pego pelo serviço de imigração americano e voltou para a Nigéria, que havia vivido uma recente guerra civil e passou a ser uma república de militares. Entre 1970 e 1999 foram sequenciais golpes de estado e ditaduras militares. Kuti era um partidário do pan-africanismo de Kwambe Nkrumah e era um ferrenho opositor das ditaduras militares nigerianas.

Ele fundou a República de Kalakuta, uma espécie de comuna para conviver com seus correligionários políticos e família, onde gravou diversos discos e articulou a resistência contra os militares na Nigéria. Em 1977, gravou um disco chamado Zombies, que criticava os milicos nigerianos. Em pidgin (uma espécie de inglês simplificado, que permitia que Fela pudesse ser ouvido em todo o continente), ele dizia que os soldados só andariam se recebessem ordens, criticando a submissão dos fardados nigerianos. O então chefe de Estado Nigeriano, Olusegun Obasanjo, não gostou muito da obra e ordenou que a República de Kalakuta fosse destruída. Durante o ataque ao livre pensamento de Kuti, sua mãe, Funmilayo, foi assassinada pelo regime.

O gênio do afrobeat ainda seria vítima de perseguição em Gana (especialmente após sua música Zombie ter também motivado manifestações em Acra, capital do país) e tentaria se candidatar às eleições da Nigéria, mas foi impedido pelo regime. Sua luta continuou contra o imperialismo na África, em especial contra o Apartheid – em uma de suas capas de álbum mais polêmicas, ‘Beasts of no Nation’, Kuti sangue nos caninos os dentes de Margareth Tatcher e Ronald Reagan, dois financiadores do genocídio negro no regime do Cabo.)

– Funmilayo Afrobeat: a banda só de mulheres negras que vai virar o jogo

Este pequeno bloco de texto seria um espaço muito pequeno para dar honra ao trabalho artístico incrível e à própria luta por liberação do povo africano comandada por Fela Kuti. Por isso, recomendamos em especial o disco ‘Zombie’, claro, por ser a sua obra mais lendária no campo político. Mas também vale dar uma olhada no documentário ‘Meu amigo Fela’, do cineasta brasileiro Joel Zito Araújo. Para conhecer mais a ideologia Pan-Africanismo, confira o livro ‘Africa Must Unite’, de Kwame Nkrumah.

Mercedes Sosa, a voz dos sem voz

Mercedes Sosa foi uma notória artista na luta contra o imperialismo e as ditaduras militares que assombraram a América Latina entre 1960 e 1980

Se você perguntar pro seu pai ou pra sua mãe — é claro, se eles viveram nos anos 1980 — quem é Mercedes Sosa, eles certamente saberão responder. Não é usual que cantores da América Espanhola façam sucesso no Brasil, com exceção dos Menudos e da Shakira, mas a cantora argentina explodiu nos últimos anos da ditadura militar brasileira.

Natural de San Miguel de Tucumán, Sosa ficou bastante conhecida pela sua proximidade do cancioneiro popular de uma América Latina que ainda não havia sentido o bater de asas da Operação Condor,  responsável pela implantação das ditaduras militares no nosso continente. De origem indígena, foi fundadora do Nuevo Cancionero, uma retomada às raízes da música Argentina próxima do Folk, politicamente densa pelo conturbado momento político que os hermanos viveram entre 1960 e 1970 — assim como nós.

Sua poderosa voz e seus primeiros discos, que evocavam a tradicionalidade dos povos indígenas da região, fizeram com que Mercedes ganhasse ascensão nas comunidades populares argentinas e no exterior. Ela se firma como uma das maiores vozes políticas do seu país: patriota e de esquerda, Sosa simbolizava uma luta pan-americana contra o imperialismo norte-americano no continente.

