Debate

Auxílio emergencial por coronavírus foi solicitado por um terço das classes A e B

por: Vitor Paiva

Difícil começar a presente notícia de outra forma que não apontando certa crueldade que parece significar as elites brasileiras. Em um momento em que passamos de 30 mil mortos pelo novo coronavírus, e que a crise econômica – que já era antes cavalar e que ganha proporções trágicas no contexto atual – uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomativa revela que um terço das famílias de classe A e B solicitaram, através de ao menos um integrante, o auxílio emergencial oferecido pelo estado para ajudar os mais pobres a atravessarem a pandemia.

E pior: 69% desses pedidos foram aprovados, o que significa que 3,89 milhões de famílias entre as mais abastadas do país estão recebendo o auxílio por ao menos um integrante. A pesquisa ouviu 2.006 pessoas em 72 cidades entre os dias 20 e 25 de maio, com uma margem de erro de 2 pontos percentuais para cima ou para baixo. O resultado sugere também que, para burlar as métricas de concessão do auxílio, esses integrantes estão omitindo a renda no cadastro do site da Caixa Econômica – principalmente através de esposas de empresários, jovens de classe média, e servidores aposentados, segundo denúncias recentes.

O quadro de “Aprovado” dentro do app do auxílio

Por mais que a pandemia afete a todos, é importante frisar que, além de desumano, tal procedimento é fraudulento, e pode ser considerado crime de falsidade ideológica, com pena de um a cinco anos de prisão. “A crise econômica atinge a todas as classes econômicas. Mas a questão é o que deve ser priorizado do recurso público. É um momento para oferecer apoio para a parcela da população mais vulnerável, mas o poder público mostrou muita dificuldade para fazer o dinheiro chegar a quem precisa”, afirma Renato Meirelles, fundador e presidente do Instituto Locomotiva. O auxílio emergencial é pago pela União para trabalhadores informais, microempreendedores individuais e desempregados que não recebem seguro-desemprego. Segundo as determinações, é preciso ter uma renda per capita de até R$ 522,50 mensais ou renda familiar de até R$ 3.135,00 (três salários mínimos) para estar apto a receber o auxílio.

Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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