Debate

Homem negro precisa estar com cão e filhas para se sentir em segurança em seu bairro, nos EUA

por: Vitor Paiva

Ninguém deveria de forma alguma ter liberdade tão essencial quanto a de caminhar por seu próprio bairro cerceada pelo medo, mas essa é a realidade de muita gente em todo o mundo – incluindo a população negra, e mesmo homens fortes, de porte atlético e origem negra têm relatado o medo de serem postos em situação conduzida à violência, à prisão, à violência policial ou mesmo à morte por conta do racismo. É o caso do autor Shola Richards que, no contexto das revoltas em todo o mundo por conta do assassinato pela polícia de George Floyd, foi ao Facebook para relatar seu pavor de simplesmente passear com seu cachorro em seu bairro.

Richards com seu cachorro Ace © Facebook

“Duas vezes por dia eu saio pra passear com meu cão Ace pelo meu bairro, e levo uma ou minhas duas filhas comigo. Eu sei que isso não parece digno de nota, mas há algo que preciso admitir: eu estaria apavorado de dar esses passeios sem meu cachorro ou minhas garotas”, escreveu Richards, lembrando que, nos quatro anos em que já mora em sua casa, em Los Angeles, jamais saiu sozinho para um passeio – e que provavelmente jamais sairá. “Quando eu estou caminhando segurando a mão de minha jovem filha e passeando com meu cachorro felpudo, eu sou somente um pai amoroso e tutor de um pet dando um intervalo na difícil tarefa da escola em casa”, disse, sobre o atual contexto da pandemia. “Mas, sem eles, eu imediatamente me transformo em uma ameaça aos olhos de algumas pessoas brancas”.

Twice a day, I walk my dog Ace around my neighborhood with one, or both, of my girls. I know that doesn’t seem…

Posted by Shola MRichards on Thursday, May 28, 2020

Os casos mais públicos e recentes de racismo e violência – além do assassinato de Floyd a situação de racismo envolvendo Amy Cooper e Christian Cooper no Central Park, em Nova Iorque – deixaram, segundo conta, Richards ainda mais amedrontado. “Infelizmente, só o que muita gente consegue ver é um homem negro de porte atlético e 1,88 metro com uma máscara caminhando em um lugar ao qual não pertence”. Em seguida, Richards divide alguns pontos que considera importantes como “senso comum”.

Richards com sua esposa e suas duas filhas © Facebook

“Privilégio branco não significa que sua vida não é difícil, somente que a cor da sua pele não é uma das coisas contribuindo para essas dificuldades”, escreveu. E seguiu: “Responder ao ‘Vidas negras importam’ dizendo que ‘Todas as vidas importam é insensível e bobo. Todas as vidas não importam enquanto as vidas negras não importarem. (…) Racismo é bem real, e não se limita aos seguidores do Trump (…) ele prevalece na América liberal como em qualquer lugar. (….) Enquanto o racismo é real, o racismo reverso não é. Por favor, não use esse termo nunca”, afirmou, concluindo que seguirá “passeando segurando nas mãos da minha filha de 8 anos, na esperança que ela continue a manter seu papai seguro”.

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© fotos: Facebook


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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