Após o Golpe de 1976, que instaurou um dos mais sombrios períodos da história patagã, seus discos foram proibidos no país e Mercedes foi exilada, mas manteve sua voz empunhada contra o fascismo na Argentina. Aí então começa a sua tour pelo mundo, colaborando com dezenas de artistas — desde Sting a Joan Baez — , mas é no Brasil que seu nome se torna mais popular.

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Em 1976, a abertura lenta, gradual e segura já tinha tirado suas garras da cultura brasileira e Mercedes pode se manifestar, em especial ao lado de Milton Nascimento, com seu cancioneiro popular. A partir de então, fez sucesso nas paradas ao lado de diversos cantores brasileiros pela liberdade latinoamericana.

Mercedes foi uma voz de resistência e luta contra as ditaduras latino-americanas e nos fez lembrar de algo que nós, brasileiros, costumamos esquecer: somos filhos do mesmo estupro coletivo — sutilmente chamado de colonização — e nossa terra foi banhada pelo sangue da mesma espada.

Aqui vai um grito de liberdade contra os militares entoado por Mercedes junto da ícone Beth Carvalho:

Marielle Franco, presente!

Marielle foi assassinada há 2 anos, mas investigações sobre os mandantes do crime tem sofrido intervenções; seu legado na luta contra o racismo, a desigualdade social e o machismo se mantém vivo

No dia 14 de março de 2018 eu comemorava meu aniversário de 19 anos. Em algum bar ao lado do Viaduto do Chá, em São Paulo, a gente tilintava os copos de cerveja e embriagados e discutíamos política. Às 21h30, a precisos 429 quilômetros dali, na Rua Joaquim Palhares, no bairro de Estácio, Rio de Janeiro, a vereadora do PSOL, Marielle Franco foi alvo de uma execução política que não foi explicada até hoje.

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Um mês antes, em fevereiro daquele ano, o Governo Federal de Michel Temer havia ordenado através de uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem) uma intervenção federal com o uso do Exército na capital fluminense. Os militares comandaram operações nas periferias do Rio. A repressão na periferia se intensificou como nunca antes havia se visto no Estado.

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Marielle Franco foi uma opositora da medida do governo e era relatora de comissão da Câmara dos Vereadores do Rio que acompanhava as operações militares e avaliava seus resultados. No mesmo dia de sua morte, seu partido, o PSOL, havia colocado uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no STF contra a intervenção no Rio.

Somente a existência de Marielle na política nacional já era uma luta contra o sistema racista brasileiro. Mulheres negras são 23% da população brasileira, mas no Congresso Nacional são apenas 2,3%. Uma mulher preta batendo de frente contra o poder incomodava muita gente.

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Naquela noite, foram dezenas de tiros no carro em que Marielle e seu motorista, Anderson, estavam. Silenciaram a voz de uma das principais ativistas políticas que estavam lutando contra a violência policial, a favor dos direitos das mulheres e contra o racismo na política nacional. Apesar de os assassinos da vereadora, Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, estarem presos, ainda não se sabe quem foi o mandante do crime.

Para compreender a luta política e a significância de uma das maiores vozes pelos direitos humanos que o Brasil já teve, vale conferir a série documental da Globo sobre Marielle. Também vale ouvir o desabafo de MC Carol em homenagem à socióloga. E a pergunta ainda resiste: Quem mandou matar Marielle Franco?

Roger Waters, o incompreendido

Roger Waters foi criticado em 2018 no Brasil por seus próprios fãs. Mas eles não entenderam o que o britânico estava dizendo.

Em outubro de 2018, algumas pessoas vaiaram o músico Roger Waters em uma apresentação que fez no Allianz Parque, na Barra Funda, em São Paulo. Não porque o perfeccionista baixista do Pink Floyd havia desafinado ou abandonado o palco. Mas porque havia colocado Jair Bolsonaro na sua lista de líderes neofascistas. Os apoiadores do presidente e fãs do Pink Floyd ficaram um pouco decepcionado com o artista. Não mais do que ele ficou com seus fãs, que nada entenderam de sua obra.

