Debate

Coronavírus: enfermeira desabafa após onda de hospitais invadidos no Brasil

Redação Hypeness - 15/06/2020

A BBC Brasil entrevistou uma enfermeira sobre os episódios ocorridos no último 4 de junho no Hospital de Campanha do Anhembi, em São Paulo, invadido por deputados estaduais. Sob o nome fictício de Carla*, ela disse que os parlamentares agiram como se os profissionais de saúde fossem criminosos”. Ela conta que todos se sentiram desrespeitados em “uma situação vexatória. Não poderiam fazer aquilo. É importante fiscalizar o uso de dinheiro público, mas aquela não era a forma correta para fazer isso”. 

A invasão ao hospital foi feita pelos deputados Marcio Nakashima (PDT), Adriana Borgo (Pros), Coronel Telhada (PP), Leticia Aguiar (PSL) e Sargento Neri (Avante) — os quatro últimos são apoiadores do presidente. Pessoas ligadas aos parlamentares também participaram da ação.

– SP reabre com ruas cheias, 2 recorde mortos seguidos e quase 9 mil óbitos pelo coronavírus

Hospital de Campanha no Anhembi

O objetivo dos políticos era ‘provar” que a ameaça do novo coronavírus, que incentivou a construção da unidade de saúde, é uma farsa inventada para prejudicar a economia do país e o atual governo. Mesmo sem autorização, eles tentavam entrar no local para, segundo os parlamentares, ‘fiscalizar‘ e ‘apurar possível má utilização de recursos públicos’.

Depois da ação no Anhembi, os deputados criticaram o hospital de campanha. “O governo quer alugar leitos de hospitais privados e vemos esta estrutura inoperante”, disse Nakashima. Ele classificou a unidade de saúde como “um exemplo de má gestão dos recursos públicos”.

– Yanomami, que podem ter 40% de infectados pelo coronavírus, sofrem ataque ambiental impressionante

Prefeitura de São Paulo reagiu e disse em nota que os deputados filmaram áreas desativadas, que estão prontas para serem colocadas em funcionamento quando necessário. A gestão criticou a postura dos deputados e afirmou que eles filmaram pacientes sem autorização prévia, muitos durante o período em que estavam sendo higienizados em seus leitos. Na data em que grupo foi ao local, segundo a Prefeitura, 397 dos 1,8 mil leitos disponíveis no hospital estavam ocupados.

– Coronavírus atinge 700 mil casos no Brasil e Curitiba reabre bares com show de pagode, muvuca e ausência de máscaras

Veregonha e desrespeito

A profissional de 45 anos, sendo 22 deles atuando na enfermagem, classifica o momento como a situação mais vergonhosa e desrespeitosa que viveu na linha de frente do combate ao novo coronavírus. Ela confessa que teme passar por situação semelhante nos próximos dias, após ler uma declaração que o presidente Jair Bolsonaro deu na noite da quinta-feira (11). 

Brasil perde apenas para os EUA em mortos pela covid-19

Durante uma live, ele incentivou seus seguidores a invadirem hospitais e filmarem o que encontrarem no interior. “Tem hospital de campanha perto de você, hospital público, arranja uma maneira de entrar e filmar. Muita gente está fazendo isso e mais gente tem que fazer para mostrar se os leitos estão ocupados ou não. Se os gastos são compatíveis ou não”, disse Bolsonaro, sem acrescentar qualquer prova de que os recursos tenham sido mal utilizados.

– Dados e estatísticas coronavírus: 5 sites te ajudam a se manter informado após o ‘apagão’

Carla considera que a declaração do presidente pode dificultar ainda mais a batalha contra o novo coronavírus no Brasil, que tem mais de 41 mil mortes. “Ele está incentivando a baderna, o desrespeito ao próximo e ao profissional de saúde”, diz.

Ela acrescenta ainda que as apurações sobre supostas fraudes nas gestões de hospitais devem ser feitas por autoridades responsáveis, como a Polícia Federal. “As pessoas não podem invadir um hospital, sem qualquer permissão para filmar o local e os pacientes”, declara a enfermeira, que por segurança teve seu nome mantido em sigilo na reportagem. 

– Coronavírus: Brasil mira reabertura e OMS diz que pior momento da pandemia está por vir

Em nota, a Associação Paulista de Medicina criticou o incentivo de Bolsonaro para que as pessoas invadam e filmem unidades de saúde. “Hospitais são áreas de circulação restrita, com fluxo de pessoas orientadas para garantir rapidez, eficiência, segurança e privacidade dos pacientes assistidos. Todas as informações necessárias ao acompanhamento dos casos internados é sempre imediatamente disponível às autoridades de saúde”, argumenta a entidade.

Também sem apresentar provas, o presidente insinuou que os números da covid-19 estão sendo manipulados por prefeitos e governadores para ‘ganho político’.

– Atila Iamarino critica reabertura do Brasil em meio ao caos do coronavírus: ‘Não fez lição de casa’

O Hospital Dório Silva, instalado no município de Serra, no Espírito Santo, também foi invadido por cinco deputados. Já nesta sexta-feira (12), o Hospital Ronaldo Gazolla, referência no tratamento da Covid-19, no Rio de Janeiro, foi depredado por apoiadores de Bolsonaro. 

Publicidade

Fotos: foto 1: Divulgação/Prefeitura de São Paulo/foto 2: Getty Images


Redação Hypeness
Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

Warning: file_put_contents(/var/www/html/wordpress/wp-content/themes/hypeness-new/functions/cache/twitter-stream-hypeness.txt): failed to open stream: Permission denied in /var/www/html/wordpress/wp-content/themes/hypeness-new/functions/social.php on line 410


X
Próxima notícia Hypeness:
Casal que provocou incêndio florestal com chá revelação é indicado por 30 crimes