Matéria Especial Hypeness

Coronavírus: uma janela para outros mundos | parte #5 | Infodemia, polarização e o funeral da verdade

por: Clara Caldeira

Desde o início da série ‘Coronavírus: uma janela para outros mundos’, refletimos sobre a pandemia, suas causas e seus efeitos num nível global. Investigamos também quais os pensamentos dominantes e o projeto de poder que nos trouxe até aqui e buscamos ainda algumas respostas possíveis para a atual crise civilizatória, baseadas em novas formas de pensar o mundo e as relações. Umas das pergunta que nos fizemos no final do último texto e procuramos responder agora é: de que forma poderíamos levar as experiências proporcionadas por este trauma global no sentido de ações propositivas para transformações estruturais profundas da sociedade? Quais seriam os caminhos e agentes envolvidos nessa transformação?

Vivemos hoje a experiência de uma “Sociedade da Transparência”, que pode também ser entendida como uma sociedade positiva, segundo o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, famoso por suas críticas à sociedade do hiperconsumismo e ao “inferno do igual”. Uma sociedade formada por subjetividades que se tornam transparentes à medida em que eliminam de si toda e qualquer negatividade (diferença ou divergência), tornando-se rasas, planas, sem camadas. Entende-se por negatividade tudo o que é alheio, o que é diverso, o que contrasta, limita ou questiona. Tudo que está “do outro lado da linha”, descrita por Boaventura de Sousa Santos pode ser entendido como negatividade. A Sociedade da Transparência é, portanto, uma sociedade abissal.

Comunicação ‘transparente’: o diferente como obstáculo

Pensando num exemplo cotidiano, as “bolhas” criadas pelos algoritmos — por meio de ferramentas de busca e redes sociais — criam universos particulares em que só vemos o que desejamos ver, o que é parecido, o que reforça, o que corrobora. Só convivemos com o pensamento igual, o que concorda. A complexidade, representada pela negatividade do que é alheio ou pela resistência do outro, atrapalha e retarda a comunicação rasa do igual, compromete a velocidade da comunicação e por isso não interessa (HAN, 2017, p. 36). 

Esse paradigma também pôde ser observado com clareza na política Brasileira, a partir das manifestações de 2013, durante as eleições de 2014, e teve seu auge nas eleições de 2018, quando o atual presidente chegou ao poder. Hoje, vivenciamos na pele, e nos pulmões, os efeitos da polarização. Vivenciamos no corpo social e nos corpos físicos o resultado de um longo processo de eliminação das negatividades. Na sociedade da transparência, toda e qualquer distância se mostra como negatividade, devendo ser eliminada. A negação da gravidade da pandemia provocada pelo novo coronavírus — e a resistência ao cumprimento do isolamento social, recomendado pela OMS como ferramenta de achatamento da curva de contágio para evitar um colapso dos sistemas de saúde — são alguns dos sintomas da eliminação das negatividades. Um efeito colateral claro deste processo, é o fenômeno das fake news.

O paradigma descrito no âmbito da comunicação contemporânea está presente já há muitos anos nas estruturas do pensamento ocidental. A eliminação de povos, saberes e culturas no processo colonial, fundamental para a construção do capitalismo, foi (e é) também um processo de eliminação das negatividades. A narrativa aparece então como elemento de resistência, que contrasta com os imperativos da velocidade e da transparência, por ter a negatividade como como característica estruturante. Os rituais e as cerimônias são acontecimentos narrativos, que se esquivam da aceleração. Essenciais aos modelos descoloniais de organização comunitária, eles não podem ser operacionalizados e, por isso, foram, aos poucos, sendo eliminados da sociedade da transparência. 

