Debate

Desespero emocional por quarentena aumentou em abril e se agrava com ‘síndrome do palhaço’

Yuri Ferreira - 24/06/2020 | Atualizada em - 02/07/2020

isolamento social no Brasil parece ter acabado para boa parte da população. A difícil situação psicológica de quem se mantém em casa sem ver os amigos, mesmo após 100 dias de quarentena, é evidente. A saúde mental de muita gente piorou durante o período, e os dados não mentem. Os mais de 50 mil mortes e 1 milhão de infectados pelo novo coronavírus no país são um bom motivo para se manter em casa, mesmo com a reabertura de grandes capitais como São Paulo e Rio de Janeiro.

– Fotos de entregadores em quarentena italiana para refletir sobre racismo e colonização

Uma reportagem do El País Brasil relatou que mesmo os mais afincos defensores do isolamento social estão enfrentando dificuldades psicológicas em se manter em casa. Com a reabertura e as redes sociais cheias de festas, visitas à praia e a quebra do isolamento social pública, existe o crescimento de uma ‘síndrome de palhaço’, sentida por quem ainda está em casa se protegendo do vírus.

Manter o isolamento social durante a reabertura é difícil, mas importante; tendência de crescimento no número de casos está se confirmando e se proteger nesse momento é essencial

Dá uma olhada só em como a galera está se sentindo no Twitter.

Até mesmo quem está se sentindo com muito medo do vírus pode acabar compelido a ‘furar a quarentena‘ por pressão social e desconforto psicológico. “Nosso sistema faz esforços para nos adaptar a situações novas e indesejadas, de privação. Mas, quando somos obrigados a fazer isso por muito tempo, esse mecanismo entra em falência e não conseguimos mais racionalizar”, explicou Ricardo Sebastiani, especialista em psicologia clínica e saúde pública ao EL País.

A doutoranda em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações da Universidade de Brasília (UnB), Jessica Farias, fez uma pesquisa entre abril e março com 2.056 pessoas de 25 estados para compreender o comportamento das pessoas em relação a quarentena e a descoberta foi que os desempregados eram os que mais desejavam violar a quarentena. Por que? A necessidade de tentar trazer alguma renda e não passar fome, tendo em vista que o auxílio de R$ 600 do Governo Federal não cumpre as necessidades básicas e ainda veio atrasado, foi o principal motivo para furar a quarentena.

No Twitter, a onda de ‘cancelamentos‘ contra quem anda furando a quarentena tem vindo aos montes. A tentativa de culpabilizar as pessoas por não manterem o isolamento social é uma maneira de tentar valorizar a norma de segurança pública, mas isso não parece muito efetivo frente aos constantes incentivos do Governo Federal e de alguns estados e municípios para que o isolamento social acabe, mesmo quando o Brasil figura como pior quadro mundial do novo coronavírus.

Tudo isso é muito estressante. São cem dias de privações e medo, durante os quais recebemos muitos estímulos negativos e poucos estímulos positivos. Fomos privados até dos pequenos prazeres do dia a dia, como tomar café com um amigo. Tudo isso faz com que a situação se torne insuportável em algum momento e passa a ser uma questão de o quanto vale a pena detonar a saúde mental para preservar a saúde física”, completou Sebastiani ao El País.

Um dos casos mais claros disso foi evidenciada na cantora Jojo Toddynho: ela perdeu sua mãe por causa da covid-19 e, semanas depois, furou a quarentena para cantar em uma festa particular. Depois de ser criticada de maneira acintosa nas redes sociais, falou que suas crises de ansiedade eram constantes dentro do isolamento social: “A crise de ansiedade… as pessoas me veem rindo, espairecendo a mente, mas é porque preciso. Vocês não têm noção. Do nada, o coração dispara. Quando acontece isso comigo, sento e começo a ter tontura. Então sento, vou contando até cem. Devagarzinho. Vai passando e melhorando. É uma loucura”, afirmou em suas redes sociais.

Apesar  de tudo isso, precisamos reiterar que é importante ficar em casa. E não, você não é um palhaço ou um otário por estar se protegendo do vírus. As previsões quanto ao vírus mostram que, em agosto, 5 mil mortes por dia podem se acumular no nosso país. Mas é importante ter força psicológica, e se preciso, procure ajuda profissional.

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Fotos: © Getty Images


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness.

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