Matéria Especial Hypeness

Coronavírus: uma janela para outros mundos | parte #4 | Decrescimento e suficiência: novas métricas para novos mundos

por: Clara Caldeira

Depois de falar exaustivamente sobre a pandemia do novo coronavírus e sua relação com a devastação ambiental sem precedentes, de nos debruçar sobre a atual crise do sistema econômico capitalista e problematizar o divórcio forçado entre humanidade e natureza que constitui a base do pensamento ocidental hegemônico, chegamos nesta série ao momento de deixar um pouco de lado os problemas e olhar para os caminhos e possibilidades.

Uma nova forma de pensamento e uma nova maneira de encarar e conduzir a vida, a economia e a sociedade requerem a adoção de novas métricas e indicadores, uma nova arquitetura conceitual. Des(re)construir um modo de pensar é difícil e, para tornar esta empreitada possível, faz-se necessário encontrar ferramentas e conceitos que permitam materializar um projeto de realidade baseado no equilíbrio entre indivíduos e coletividades, entre a sociedade e a natureza.

A proposta dos teóricos do Bem Viver, como descrevemos nos primeiros textos desta série, é a recuperação da cosmovisão dos povos e nacionalidades indígenas, sem assumir que o Estado é o único campo de ação possível. Não se trata também de ‘modernizar’ este mesmo Estado, incorporando dimensões indígenas e afrodescendentes. É necessário repensar a noção de Estado, e também as estruturas de conhecimento, em termos plurinacionais e interculturais. Para isso, é indispensável falar num projeto de educação intercultural e numa dimensão de Estado plurinacional, a partir da incorporação dos códigos culturais dos povos e nacionalidades indígenas.

Coronavírus: uma janela para outros mundos | parte #1 | Colapso climático na raiz do problema
Coronavírus: uma janela para outros mundos | parte #2 | A chave na engrenagem
Coronavírus: uma janela para outros mundos | parte #3 | o divórcio entre humanidade e natureza

Um importante avanço nesse sentido ocorreu no Equador, em 2008, com a inclusão dos Direitos da Natureza na Constituição. Reconheceu-se então a Natureza (Pacha Mama ou Mãe Terra) como sujeito de direitos, numa postura biocêntrica em contraponto ao antropocentrismo global. Transitar do antropocentrismo em direção ao biocentrismo é um dos pontos fundamentais. Para isso, mostra-se necessário reorganizar a sociedade e a economia, assegurando a integridade dos processos naturais, garantindo os fluxos de energia e materiais da biosfera e preservando a biodiversidade (ACOSTA, 2016, p. 135). 

 

Entender a Natureza como sujeito de direitos pode ser uma das únicas respostas possíveis à atual crise civilizatória. A definição de bem-estar como acúmulo de bens materiais, resultado do crescimento econômico e consumo ilimitados, já se mostrou insuficiente e insustentável, além de inalcançável para a grande maioria da população global. Por isso, é preciso encarar o fato que os instrumentos aceitos até então para medir, analisar e buscar esse bem estar — constituídos por conhecimentos de matriz colonial e eurocêntrica — já não servem mais. 

Decrescimento e suficiência: métricas para outros mundos 

Um dos pontos centrais da reflexão proposta por Acosta em “O Bem Viver” é o questionamento do crescimento como motor da economia, como pressuposto para o desenvolvimento. Para isso, ele retorna aos anos 1970, mais precisamente ao informe do Clube de Roma, ou Relatório Meadows, publicado em 1972, também conhecido como os limites do crescimento. Utilizando modelos matemáticos, o relatório encomendado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) chegou à conclusão de que o planeta Terra não suportaria o crescimento populacional, devido à pressão gerada sobre os recursos naturais e energéticos, e ao aumento da poluição, mesmo tendo em conta os avanços tecnológicos. 

Como algumas das previsões (ainda) não se cumpriram, o relatório acabou deslegitimado. Mas cientistas, como o Prof. Jorge Paes Rios, da UFRJ e da Université de Grenoble, na França, corroboram com a maioria das conclusões, apontando ser apenas questão de tempo para que se confirmem. Em sua pesquisa, Rios ressalta que, como todo modelo matemático global, o Relatório Meadows pode apresentar algumas imprecisões ou mesmo simplificações, o que não invalida as conclusões principais.

Além de Jorge Paes Rios, já são muitos os economistas de prestígio que demonstraram as limitações desse crescimento. Nicholas Georgescu-Roegen, Kenneth Boulding, Herman Daly, Roefie Hueting, Enrique Leff e Joan Martínez Alier são alguns dos nomes citados por Acosta. Principalmente nos países industrializados, multiplicam-se as vozes que reclamam uma economia que propicie não apenas o crescimento estacionário, mas o decrescimento. O sociólogo e ambientalista mexicano Enrique Leff questiona: “Como desativar um processo que tem em sua estrutura originária e em seu código genético um motor que o impulsiona a crescer ou morrer?”.

