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Entenda origem de símbolo usado por neonazista exibido pela extrema-direita em protesto em SP

por: Yuri Ferreira

Durante as manifestações pró-Jair Bolsonaro nos últimos dois domingos, uma bandeira vermelha e preta com símbolos de origem ucraniana causou muitas polêmicas nas redes sociais. Enquanto alguns afirmavam que se tratava de um símbolo neo-nazista, outros defenderam que se trava de um símbolo histórico da Ucrânia. Até o embaixador da ucraniano veio à público esclarecer a questão.

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Antes de tudo, é importante mostrar a bandeira, essa aqui:

Os escritos na bandeira significam Praviy Sector, organização de extrema direita nacionalista ucraniana

Aqui a utilização do símbolo nas manifestações pró-Bolsonaro:

Nesse vídeo, podemos ver manifestantes pró-governo intimidando um anti-fascista durante as manifestações. O homem que porta a bandeira está no meio da confusão:

Por que a bandeira pode ser chamada de neonazista? 

O símbolo e a bandeira utilizados nas manifestações são utilizadas pelo grupo chamado de Praviy Sektor, uma organização fascista ucraniana. Após a insurgência dos conflitos entre a Rússia e a Ucrânia pela anexação da Crimeia e a corrente Guerra Civil na Região do Donbass, no sudeste ucraniano, diversos grupos neonazistas anti-Rússia emergiram na realidade política do leste-europeu.

O Praviy Sector é um grupo que não se denomina neonazista. Seu legado, porém, é justamente o contrário: O grupo surgiu da união entre as seguintes facções: Patriotas da Ucrânia, Assembleia Nacional-Socialista da Ucrânia, Tridente, Martelo Branco, UNA-UNSO e o Sich Carpatiano. Todas essas organizações defendiam supremacia branca e nacionalismo ucraniano anti-imigração.

A reunião das facções neo-nazis ganhou suas cores vermelhas e pretas porque se considera a portadora do legado do Exército de Insurgência Ucraniano. O EIU foi uma força que lutou durante a Segunda Guerra a favor do Eixo, ou seja, junto do Exército Nazista. Isso mesmo que você leu: eles se consideram a continuação do legado do Eixo de Mussolini e Hitler na Ucrânia.

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Antes, era uma milícia paramilitar que operou no Euromaidan. Hoje, já como um partido – que recebeu 2,15% dos votos na última eleição para o parlamento ucraniano, se considera um continuista do legado de Stepan Bandera, maior entusiasta do pensamento nazi-fascista na Ucrânia.

Por que a bandeira não pode ser chamada de neonazista? 

O tridente exibido entre as faixas preta e vermelha é um símbolo nacional ucraniano, criado pelo príncipe Vladimir, nos idos do segundo milênio. O tridente é utilizado por diversas organizações de orientação nacionalismo na Ucrânia. Vale ressaltar que o nacionalismo ucraniano não é somente uma posição anti-imigração, mas também anti-Rússia e anti-União Europeia.

Em nota em resposta à revista Veja, Rostyslav Tronenko, Embaixador da Ucrânia no Brasil, explicou a origem do símbolo:

“Gostaria de informar que para milhões de ucranianos, tanto na Ucrânia como até mesmo no Brasil a bandeira rubro-negra simboliza a nossa terra e o sangue de nossos heróis derramado por Liberdade, Independência e Soberania da Ucrânia. Essa bandeira foi usada desde o século XVI pelos cossacos ucranianos nas lutas contra invasores estrangeiros, e por isso durante o século passado e no começo do século XXI virou o símbolo de luta dos ucranianos contra ocupação, chovinismo e imperialismo russos. O tridente, é o brasão oficial do nosso estado desde época do Príncipe Volodymyr, que levou o Cristianismo para Rus de Kyiv no ano 988, e simboliza a Santíssima Trindade”, afirma o diplomata.

Tronenko ainda afirma que a Ucrânia proibiu a existência de símbolos associados ao socialismo e ao nazismo em lei a partir de 2015. Entretanto, o estado Ucraniano ainda permite a manifestação do Banderismo.

Por que usar essa bandeira em uma manifestação, em tese, nacionalista brasileira?

Por que usar uma bandeira de outro país em uma manifestação de cunho nacionalista brasileiro? O que os parlamentares pró-fechamento do STF indicam quando desejam ‘Ucranizar o Brasil‘? Será realmente que essa é uma homenagem a um príncipe de uma nação do leste-europeu ou uma aproximação dos setores mais extremistas brasileiros com uma organização paramilitar neonazista?

É claro que o dono da bandeira, o instrutor de segurança Alex Silva, 46, disse que se trata de uma homenagem ao país e não uma associação ao Praviy Sektor. Ao menos é o que ele afirmou ao blog ‘Saída pela Direita‘, da Folha de São Paulo. Ah, é, vale dizer que ele instruiu organizações paramilitares ucranianas.

Já o Kremlin não leu a bandeira como uma homenagem à Ucrânia. O Praviy Sektor é considerado uma organização criminosa e neonazista pelo governo russo. Segundo apuração da Folha de São Paulo, Putin não gostou do uso da bandeira nas manifestações pró-Bolsonaro. E isso pode causar um distanciamento nas relações do Brasil com Rússia.

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Fotos: Wikimedia Commons


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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