Trabalho do artista plástico croata Nadja Jovanovic

Retomando o modelo de fluxos circulares de riqueza de Quesnay, que fundamenta o capitalismo e  o neoliberalismo — atribuindo à circulação um equilíbrio intrínseco, em que a qualquer ruído ou bloqueio é conferido um caráter externo, de entrave que precisa ser removido —, podemos perceber que vivenciamos o paradigma da transparência (abissal) também na economia. Por outro lado, o mesmo processo que naturalizava a economia ao passo em que objetificava a natureza (e os corpos), essencial para a autolegitimação burguesa, como vimos, é hoje o que dá a tônica das comunicações. 

A superabundância de informação (ACOSTA, 2016, p. 43) também cumpre essa função, dissolvendo informações e narrativas numa espécie de banalidade programada. Grandes veículos de comunicação, privados e governamentais, atuam em consonância com as práticas inquisitivas do pensamento colonial, marginalizando conteúdos contrários à lógica do poder. A chamada mídia alternativa, por sua vez, dependente das redes sociais e mecanismos de busca para a circulação, tem seu alcance delimitado pela curadoria da positividade, submetida à mecânica dos algorítmos e restrita, portanto, ao alcance das “bolhas”. Torna-se transparente.   

Pawel Kuczynski

O problema é que, diferente do calcular, o pensar não é transparente. A negatividade é inerente ao pensar, e lhe permite promover experiências transformadoras. A negatividade é essencial à experiência, assim como é fundamental na constituição do pensamento. A negatividade na forma de empecilho ou transição é constitutiva para a tensão narrativa, e o excesso de positividade que hoje domina a sociedade é um indício de que fomos privados da narratividade. A crise que vivenciamos hoje na comunicação, no pensamento e nas subjetividades não é causada pela aceleração propriamente dita, mas pela dispersão e dissociação temporal. O tempo torna-se esvaziado de narratividade em nome dos processos, que remontam ao verbo latino procedere, que significa avançar. 

A verdade está morta?

Em 1966, em uma capa histórica, a revista TIME questionou, em referência a Nietzsche, se Deus estaria morto. Em abril de 2017, ainda sob o efeito da perplexidade causada pelo resultado das eleições estadounidenses e ao boom das fake news, a mesma revista publicou uma capa fazendo referência àquela de meio século atrás. Mas a pergunta agora era outra: estaria a verdade morta? 

Capas da revista Time de 1966 e 2017, respectivamente: ‘Deus está morto?’ e ‘A verdade está morta?’

Transparência e verdade não são iguais. A verdade é uma negatividade na medida em que se coloca, no âmbito da comunicação, como realidade mediada. Ou seja, ao fazer-se uma opção narrativa, nega-se todas as demais possibilidades de abordagem ou versão. O jornalismo pode ser entendido como responsável pela produção e certificação das narrativas por meio das quais se experimenta a atualidade nas sociedades contemporâneas, mas sem nunca perder de vista a interdependência entre as subjetividades de quem produz e de quem recebe a informação (GOMES, 2009, p. 15), também formas de negatividade.

A hiperatividade, a hiperprodução e a hipercomunicação (HAN, 2017, p. 69) é que nos privam de toda narratividade, todo direcionamento, todo sentido. O excesso e a velocidade se proliferam e crescem sem objetivo nem forma e nisso é que reside a crise da verdade, a crise da credibilidade. Mais informação ou o acúmulo de informações por si só não produzem verdade, falta-lhes direção, saber e sentido, ou seja, narratividade. A hipercomunicação e a hiperinformação, resultantes da imposição e da massificação do positivo, geram precisamente a falta de verdade, a falta de ser (HAN, 2017, p. 25). Uma maior quantidade informação e comunicação não afastam a falta de precisão, pelo contrário, intensificam-na ainda mais.

