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Com 50 mil óbitos, coronavírus matou mais no Brasil que Guerra do Paraguai; país vizinho tem 13 mortes

por: Yuri Ferreira

Segundo o levantamento coletivo dos veículos de imprensa sobre a situação da pandemia de coronavírus no nosso país, já ocorreram mais de 50 mil óbitos pela covid-19 no Brasil. Em 100 dias da doença em território brasileiro, o vírus já foi capaz de superar as vítimas do conflito armado mais sangrento de nossa história; a Guerra do Paraguai.

Entre 1864 e 1870, o governo de Solano López queria que o Paraguai tivesse um escoamento marítimo para sua produção industrial proeminente na época. O país invadiu o território brasileiro e rapidamente uma Tríplice Aliança entre Argentina, Uruguai e Brasil se uniu para derrotar as forças de López. A longeva guerra deixou feridas em todos os envolvidos; as forças Brasileiras, em sua maioria compostas de jovens pobres e escravizados, tiveram cerca de 50 mil baixas, nada perto das paraguaias.

Em Puerto Iguazu, a tríplice fronteira exibe os limites entre os três países banhados pelo rio Paraná; dois deles estão lidando bem com a pandemia. O outro é o Brasil

O Duque de Caxias, hoje relembrado como herói nacional, protagonista em estátuas e importantes avenidas de todo o país, comandou um verdadeiro massacre contra os paraguaios. Cerca de 200 mil pessoas foram assassinadas, quase metade da população vizinha. Dois terços da população masculina desapareceram.

Hoje, o Paraguai tem 13 mortes por coronavírus. O Brasil tem 50 mil. A rápida ação do governo paraguaio foi capaz de instaurar um lockdown rápido em março e o vírus se espalhou muito pouco. Desde 4 de junho, a média de transmissão comunitária no país é de 20 casos por dia. No nosso país, desde a data, a média ultrapassa os 20 mil casos confirmados a cada 24 horas.

– Coronavírus: Brasil completa 1 mês sem ministro da Saúde com 43,9 mil mortos e 3º maior número de óbitos em 24h

Segundo historiadores, existe uma correlação entre a negligência do governo Brasileiro com o coronavírus e a postura do Império quanto à guerra. “O que aproxima os dois contextos é o desvalor das vidas perdidas. Só foram para a guerra aqueles que não contavam com redes de proteção, ou seja, amigos e padrinhos. Os filhos da elite, na sua grande maioria, não foram para as batalhas. Por isso, inclusive, muitos escravos foram libertados. Eles substituíram os rapazes bem nascidos. Ou seja, ironicamente, ex-escravos é que foram os defensores do Brasil”afirma a historiadora Adriana Barreto de Souza, autora de “Duque de Caxias – O Homem por Trás do Monumento”, à Folha de São Paulo.

A vitória na Guerra do Paraguai foi erguido com o sangue de negros, indígenas e pobres. Hoje, quem mais sofre pela pandemia de coronavírus são essas populações

“Sabemos hoje que as maiores vítimas da pandemia são (e serão ainda mais) os brasileiros pobres, em sua maioria negros. Aqui no Rio, a curva de avanço do vírus é muito clara. Já estacionou na zona sul e cresce descontroladamente na Baixada Fluminense, região periférica e historicamente desassistida pelos governos”, completa.

Outra correlação encontrada entre aquele momento e o atual é a alocação de militares em postos políticos. Segundo o Poder360, são mais de 2 mil fardados em postos do Executivo brasileiro – coisa que nunca havia acontecido, nem sequer na ditadura militar brasileira. Na época da Guerra, os militares eram filiados a partidos políticos. Os conflitos entre fardados de diferentes partidos levaram a uma desunião das tropas brasileiras, que prorrogaram a Guerra por mais tempo que o necessário. Nota mental: o Ministério da Saúde, responsável para batalhar na “guerra invisível” contra o coronavírus é comandado por um militar que confundiu o clima de Nova York com o de Maceió.

Voltando a 2020, o cenário é diferente: o Brasil e o Equador são claramente os países responsáveis por colocar a América do Sul como ponto de epicentro mundial do novo coronavírus. Nosso país, inclusive, é o principal responsável por levar casos à Bolívia: as duas regiões mais atingidas do país vizinho, Santa Cruz e Beni, são as principais conexões entre o Brasil e o território boliviano.

A ‘Ponte da Amizade’, nome que tenta apaziguar o terrível genocídio que as forças do Exército Brasileiro cometeram contra o povo paraguaio, se mantém fechada e, provavelmente, vai ficar por um bom tempo.

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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