Matéria Especial Hypeness

As 2222 vanguardas de Gilberto Gil: 78 anos de quem sempre esteve à frente de seu tempo

por: Yuri Ferreira

Se tudo estivesse no plano, Gilberto Passos Gil Moreira hoje seria um administrador de empresas devidamente aposentado pelo seus 35 anos de prestação de serviço. Provavelmente estaria celebrando seu aniversário de maneira pacata, quem sabe até no interior, tocando uma canção do Dominguinhos no violão e comendo bolo com a família, no isolamento social. Por sequenciais fatos do destino – seria um pecado chamá-los de acasos -, Gilberto Gil se tornou cantor. E por cinco décadas, o baiano de Salvador tem nos abençoado com sua poesia e voz.

“Tempo é relativo” é uma baita de uma frase clichê. Mas quando falamos de Gilberto Gil, talvez ela valha. Ao lançar um olhar um pouquinho mais atento sobre a carreira do ícone, percebe-se que ele sempre esteve à frente: seja na estética ou na ética, Gil veio com o dom de anteceder o espírito do tempo, e de alguma maneira, moldá-lo.

Essa homenagem breve do Hypeness é uma maneira singela de relembrar o vanguardista e monumental legado de Gilberto Gil na cultura brasileira. Ah, e antes de ler, já marca na agenda que hoje, às 20h, tem live dele em seu canal do Youtube!

Ele orientou a Tropicália

Gil foi o líder do tropicalismo, movimento que esculpiria o futuro da MPB

Gil sempre foi apaixonado por música, mesmo antes de vir à São Paulo para viver uma vida careta como administrador de empresas (formado em administração pela UFBA, em 1964). Mas nos entremeios entre escritório e vida particular, se apresentou algumas vezes em festivais de música (já havia gravado um compacto em 1963), ganhando notoriedade por uma apresentação no programa ‘O fino da bossa’, que tinha Jair Rodrigues e Elis Regina como apresentadores.

– LSD: livro inédito quer contar a história da música psicodélica brasileira

O que surpreendeu em Gil foi justamente seu uso da guitarra elétrica, coisa que os mais puritanos da canção popular consideravam quase criminoso. Vale relembrar que em julho de 1967, houve a Marcha Contra a Guitarra Elétrica, uma manifestação na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo, contra a influência da música americana no cancioneiro popular brasileiro. Foi inclusive liderada por Elis. A resposta viria com Gil.

Ele gostava da guitarra. Sua fundação musical era nordestina: bebeu da água salgada de Dorival Caymmi e da árida sanfona de Luiz Gonzaga, e também estudou música com eruditos, mas não tinha medo da novidade. Em outubro do mesmo ano, junto de Caetano Veloso, fez a inauguração do movimento tropicalista, que combinava as influências da psicodelia norte-americana com os estilos populares brasileiros. Foi no III Festival Musical da Record que Gil se apresentou com Os Mutantes, tocando ‘Domingo no Parque’, que combinava orquestra, berimbau, guitarra elétrica. A canção ficou em segundo lugar, mas o título não era tão importante: o que valeu mesmo foi a mudança que causou em toda a Música Popular Brasileira.

Em 1968, o disco ‘Tropicalia ou Panis Et Circenses’, que contava com a modesta equipe de Rogério Duprat, Caetano, Os Mutantes, Gal Costa, Nara Leão, Tom Zé, Torquato Neto e Capinam, foi a consolidação do novo movimento. Esses artistas ditariam a década seguinte: o ‘articulador artístico’ do movimento era Gil. Depois desse disco, ninguém disse um a contra a guitarra elétrica (não porque fosse proibido, mas porque se percebeu que era possível ser brasileiro mesmo com a influência lá de fora).

‘Aquele abraço’: a luta contra a ditadura

Show da USP em 1973 de Gil foi um ato político em memória de Alexandre Vanucci Leme, estudante assassinado pela ditadura

Se o tropicalismo foi mal recebido pelos mais puritanos membros do composto popular brasileiro, os generais também não gostaram da onda meio ‘riponga’ que se espalhava nas juventudes brasileiras. Gil se tornou alvo da ditadura logo após o AI-5, que inaugurou a linha-dura da ditadura em nosso país. Em dezembro de 1968 seria preso por ‘tentativa da quebra do direito e da ordem institucional’, e, na quarta-feira de cinzas de 1969 seria liberado.

Enquanto ele partia para um exílio em Londres, uma breve pausa para apreciar o seu homônimo disco de 1969, também conhecido como ‘Cérebro Eletrônico’. O sutil anúncio do exílio, ‘Aquele Abraço’, poderia passar como uma simples música de afeto, mas era de fato uma crítica direta aos militares. No mesmo disco, o apreço de Gil pelo amanhã estava escancarado: ‘Futurível’, uma previsão transhumanística (antes mesmo do movimento filosófico ganhar algum tipo de notoriedade) é mais uma das canções proféticas.