Infodemia: uma guerra semiótica em meio à pandemia 

Em meio à pandemia de Covid-19, a Sociedade da Transparência tem se mostrado terreno fértil para uma guerra de versões à serviço da manutenção da ordem política e econômica, por meio de uma calamidade natural externa. Nesse contexto, agentes diversos se aproveitam do caos para garantir seus interesses próprios por meio da (des)informação. Nos EUA, vê-se uma oportunidade de quebrar a crescente participação da China na cadeia produtiva global e ainda interromper de vez os processos de imigração. Na Hungria, o premiê Viktor Orbán concede a si mesmo poderes extraordinários, sob o pretexto de calamidade pública. No Brasil, o vírus serve de cortina de fumaça para manobras políticas orientadas por projetos pessoais de poder, enquanto essas mesmas manobras, em contrapartida, servem de cortina de fumaça para a própria pandemia, cuja gravidade vem sendo negada pelo presidente.

Na era da pós-verdade corremos o risco de vivenciar uma pós-imprensa. A já mencionada crise de credibilidade desencadeada pelo fenômeno das fake news já há alguns anos, diminuiu a relevância de sites, portais, jornais e emissoras na disputa de narrativas. No final de fevereiro, quando a França se preparava para uma longa quarentena, a Itália, o país mais afetado pelo vírus na Europa, alegou estar sendo vítima de fake news. O chanceler Luigi Di Maio, disse a repórteres que informações falsas estariam criando uma “infodemia”, uma “epidemia de informações falsas”, vindas do exterior, prejudiciais à economia e à reputação do país. Ele afirmou que todos os casos de Covid-19 na Itália estavam associados aos dois surtos no norte, e que apenas 0,1% das cidades italianas tinham sido afetadas. Não é preciso dizer o que aconteceu nas semanas seguintes. Sem entrar no mérito específico das alegações do chanceler italiano, nem negar o impacto efetivos das fake news, é fato que o fenômeno acabou por se tornar uma espécie de recurso de defesa. Com frequência, líderes mundiais apelam para o fenômeno das notícias falsas para negar acusações ou estatísticas prejudiciais à imagem de um país ou governo.

Uma particularidade interessante, apesar de trágica, da pandemia atual é que, diferente de outras previsões climáticas de longo prazo, o coronavírus tem suas consequências expostas em tempo recorde, além de não fazer distinção de classe social — apesar de serem sempre as populações vulneráveis as mais afetadas. Foram muitos e notórios os casos de personalidade e políticos que contraíram a Covid-19 depois de menosprezar seus efeitos. Alguns inclusive acabaram indo a público posteriormente para se retratar. Muitos dos líderes mundiais que recebem os relatórios climáticos e tomam decisões a partir de previsões e recomendações ambientais não estarão vivos para testemunhar a confirmação das projeções que chegam a seu conhecimento. Estamos presenciando uma rapidez de resposta do tipo “causa e consequência” nunca antes experimentada pela humanidade de forma global, com uma cobertura digital e em tempo real, também inédita. O resultado disso, sabemos, pode ser caótico e angustiante.

Morremos de tristeza 

A sociedade positiva não admite qualquer sentimento negativo. Desaprendemos assim, como se lida com o sofrimento e a dor. Esquecemos com dar-lhes contorno e, enquanto isso, desajeitados, morremos de tristeza. Tristeza essa à qual Nietzsche atribui a profundidade da alma humana. O negativo onde supunha demoramo-nos para engrandecer. O nascimento doloroso que acende a fortaleza (Nietzsche 1968 apud HAN, 2017, p. 19).

Nas linha medicinais holísticas como a naturopatia, a antroposofia e a medicina chinesa, as doenças pulmonares estão associadas à tristeza. A tristeza prolongada afeta os pulmões e o oposto também acontece. Quem padece de uma disfunção pulmonar por um longo tempo, pode ser afetado emocionalmente e experimentar um sentimento de tristeza. Ironicamente, é o pulmão justamente o órgão atacado pelo novo coronavírus e é o seu colapso que leva os pacientes em estado grave à morte.

