Debate

Coronavírus: pensador diz que pós-pandemia pode ser de sofrimento ou solidariedade

por: Vitor Paiva

Sabemos que, diante da pandemia do novo coronavírus, o mundo já não é mais o mesmo e, assim, menos ainda será igual quando superarmos a crise atual. Ninguém sabe ainda de fato como esse novo mundo será, mas é trabalho de pensadores, artistas, cientistas sociais e filósofos ajudar a especular, investigar e, assim, também construir essa realidade por vir. É isso que vem procurando fazer o filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi que, entre muitas reflexões, enxerga essencialmente dois caminhos possíveis para esse futuro: um cenário de sofrimento mental generalizado, ou a redescoberta da solidariedade entre nós.

O filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi © divulgação

“Não vai ficar mais fácil após o término do isolamento; [viver] será muito mais difícil e duro”, diz o autor de livros como Asfixia e Depois do Futuro, em reportagem da BBC. “Deveríamos olhar para essa dificuldade pelo ponto de vista dessa nova consciência que o isolamento gerou: consciência da mortalidade e da fragilidade do corpo.”, afirma Berardi. Em sua obra o filósofo debate temas como o atravessamento das relações humanas sociais atuais pelo modelo financeiro-tecnológico, e os caminhos de resistência através de agrupamentos público e da arte. Berardi crê no corpo e no afeto como meio para criarmos um novo sentido para nossas interações sociais e coletivas – mais encontro, menos fragmentação.

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“Agora, o corpo é diretamente agredido pelo vírus, pelo isolamento obrigatório e pelo distanciamento social”, escreve Berardi, que vem mantendo um diário comentando a atual pandemia. “Podemos entrar em um período de miséria física ilimitada, de deserotização absoluta das relações sociais, um período de sofrimento mental generalizado”, diz, lembrando, no entanto, que podemos também “redescobrir a necessidade da solidariedade, abandonar o espírito de competição agressiva e sair do medo do contágio com um desejo renovado de contato corporal”. Berardi sabe que os próximos anos provavelmente serão de agravamento das crises econômicas e sociais, de enfrentamento e até mesmo de violência.

…e de Nova Déli

“A explosão do desemprego criará a condição para um tremendo agravamento da situação social: miséria generalizada, agressividade, conflitos, violência, guerra. Isso é fácil de prever, é quase óbvio. A única saída de uma catástrofe sem fim é uma mudança radical na relação entre atividade social e acesso às necessidades básicas da vida.”, escreve em seu site. “Acho que a verdadeira mudança não deve ocorrer na posição política dos Estados, mas na capacidade da sociedade de se organizar fora das formas dominantes. Auto-organização da produção, principalmente da produção de alimentos, e redistribuição de riqueza.”, diz o filósofo, na reportagem.

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© fotos: Wikimedia Commons/divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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