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The Wall’ é um disco antológico da história do rock. Por mais que hoje muitos fãs do estilo se considerem ‘conservadores’, o gênero sempre teve um pé grande na revolta contra o sistema e contra as tradições. A obra de Roger Waters, o compositor de boa parte da discografia do Pink Floyd, não fica atrás. Na verdade, toda a visão sobre “o muro” não é nada mais do que um grito antifacista.

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As ácidas críticas contra um sistema de educação opressor, contra o Estado Autoritário e o medo do neoliberalismo de Tatcher que ascendia no Reino Unido estavam ali no disco. Roger Waters é declaradamente antifascista. E se você prestar atenção na obra do chefe do Pink Floyd (não me matem, fãs do David Gilmour), percebe-se que o enfoque de boa parte de sua carreira é criticar o terror do nazismo e a possibilidade tênue da democracia se transformar em um regime autoritário.

A dica cultural, é claro, não poderia ser outra. Ouça o disco ‘The Wall’ e veja o filme de animação feita em cima do álbum, de mesmo nome.

Whina Cooper, a Mãe da Terra

Whina COoper batalhou contra establishment neozelandês e conquistou direitos que reduziram o impacto do genocídio contra os Maori na Oceania

Ok, provavelmente você não conhece a história de Whina Cooper. Não é comum que a gente fale sobre a luta dos maoris na Nova Zelândia, eu sei. Mas a intenção dessa matéria é trazer um pouquinho do antifascismo ao redor do mundo, trazendo exemplos de lutas contra a opressão sistêmica de todos os cantos do planeta. Apesar de o país da Oceania não ter passado por grandes conflitos ou ditaduras militares em sua história, vale contar um pouquinho da luta de Whina. Vamos lá:

Por muito tempo, não existiam pessoas brancas na Nova Zelândia. Mas aí de uns 200 anos pra cá eles meio que tomaram tudo. E já tinha uma galera lá: os maoris. Os brancos se acharam no direito de dizimar os povos originários da ilha ao sul da Austrália e assim o fizeram. Os donos daquelas terras foram achacados, humilhados e exterminados pelas forças imperialistas britânicas e, posteriormente, neozelandesas independentes.

Whina Cooper era uma líder maori que disse não. E que resolveu lutar contra a tirania dos brancos contra o seu povo. Ela foi uma liderança política de seu povo através da Liga do Bem-estar social Maori durante os anos 50 e 60, mas as ameaças dos ruralistas neozelandeses continuaram, querendo tomar mais terras dos povos originários. Em 1975, ao passo dos seus quase 80 anos, Whina liderou a Marcha Pela Terra com o movimento Te Rōpū Matakite.

Foram 1000 quilômetros percorridos na Marcha Pela Terra, que ganhou prospecção ao redor do mundo. A luta pela terra Maori foi bem sucedida, os ruralistas recuaram, a mídia internacional ouviu o grito de resistência e Whina Cooper ganhou a alcunha de ‘Mãe da Terra’ por sua incisiva pressão pela liberdade do povo maori.

Para os falantes de Inglês, vale dar uma olhada nesse documentário que conta a biografia de Whina, uma das maiores líderes políticas da história da Oceania:

Fukuda Hideko, a revolucionária de Osaka

Fukuda era anti-imperialista no âmago. Revolucionário e perseguida, liderou a luta pelo direito das mulheres na modernização japonesa

Sim, o movimento Antifa organizado, como conhecemos, só iria surgir na década de 1930, na Europa. No entanto, um dos principais aliados do fascismo de Hitler e Mussolini foi o imperador Hirohito, do Japão, que comandou genocídios na China e na Coreia, e, na leitura do pensamento histórico moderno, foi um líder bastante cruel. Basta olhar a história das ‘Comfort Girls’, mulheres chinesas e coreanas que foram obrigadas a se prostituir para os militares do Japão durante a Segunda Guerra Mundial.

