Ciência

China diz que nova cepa do vírus da gripe suína reúne características para criar pandemia

por: Yuri Ferreira

Pesquisadores chineses descobriram uma nova cepa do vírus H1N1 que reúne os potenciais para criar uma nova pandemia, com dimensões similares ao novo coronavírus. Segundo o estudo, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), revista da Academia de Ciências dos EUA, esse novo vírus, chamado G4, infectou diversos porcos entre 2011 e 2018, na China. Pelo observado em laboratório, o G4 é mais infeccioso e mais letal do que a gripe comum e o ser humano não tem imunidade contra ele.

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Em 2009, o H1N1 também foi motivo de preocupação; foram mais de 200 mil vítimas da influenza A até hoje

Durante sete anos, o estudo recolheu 179 tipos de gripe suína em criações ao redor da China. A maioria dos porcos estavam contaminados pela nova variedade do H1N1 (que havia já causado uma epidemia em 2009). Testes em furões, animais que reagem de maneira similar ao ser humano ao vírus influenza, indicam que o vírus pode ter um potencial de replicação altíssimo e causar sintomas mais graves do que outras variedades da gripe.

A pesquisa, que conta com estudiosos da Universidade Rural Chinesa e diversas autoridades de Pequim, como o Centro de Controle de Epidemias e o Ministério da Saúde, levanta ainda mais atenção sobre o país, que é a provável origem da Sars-Cov-2. Em Wuhan, capital da província de Hubei, na região central da China Continental, foi registrado o primeiro surto do novo coronavírus, entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020.

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A pesquisa aponta para um problema que já se discute há anos dentro da comunidade epidemiológica ao redor do mundo: a criação de animais em rebanho. O vírus da SARS-CoV e o MERS-CoV, identificados respectivamente em 2002 e 2012 são de origem zoonótica, ou seja, vieram de animais, assim como o novo coronavírus. A gripe suína de 2009 tem como origem mais apontada os rebanhos de porcos e há uma preocupação iminente com a gripe aviária (H5N1), comum em criações de animais, pois um potencial contato desse vírus com o ser humano pode ser a origem de uma pandemia de proporções nunca antes vistas.

“É preocupante que a infecção humana pelo vírus G4 promova a adaptação humana e aumente o risco de pandemia”, assinalam os pesquisadores, que recomendam monitoração constante do novo G4, especialmente em seres humanos que trabalham com criações de porcos. Anticorpos contra o vírus foram encontrados em profissionais da área, mas não é possível identificar se houve transmissão entre seres humanos. O estudo mostra que 10,4% dos trabalhadores da indústria de carne suína já foram infectados. Um total de 4,4% da população em geral também foi exposta ao novo vírus.

Observação em profissionais que trabalham na indústria da carne é primordial para captar novas infecções e provável contágio entre humanos

Um estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) já indicou que 70% das novas doenças em seres humanos têm como sua origem o consumo massivo de carne. Criações intensivas de animais (com aglomerações massivas de gado bovino, suíno e aves em espaços relativamente pequenos) representam um risco para humanidade e somente uma redução pela demanda de proteína animal pode reduzir essas chances.

“O trabalho vem como um lembrete salutar de que corremos um risco constante de surgimento de novos patógenos de origem animal, e de que animais de criação, com os quais o homem tem maior contato, podem atuar como fontes de vírus importantes geradores de pandemias”, afirmou James Wood, chefe do medicina veterinária da Universidade de Cambridge, à RFI.

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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