Quem está matando agora é o coronavírus, sabemos. Mas ao lançarmos um olhar simbólico sobre o que estamos vivendo hoje, podemos conjecturar que estamos sim morrendo de tristeza. A passagem da Covid-19 do universo animal para o organismo humano e sua rápida disseminação pelo mundo são resultado das escolhas que fizemos e dos rumos que tomamos em termos de construção de sociedade. O apagamento e extermínio de povos e culturas originários, a exploração humana e animal ilimitada e consumo irrestrito de recursos naturais estão na base do paradigma sócio econômico que vivenciamos hoje.

A “obesidade de todos os sistemas atuais”, de informação, comunicação e produção é a característica marcante em tempos de superabundância. A comunicação generalizada e a superinformação ameaçam todas as formas humanas de defesa (Baudrillard 1992 apud HAN, 2017, p. 15). Mas a violência da positividade que resulta da superprodução, superdesempenho ou supercomunicação não pressupõe necessariamente um choque ou inimizade. Ela se estrutura a partir do apagamento do outro, da eliminação institucional e secular da negatividade. Desenvolve-se numa sociedade permissiva e aparentemente pacificada. Uma violência simbólica e estrutural, desenvolvida a partir de silenciamentos, e que respalda, em última instância, uma série de outras violências físicas, sociais, naturais e culturais.   

Estamos doentes. A Sociedade da transparência é abissal. A ditadura da positividade não tolera a divergência. Estamos morrendo de coronavírus, mas também estamos morrendo de tristeza. Estamos morrendo de depressão, de ansiedade, de burnout. As doenças que determinam a paisagem patológica do início do século 21 são causadas pelo excesso de positividade, pela ausência do “outro”.

O único antídoto possível é a recuperação dos manuscritos queimados por quem escreveu – com sangue, carvão e petróleo – nossa história até aqui. O coronavírus é o nosso futuro. Morrer de tristeza é o nosso destino enquanto projeto de humanidade. Diante disso, temos duas opções. Recostarmo-nos no conforto de nossos lares burgueses, cercados de todos os privilégios de que gozamos, em maior ou menor escala, esperando “tudo isso” passar para “voltar ao normal” e aguardar a próxima pandemia, ou assumirmos coletivamente que falhamos e partirmos juntos em busca de novas perspectivas que nos permitam, mesmo que a longo prazo, começar a imaginar outros mundos. Não podemos “voltar ao normal” pois o “normal” foi justamente o que nos trouxe até aqui. É o que, profeticamente, nos alerta uma pixação anônima grafada num muro, em alguma cidade do Japão.

Leia a primeira parte deste texto.

Leia a segunda parte deste texto.

Leia a terceira parte deste texto.

Leia a quarta parte deste texto.

Bibliografia

ACOSTA, Alberto. O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. 4ª reimpressão. São Paulo: Autonomia Literária, Elefante, 2016. 

GOMES, Wilson. Jornalismo, fatos e interesses: ensaios de teoria do jornalismo. Série Jornalismo a Rigor. V. 1. Florianópolis: Insular, 2009.

HAN, Byung-Chul. Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2017. 

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017. 

SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos estud. – CEBRAP. n. 79. São Paulo. nov. 2007. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002007000300004#back2. Acesso em: 20 abr. 2020.

SILVA, Carlos Eduardo Lins da. Morte e vida da imprensa. Revista de Jornalismo da ESPM. Edição Brasileira da Columbia Journalism Review. n. 19. São Paulo. jan/ jun. 2017.

 

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Clara Caldeira
Quatro anos e meio à frente do conteúdo do Hypeness, após atuar por seis anos como editora no Catraca Livre, Clara Caldeira é jornalista com 15 anos de experiência em cultura, comportamento, cidadania, tendências e pesquisadora em comunicação, gênero, corpo e meio ambiente. Já participou de projetos de reportagens, documentários, branded content e formações diversas com ONGs, assessorias culturais e publicações digitais variadas.

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