“Os Europeus toleraram o Nazismo e o Fascismo até que ele fosse infligido a eles. Eles o absolveram, fecharam seus olhos para a questão e o legitimaram, porque, até o Nazismo, ele só havia sido aplicado em populações não-Europeias”, afira Aimé Cesairé, poeta francês da Martinica.

Mas antes da tirania de Hirohito tomar o poder, uma das principais ativistas contra os regimes coloniais impostos na China e Coreia pelo Japão foi Fukuda Hideko. A socialista e feminista lutou na década de 1880 contra o Período Meiji e foi a principal idealizadora do ‘Incidente de Osaka’, que tentou armar revolucionários separatistas coreanos com bombas para libertar a península coreana do domínio japonês. Após passar quase um ano na prisão, foi libertada como uma mártir.

Ela foi a cabeça por trás das diversas revoltas durante o reinado do Imperador Meiji e foi capaz de passar várias reformas pró-mulheres no Japão. Foi a editora da Seikai Fujin (Mulheres do Mundo), uma publicação feminista que buscava denunciar a violência de gênero na Ásia no começo do século passado. O imperador Taisho, sucessor de Meiji, fez duras censuras à publicação, que foi fechada em 1909. A co-editora, Ishikawa Sanshiro, foi presa em 1909.

Ao fim da vida, foi acometida pela Beribéri e morreu na pobreza. Antes de falecer, publicou um artigo na revista Seito afirmando que a libertação da mulher deveria vir com a libertação do homem, se referindo à uma revolução dos trabalhadores. O artigo, publicado no início do tirânico Império de Hirohito, foi alvo de censura e discussão. O seu legado se imortalizou na frase “Minha vida foi feita de adversidade e mais adversidade. Mas eu sempre lutei. Nunca fugirei das adversidades”.

Se você deseja conhecer melhor a história da mulher que lutou contra a tirania de seu próprio país e que é considerada, até hoje, a maior revolucionária feminista da história do Japão, vale ver o filme ‘Waga koi wa moenu’ ou ‘Chama de meu amor’, uma biografia de Hideko, dirigida por Mizoguchi, feita em 1949. O livro ‘Reflections on the way to the gallows’ (Reflexões no caminho da forca), de Mikiso Hane, é uma boa para conhecer as revolucionárias e rebeldes do Japão Pré-Guerra.

Hakan Şükür, o artilheiro contra Erdogan

O camisa 9 da seleção turca e craque do Galatasaray, time mais popular do seu país, foi perseguido pelo ditador Erdogan

O Brasil enfrentou a Turquia duas vezes na Copa de 2002. O histórico time turco – que fez sua melhor campanha em Copas, um icônico 3º lugar – ficou também marcado pelo gol mais rápido da história do Torneio Mundial. Com 11 segundos de jogo, o camisa 9 Hakan Şükür marcou um tento após a falha da zaga sul-coreana na disputa pelo terceiro lugar.

Dentro dos gramados, Sukur foi um dos maiores jogadores turcos da história. O camisa 9 batalhou com Ronaldo e Jardel pela artilharia da Europa na segunda metade da década de 1990. O faro de gol do camisa 9 do Galatasaray é até hoje reconhecido. Pelo povo turco, quem sabe. Não pelo governo de Tayyip Erdogan, presidente do país.

No início, ele apoiou o AKP, partido do governo turco, até sendo eleito como deputado pelo partido. Depois, quando Erdogan decidiu acabar com as escolas Himzet, idealizadas pelo humanismo islâmico do filósofo Gullen, que pregavam a paz e o laicismo, Sukur entrou na oposição. Através das redes sociais, se manifestou contra fechamento dos centros educacionais nas redes sociais e foi julgado por ofender ao presidente.

Em 2016, uma controversa tentativa de golpe de Estado foi orquestrada – muitos a acusam de ser o ‘Plano Cohen de Erdogan’, uma espécie de autogolpe – e Tayyip se fortaleceu no poder. Milhares de pessoas foram postas na ilegalidade, entre elas, Hakan Sukur.