Esse é Gil no histórico Festival Isle of Wight de 1969, em que conheceu Jimi Hendrix por um pequeno amigo em comum: Miles Davis

De volta do exílio, três anos depois, Gil vem um dos seus discos mais importantes: ‘Expresso 2222’, um compilado de canções, cuja mais memorável é Back in Bahia, uma referência clara ao ostracismo. O tema de futuro voltaria na canção-título: ‘O Expresso 2222 que parte direto de Bonsucesso pra depois do ano dois mil’.

Ele voltaria a ser detido pela ditadura em 1976, quando foi preso por porte de maconha antes de um show em Florianópolis dos Doces Bárbaros’, grupo que reunia Caetano, Gal, Gil e Maria Bethânia. Em 7 de julho, uma batida policial achou um baseado em sua carteira. Gil ficou detido até 15 de julho (antes tendo um show no dia 8 de julho, voltando para a cadeia logo após a apresentação), enfrentando julgamento que foi amplamente coberto pela mídia: foi a primeira vez que o debate sobre drogas foi pauta por toda a imprensa nacional.

Gil sempre se posicionou a favor da legalização das drogas, e deixou isso bastante claro em sua discografia. ‘Abra o olho’, música de seu disco ao vivo de 1974, é uma clara referência à verdinha.

Não se pode deixar passar seu icônico show de 1973 na USP, considerado por muitos um dos maiores eventos na luta contra a ditadura militar no Brasil:

Outros shows que valem dar uma olhada na carreira de Gil: sua icônica apresentação em 1985 no Rock In Rio, sua apresentação no Festival de Montreaux de 1978 (em especial pela jam com a banda a Cor do Som e o Patrick Moraz, do Yes, na última track do disco) e Refestança (disco ao vivo com Rita Lee, menos conhecida da quadrilogia Re).

Uma discografia antirracista

Gil era filho de um médico com uma bancária. Nasceu em família de classe média. Foi conhecer o racismo quando estudou no Colégio Marista, quando era adolescente. “Só fui sentir o racismo quando comecei a ir ao Colégio Marista. Lembro-me que uma vez, quando pedi uma explicação, um professor simplesmente virou para mim e disse: ‘cale a boca, seu negro boçal’. E eu calei. Era uma época muito difícil”, contou o cantor nas redes sociais.

Foi no colégio particular de maioria branca que Gilberto conheceria a face do racismo

Gil certamente não foi o primeiro negro a fazer sucesso a nível nacional no Brasil, mas certamente foi um dos que mais projetou o Brasil para o mundo com seu som. Além disso, a constante rememoração das religiões de matriz africana, da diáspora e do próprio racismo através de suas canções também estão ali para dizer que, ao contrário do que ocorreu lá no Colégio Marista, Gil não se calou perante o racismo.

“Se eu não fosse negro, eu não faço a menor ideia de que artista eu seria. Ser negro, culturalmente negro, me dá uma relação com a música, com o ritmo, com o mundo religioso, com tudo, enfim, que eu não teria não sendo negro, portanto não seria o artista que eu sou. Seria outro, outra pessoa”, afirmou, no dia da Consciência Negra, em 2019.

E em um dos seus clássicos discos, a trilha sonora original do filme ‘Quilombo’, de 1984, isso estava escancarado no refrão “a felicidade do negro é a felicidade guerreira”:

Na política, Gil simbolizou um novo momento

Gilberto Gil homenageou as vítimas do atentado terrorista de 2003 em histórico show na ONU

Saltemos do anos 1970 para 2003. Gil se identificou de maneira bastante íntima com a esquerda política na sua vida, especialmente após a reabertura pós-ditadura militar. Foi a voz do icônica jingle de Lula em 1989, ‘Lula Lá’, e, quando o petista ascendeu ao poder após as eleições de 2002, Gil se tornou o Ministro da Cultura do nosso país. Antes disso, havia sido vereador de Salvador entre 1989 e 1992. Em 1990, se filia ao Partido Verde, sendo um defensor da ecologia muito antes de ser hype.

Se a gestão de Gil na cultura brasileira foi controversa – gerando insatisfação em figurões como Paulo Autran, João Ubaldo Ribeiro, Marco Nanini e Ferreira Gullar -, vale ressaltar que durante os cinco anos de sua gestão uma de suas principais pautas seria uma reforma da Lei Rouanet, transformando-a em um sistema mais justo, amplo e democrático de acesso a recursos culturais. Mas se você quiser entender melhor o papel de Gil nesse processo, dá uma lida no nosso artigo ‘Tudo culpa da Rouanet’: Não, amigo, sem a Lei Rouanet o Brasil não seria a Suécia’que explica bem como esse sistema funciona.

Vamos nos ater à apresentação de Gilberto Gil na Assembleia Geral da ONU em 2003 em homenagem às vítimas de um atentado terrorista em Bagdá, um momento bastante simbólico para os anos que se seguiriam. Se hoje, a gestão federal brasileira é conhecida por andar sozinha durante as rodadas de encontros diplomáticos, recusar entrevistas à imprensa internacional e ser constante piada em outros países, aquele show parecia antecipar o futuro diplomático que o Brasil teria entre 2003 e 2013: um país que cresceu em relevância global, expandiu sua economia de maneira jamais antes vista e era vista como uma das principais peças no xadrez das relações internacionais.

