Debate

George Floyd: o missionário cristão morto por um policial branco e que perdeu o emprego na pandemia

por: Kauê Vieira

O assassinato de George Floyd, asfixiado pelo joelho do policial branco Derek Chauvin, provocou fúria na comunidade negra dos Estados Unidos diante de mais um caso que encontra explicação no ódio que sustenta o racismo. Eu não consigo respirar…quero minha mãe”, estas foram as últimas palavras de um homem morto diante das câmeras e o sadismo de um policial racista. 

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Floyd, na versão dos policiais, foi detido por tentar supostamente tentar trocar uma nota falsa de 20 dólares em uma loja da cidade de Minneapolis. O suposto crime, que sequer foi provado, poderia ter tido uma solução menos trágica, afinal o homem de 46 anos não causou nenhuma situação de violência. Os policiais, no entanto, fazendo uso do argumento mentiroso de que ele teria resistido a prisão, preferiram tratar um caso minoritário com força excessiva. O resultado: George Floyd está morto e o racismo mais vivo do que nunca. 

George Floyd segurando uma bíblia. Ele atuou como missionário no Texas

Desempregado no meio da pandemia

A morte de George Floyd expõe um assunto que você já viu aqui no Hypeness: a pandemia do novo coronavírus atingiu em cheio populações negras ao redor do mundo. Resultado, claro, de anos e anos de construção de uma sociedade que se sustenta e se alimenta do sangue de pessoas negras assassinadas todos os dias. 

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Floyd trabalhava como segurança em um restaurante de Minneapolis e foi demitido por causa das ordens de isolamento social para impedir a disseminação da covid-19. A doença matou ao menos 107 mil pessoas nos Estados Unidos até o fechamento desta matéria. Em 9 semanas, os EUA registraram 39 milhões de desempregados e segundo o Ministério do Trabalho norte-americano, 16.7% dos afro-americanos e 18.9% dos latinos estão sem trabalho. Recorde histórico.

Memorial que homenageia a memória de Goerge Floyd

Antes do caos provocado pela pandemia, que se agravou com inabilidade e falta de sensibilidade de líderes como Donald Trump e Jair Bolsonaro – que desdenharam e chamaram o vírus que matou milhares de pessoas de uma gripe com efeitos menores – Floyd levava uma vida normal. Ele, inclusive, chegou a fazer parte de um ministério cristão em Houston, no Texas, em 2018. 

Durante o período que precedeu sua mudança para Minneapolis, George auxiliava a comunidade negra da cidade texana. Pessoas que trabalham no ministério dizem que George Floyd planejava retornar ao Texas no verão. 

“George Floyd era uma pessoa pacífica enviada pelo senhor para ajudar a comunidade gospel em seu desenvolvimento”, declarou ao Christianity Daily o pastor Patrick PT Ngwolo ao falar sobre o ‘gigante gentil’, apelido carinhoso dado ao homem de 2 metros de altura.

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Derek Chauvin, o policial que assassinou George Floyd

George Floyd participou também de trabalhos comunitários de incentivo ao esporte, o basquete em especial. A família diz que ele se mudou para Minnesota em busca de uma vida melhor. Eles querem Justiça e que Floyd seja lembrado como uma pessoa amorosa. 

“Conhecer meu irmão significava amá-lo”, declarou à CNN Philonise Floyd, irmão de George. “Ele era um gigante gentil. Nunca machucou ninguém”. 

Derek Chauvin foi demitido da polícia e indiciado por homicídio culposo apenas quando os protestos pedindo Justiça pela memória de George Floyd explodiram nos Estados Unidos e em outros países do mundo. O presidente Donald Trump protagonizou uma série de posturas desrespeitosas, ameaçou dar tiros nos manifestantes e na segunda-feira (1), caminhou até a igreja de St. Paul, próxima da Casa Branca em uma cena vista como provocativa e que se coloca como um ato político do republicano que diferente de Floyd, não possui histórico religioso. 

Protestos pela morte de George Floyd explodiram nos EUA

Protestos pela morte de George Floyd explodiram nos EUA

Para fechar, fiquemos com o brilhantismo de Spike Lee, que mais uma vez, utilizou a arte para denunciar o genocídio negro. O norte-americano vencedor do ‘Oscar’ por ‘Infiltrado na Klan’  lançou na última segunda-feira (1) um curta-metragem denunciando a violência policial, que desta vez tirou a vida de George Floyd. O trabalho usa cenas do clássico ‘Faça a coisa Certa‘, de 1989. 

Em pouco mais de 1 minuto, Lee condensa cenas do assassinato de Eric Garner, morto por asfixia em Nova York no que deu origem ao movimento ‘Vidas Negras Importam’,  o assassinato de George Floyd e a cena do filme que mostra o homicídio do personagem Radio Raheem. Em comum? Os três, na vida real e no cinema, tiveram suas vidas interrompidas pela polícia e o racismo que sustenta a corporação.

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Fotos: foto 1: Reprodução/foto 2: Getty Images/foto 3: Getty Images/foto 3: Getty Images/foto 4: Getty Images


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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