Segundo o governo turco, ele tinha ligações com os movimentos armados e financiava o terrorismo na região. Nada foi comprovado por Erdogan. Depois de ter suas contas bancárias congeladas e seus bens expropriados, o camisa 9 está exilado nos EUA.

– A história do goleiro que montou time de padeiros e venceu nazistas na 2ª Guerra

“O Erdogan tirou tudo de mim. Meu direito à liberdade, o direito de me explicar, de me expressar, de trabalhar. Não tenho mais nada”, afirmou Sukur ao jornal alemão Welt am Sonntag.

Hoje ele é motorista de Uber na cidade de Washington, D.C, nos EUA. Antes, teve uma cafeteria, mas frequentemente era ameaçado por turcos que viviam nos EUA, que o provocavam tocando ‘Durma’ em sua cafeteria, um tipo de música turca incentivada pelo governo Erdogan.

“Sempre fiz as coisas dentro da legalidade. Não sou um traidor ou um terrorista. Sou um inimigo do governo, mas não do estado ou da nação. Eu amo meu país”, completou.

Para celebrar Sukur, lembre-se de alguns de seus históricos lances e gols com as camisas da seleção Turca, do Galatasaray e da Internazionale de Milão:

Ailton Krenak, pela vida e pela Terra

Ailton Krenak é um defensor dos povos indígenas e do meio-ambiente brasileiro

Ailton Krenak é um dos principais ativistas em defesa do povo indígena no nosso país. Para quem não se lembra, antes de 1500, mais de 5 milhões de indígenas moravam no nosso país. O processo colonizatório dizimou os nossos povos originários com epidemias, estupros, escravidão e assassinatos. Mesmo após a saída dos portugueses, o Estado brasileiro continuou a sistematicamente permitir a invasão ao espaço dos povos e a fazer vista grossa para o genocídio indígena.

Ailton é da etnia crenaque e foi um dos principais articuladores dos direitos indígenas no nosso país.  Durante a Assembleia Constituinte, que criou a Constituição de 88, bateu de frente com as mineradoras e agropecuárias que desejavam invadir as reservas indígenas e banhar com ainda mais sangue o território deste país. A luta pelo direito as TIs continua até hoje. Para ter uma ideia, veja nosso artigo sobre o Marco Temporal, tentativa da bancada do Boi de impedir mais demarcações de Terras Indígenas.

– Ambientalista Ailton Krenak diz que ‘volta ao normal’ é como acreditar que Terra é plana

Krenak é uma das principais vozes na luta contra a impunidade pelo acidente na barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, que destruiu o bioma do Rio Doce, região habitada pelo povo crenaque há seculos.

“Não foi um acidente. Quando eu ouço perguntarem sobre ‘o acidente’ de Mariana, eu reajo dizendo que não foi um acidente. Foi um incidente, no sentido da omissão e da negligência do sistema de licenciamento, supervisão, controle, renovação das licenças, autorização de exploração. O Estado e as corporações constituíram um ambiente promíscuo e delinquente, em que ninguém controla ninguém e no qual os engenheiros e os chefes de segurança, que informam os relatórios, também sabem que não tem consequência nenhuma se eles matarem um patrimônio inteiro, uma vila inteira ou, eventualmente, se matarem uma comunidade inteira.”

Para conhecer um pouco da trajetória de Krenak, vale lembrar o seu discurso na Assembleia Constituinte, em que o ativista se pintou de jenipapo durante uma defesa contra a exploração das Terras Indígenas e relembrou como o território brasileiro está sujo de sangue, que você pode ver aqui embaixo. O livroO amanhã não está à venda’lançado nesse ano pela Cia. Das Letras, também pode te introduzir no pensamento do líder indígena.

 

 

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Fotos: Destaques: Montagem Foto 1: Flickr Fotos 2, 5, 7 e 8: Wikimedia Commons © Getty Images Foto 3,6,9: Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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