E o momento mais marcante estava na apresentação de Gilberto Gil ao lado de Koffi Anan, então Secretário-Geral da ONU, cantando o clássico ‘Toda Menina Baiana’, do disco Realce:

O visionário sincrético: som, tempo e espírito

Afoxé ‘Filhos de Gandhy’, homenageado por Gil em samba-rock-mantra, é uma das principais referências para o cantor

A temporada de Gil em Londres durante o exílio não o colocou somente em contato com novos sons e pessoas, mas com novas ideias. Foi nesse momento em que passou a beber de uma fonte religiosa oriental, muito bem representada na canção ‘Oriente’, uma das muitas canções que revelam a espiritualidade do cantor em sua discografia.

Em 1982, lançaria ‘Um Banda Um’, disco de projeção nacional – que contaria com os clássicos temas ‘Drão’, ‘Esotérico’ e ‘Andar Com Fé’ – cujo trocadilho estava justamente na referência à Umbanda. As reflexões que combinam esoterismo oriental e a sabedoria das religiões de matriz africana vêm desde ‘Filhos de Gandhi’, homenagem ao afoxé homônimo, canção do disco Gil e Jorge, com Jorge Ben, cuja capa, inclusive, traz búzios sobre um painel digital, quase uma epítome do sincretismo de Gil.

– Gilberto Gil e Jorge Ben Jor voltam a gravar juntos, 44 anos depois de disco histórico

Curiosidade: bem antes das blogueirinhas, Gilberto foi um dos primeiros famosos adeptos da dieta macrobiótica no Brasil, fato que influenciaria sua filha Bela a se formar em culinária macrobiótica e ayurvédica

Não somente no campo da espiritualidade ficariam, é claro, as inovações de Gil. Além da introdução dos elementos da música estrangeira na Tropicália, Gil ainda ficaria marcado por trazer influências do afrobeat (em 77 conheceria o som de Fela Kuti e incorporaria seus elementos no clássico álbum Refavela), da disco music (presentes nos discos Luar e Um Banda Um, produzidos por Liminha) e do reggae, que já se mostravam em Realce (com a versão de No Woman no Cry, Não chore mais) e ficariam evidenciadas em Kaya N’gan Daya, de 2002, uma homenagem ao ícone jamaicano Bob Marley, em 2002.

Não poderíamos deixar de esquecer outra mistura que o cantor sempre fez, de modo profético e magistral, entre o digital e o analógico, entre passado e futuro, já explorada anteriormente no tropicalismo. A maior evidência disso está em ‘Pela internet’, canção do disco  1997, muito antes da tecnologia da informação ser massiva, como hoje em dia. Os termos ‘hacker‘, ‘vírus’, ‘site’, ‘homepage’ e em uma interpretação, as próprias redes sociais estão ali, como ágoras de debate. A canção é uma referência a ‘Pelo Telefone’, primeiro samba gravado da história do Brasil, de 1917.

Ah, é, ‘Pela Internet’ foi a primeira música a ser transmitida em um show ao vivo pela internet, em idos de 1996. O cara estava só um pouquinho a frente do seu tempo.

O Gil de hoje: amor, família e futuro

Mais vovô coruja, o gênio da MPB se mantém ativo e altivo perante o mundo

Gil teve diversos relacionamentos ao longo de sua carreira. Um dos mais marcantes, sem dúvida, foi com Sandra Gadelha, com quem teve os filhos Pedro, Preta e Maria. Desse relacionamento, inclusive, surgiu ‘Drão’, uma das mais belas canções sobre separação já feitas na música popular brasileira. Vale dar uma olhada nessa thread no twitter:

Hoje, Gil está casado há décadas com Flora, mãe de Bem, Bela e José (e esperamos que não precise de um novo Drão). Vovô coruja de uma família de sete filhos, dez netos e um bisneto, Gilberto Gil vive hoje um lifestyle mais pacato: longe da política desde 2008, ano em que saiu do Ministério da Cultura, continua ativo nos palcos, ainda mais zen do que sempre.

Tendência que nunca teve foi a do saudosismo barato: seu último disco a ser lançado foi ‘Gil Baiana, ao vivo!, em parceria com o grupo Baiana System, registro de um show de novembro de 2019. Nessa semana mesmo, ainda fez uma live com a cantora Iza, uma das mais importantes vozes da nova música popular do nosso país. O repertório incluiu clássicos como ‘Palco’, ‘Andar com Fé’ e ‘Vamos Fugir’:

Gilberto Gil é um dos patrimônios vivos da música brasileira: sua obra deve ser celebrada e sua arte visionária precisa do reconhecimento que se merece. Aqui no Hypeness, estaremos ligados na transmissão ao vivo dele de aniversário (e quem sabe, sugerimos até que hoje vire feriado nacional).

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Fotos: © Getty Images e Wikimedia Commons


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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