Uma das respostas possíveis para este dilema é o conceito de suficiência, que aponta para a desmontagem do paradigma ético do progresso material ilimitado — entendido como acumulação permanente de bens — à partir de uma nova ética. Este pensamento já encontra eco em outras regiões do mundo, como por exemplo na Alemanha, por meio de trabalhos de pesquisadores como Niko Paech, Börjn Paech, Christa Müller, Oliver Stengel e Silke Kleinhückelkotten.

Sai então de cena a ideia do acúmulo para uma melhor qualidade de vida, dando lugar ao viver bem aqui e agora como objetivo, sem colocar em risco a vida das próximas gerações. Mas para isso é necessário desfazer a malha de privilégios e desigualdades, distribuindo e redistribuindo riqueza e renda para começar a estruturar as bases de sociedades mais justas e equitativas, mais livres e igualitárias (ACOSTA, 2016, p. 92). Por trás destas reflexões está a proposição de que escrever uma mudança histórica no sentido da transição de uma concepção antropocêntrica para uma concepção biocêntrica tornou-se tarefa urgente para a manutenção da existência do próprio ser humano na Terra. Mas este é também o maior desafio da humanidade. 

Os países ricos teriam que, obrigatoriamente, mudar seu estilo de vida, que coloca em risco o equilíbrio ecológico mundial, além de assumir sua corresponsabilidade numa restauração global. Ou seja, teriam que pagar sua dívida ecológica, acumulada desde o início da colonização por meio da exportação de recursos naturais a preços baixos e as decorrentes perdas de nutrientes e biodiversidade nos países subdesenvolvidos. Cabe citar ainda a transferência de poluição (resíduos ou emissões), a exploração humana e a biopirataria, práticas instituídas a mais de 500 anos e que prevalecem até os dias de hoje por meio da Divisão Internacional do Trabalho e do neoextrativismo.

O Movimento dos Sem Água. Trabalho feito pelo (art)ivista Mundano, criador também do projeto Pimp my Carroça

Em outras palavras, a economia deve se submeter à ecologia, e não o contrário, por uma razão muito simples. Quem estabelece os limites e alcances da sustentabilidade e a capacidade de autorrenovação dos sistemas naturais é o meio ambiente. Ou seja, se destruímos a natureza, destruímos as bases da própria economia. A crise desencadeada pela pandemia global do novo coronavírus é um exemplo ilustrativo de como a transgressão desses limites pode implodir, mesmo que temporariamente, as bases do sistema responsável por essa mesma transgressão. As epidemias e pandemias de doenças zoonóticas, ligadas direta ou indiretamente ao consumo e à indústria da carne, já há muito tempo mostram claramente as consequências de forçar esses limites de forma indiscriminada. A diferença é que agora, pela primeira vez, estas consequências afetaram de forma profunda e global estruturas econômicas, financeiras e até mesmo culturais.

Fortalecimento comunitário

Mas a despeito de encararmos aqui o momento atual como uma oportunidade de revisão ética e conceitual, o decrescimento não deve ser confundido com recessão. Uma nova economia, solidária e sustentável, tem que se basear numa crescente autodependência comunitária e superar o consumismo e o produtivismo. Na perspectiva do Bem Viver, a transição deve ser pensada a partir de noções de autocentramento, movimento que já vem acontecendo em pequena escala como reação às limitações impostas pela pandemia. As dimensões locais estão agora um pouco mais situadas devido à redução da mobilidade e dos deslocamentos, tanto de pessoas quanto de mercadorias.

As campanhas de incentivo ao consumo local e de fortalecimento de pequenos negócios e produtores, que passaram a circular com maior intensidade com o início das quarentenas por todo o mundo, apontam na mesma direção dos sistemas de moedas alternativas, colocados por Acosta como estratégia de organização política e econômica construída de baixo e de dentro. Esses sistemas permitem, em última instância, o empoderamento de comunidades por meio do fortalecimento de suas economias internas. 

Em Bristol, além da libra esterlina, também circula uma segunda moeda, o Bristol Pound. Os Bristol Pounds só são aceitos em negócios locais, o que garante que o dinheiro volte pra comunidade e não se desvie para grandes corporações

Mesmo que em pequena escala, o que estamos experimentando agora é um entendimento da solidariedade como valor fundamental para a sobrevivência, que tem por consequência o fortalecimento dos laços comunitários. A pergunta que nos fazemos agora é: de que forma poderíamos levar as experiências proporcionadas por este trauma global no sentido de ações propositivas para transformações estruturais profundas da sociedade? Quais seriam os caminhos e agentes envolvidos nessa transformação?

[Continua…]

Leia a primeira parte deste texto.

Leia a segunda parte deste texto.

Leia a terceira parte deste texto.

Bibliografia

ACOSTA, Alberto. O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. 4ª reimpressão. São Paulo: Autonomia Literária, Elefante, 2016. 

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Clara Caldeira
Quatro anos e meio à frente do conteúdo do Hypeness, após atuar por seis anos como editora no Catraca Livre, Clara Caldeira é jornalista com 15 anos de experiência em cultura, comportamento, cidadania, tendências e pesquisadora em comunicação, gênero, corpo e meio ambiente. Já participou de projetos de reportagens, documentários, branded content e formações diversas com ONGs, assessorias culturais e publicações digitais variadas.

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