Debate

Luisa Mell diz que ‘toda a vida importa’ e nós explicamos como a frase atrapalha a luta contra o racismo

por: Karol Gomes

Em meio aos protestos antirracismo em todo o mundo, motivados pelo assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, Luisa Mell foi criticada nas redes sociais por uma postagem na página de sua loja no Instagram com a frase ‘Toda Vida Importa‘, que faz parte da nova campanha de seu instituto em prol dos animais.

A ativista foi criticada por usar uma frase que relativiza o movimento Black Lives Matter’ (ou vidas negras importam), que tem o objetivo de conscientizar sobre o genocídio da população negra, que acontece de maneiras diferentes pelo mundo, mas sempre motivado pelo racismo.

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O nome da ativista foi parar nos trending topics do Twitter. Em entrevista para a UOL, Luisa demonstrou revolta ao saber das críticas e explicou que havia pedido para a empresa responsável por gerenciar a página de sua loja segurasse o post para evitar problemas com o movimento negro e que não sabia da publicação, porque o perfil da loja na rede social foi hackeado ontem.

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Luisa ressaltou ainda que a sua campanha com a frase ‘Toda Vida Importa‘ foi lançada no início do ano, ou seja, meses antes dos protestos antirracistas ganharem força.

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Cada vida importa. Foi sempre isto que motivou meu trabalho e minha vida. Toquinho foi atropelado por um trem. Ficou horas e horas sem receber qlq socorro. Para minha indignação recebi a denúncia que os funcionários da @cptm_oficial ainda riam de sua dor. Muitas pessoas queriam salvá-lo, mas eram impedidos pelo órgão. Qd eu soube, comecei a postar avisando que eu estava a caminho. Tive que ouvir de alguns “ Para que tanto alvoroço, pois ele ia ser sacrificado mesmo.” Mas nosso lema no @institutoluisamell é justamente lutar por cada vida! Infelizmente muitos humanos ainda n entenderam que cada vida é sagrada. E todo e qlq esforço dever ser feito para salvar cada uma. Mas para minha sorte e a do Toquinho n sou a única que penso assim. Aqui formamos uma corrente do bem capaz de fazer verdadeiros milagres. E Toquinho é a prova que estamos no caminho certo. Depois de meses e meses de tratamento e dedicação de nossos veterinários, enfermeiros, fisioterapeutas e graças a vcs que nos ajudam… olhem a felicidade do Toquinho! E nosso anjo da vez apareceu para realmente dar o final feliz para esta história. Ele foi #adotado e vive feliz com a Regiane❤️ Todos nós juntos, conseguimos transformar uma tragédia em uma história de superação e amor. Sei que é um momento difícil para todos. Mas cabe a cada um de nós injetar mais amor e solidariedade no mundo. Peço que nos ajudem a continuar lutando pela vida! E que nossa corrente do bem fique ainda mais forte! Conto c vcs para prosseguirmos!❤️❤️

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“Quem foi a primeira pessoa que escreveu para as pessoas não ficarem em cima do muro fui eu. Depois todo mundo copiou o meu post. Chega a ser vergonhoso. Eu sempre me posiciono. Só porque eu acho que a vida dos animais importa, a dos negros importa menos? Nada a ver. Muito pelo contrário. Eu respeito toda forma de vida”, justifica.

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Mas nada disso explica porque Luisa quis fabricar uma camiseta com tal frase, considerada ofensiva por movimentos negros. Já foi explicado mais de uma vez, mas vale a pena lembrar: dizer que “vidas negras importam” não é o mesmo que dizer que “somente vidas negras importam” ou que “toda das vidas não são importantes”.

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A ideia é justamente explicar que vidas negras são tão importantes quanto às outras e apenas o fato de isso ser tão contestado, já diz muito sobre a dificuldade que pessoas brancas têm de reconhecer privilégios e se inserir na luta antirracismo.

Empresários negros importam:

Enquanto a empresa de Luisa Mell lucra dizendo que “todas as vidas importam”, a população negra é o grupo que mais abre novos negócios no Brasil, mas é também é o grupo que menos fatura.

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De acordo com o Global Entrepreneurship Monitor de 2017, pesquisa realizada em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), negros correspondem a 51% dos empresários do país, porém formam apenas 1% daqueles que ganham de R$ 60 mil a R$ 360 mil e totalizam 60% dos empreendedores que não lucram nada.

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Foto: Reprodução / Instagram


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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