Debate

Antifascismo é o novo Che Guevara? Thread alerta para o risco de esvaziamento do símbolo antifascista

por: Yuri Ferreira

Após o presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump, anunciar que colocará o antifascismo na lista de organizações terroristas, milhões de pessoas no Brasil e no mundo passaram a se declarar antifas. Bandeiras pipocaram na internet. De ‘bibliotecárias antifascistas’ até ‘crush antifascistas‘, variações do símbolo pipocaram em dezenas de perfis do Instagram e do Twitter e rapidamente a imagem da luta organizada contra o autoritarismo se tornou um meme – como tudo que é feito na internet.

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Muitos dos militantes se preocupam com um esvaziamento do termo ‘antifa‘ e da luta – que passa por muitas outras partes da vida do que a autodeclaração na internet. Foram os grupos antifascistas que derrubaram e vingaram a Itália de Mussolini e hoje em dia são os antifascistas que têm se colocado na rua para conter o avanço de grupos extremistas de direita e neonazistas no Brasil.

A página @seremosresistencia foi criticada após alterar as cores da bandeira antifa – o preto e o vermelho – e criar novos símbolos que alteram o significado original do movimento

A memetização dos símbolos políticos é um processo natural na era em que vivemos na internet. Com a crescente oposição aos governos neo-conservadores, é natural que o anti-fascismo se torne uma questão identitária. Mas o debate deve ser levado a outros lugares.

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Um dos problemas apontados por boa parte da comunidade anti-fascista de esquerda foi uma postagem da apresentadora Xuxa, que afirmou “não ser de esquerda, nem de direita, mas brasileira” e pró-democracia. Existe um temor que esses tipos de manifestações de cunho apolítico se apropriem do movimento, como aconteceu em 2013, quando as insurgências populares em busca da redução do preço das passagens foram transformadas em protestos contra a então presidente Dilma Rousseff, culminando no impeachment de 2016 e nas marchas pró-Bolsonaro que perduram até hoje.

Vale lembrar que o movimento antifascista é descentralizado e as ações antifa começaram no cenário da Europa controlada por Hitler e Mussolini. Os partisans italianos comunistas e anarquistas – que cantavam Bella Ciao – era combatentes armados do fascismo do Duce. Na Alemanha, a Antifaschistische Aktion foi criado pelo Partido Comunista Alemão para fazer oposição à Hitler.

Na foto, soldados espanhóis do Partido Comunista marcham contra o franquismo e a ascensão do fascismo na península Ibérica – com Franco e Salázar – em 1936, pouco antes da Segunda Guerra Mundial

A luta antifascista tem suas origens na esquerda política e é complexo desassociá-la ou esvaziá-la. O debate segue o tom da imagem de Che Guevara, cuja imagem se tornou um produto e perdeu seu significado, ainda que o legado do revolucionário argentino seja complexo e em certos momentos problemático. Após 1945, a organização antifascista alemã integrou setores da social-democracia e não revolucionários.

Para entender melhor o que é fascismo, vale dar uma olhada na definição do Dicionário Michaelis:

fascismo

fas·cis·mo
  •  Sistema ou regime político e filosófico, antiliberal, imperialista e antidemocrático, centrado em um governo de caráter autoritário, representado pela existência de um partido único e pela figura de um ditador, fundado na ideologia de exaltação dos valores da raça e da nação em detrimento do individualismo, como o estabelecido na Itália por Benito Mussolini (1883-1945), em 1922, cujo emblema era, simbolicamente, o fascio, isto é, o feixe de varas dos lictores romanos.
  • Tendência para o controle ditatorial; regime autoritário.
  • Atitude ou postura própria de fascista.

A memetização corrente do antifascismo na Internet parece inevitável. Mas é importante acender o sinal de alerta, porque a luta contra os movimentos fascistas pode perder os seus significados.

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Uma ótima thread no Twitter levanta reflexões sobre o assunto:

Há quem acredite que o processo de popularização é benéfico e a mimetização, inevitável. Para isso, é importante adicionar muito conhecimento ao debate:

Nos dias de hoje, o movimento antifascista é grande na Europa. A ascensão de ditaduras como a de Órban, na Hungria, e o crescimento de grupos supremacistas brancos na Ucrânia e na Letônia preocupa o mundo livre

Quer conhecer mais o movimento anti-fascista? Vale a pena dar uma olhada no livro ‘Antifa: Manual do Antifascismo‘, do autor americano Mark Bray, com prefácio do Acácio Augusto, editado pela autonomia literária e traduzido por Guilherme Ziggy.

 

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Fotos: Foto 1: Reprodução/Instagram Fotos 2 e 3: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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