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Mãe de Demétrio Campos fala como a alegria de viver do filho foi abreviada pelo racismo e transfobia

por: Karol Gomes

Demétrio Campos Santos já nasceu diferente, relata a mãe, Ivoni Conceição Campos Santos. “Ele era eufórico, chorava muito”, lembra ela em entrevista exclusiva ao Hypeness. Aos cinco anos, começou a se interessar por ‘coisas de menino‘ e, aos 16, se autoceclarou como um homem trans. Mas, não era isso que o definia como ‘diferente‘, segundo Ivoni. 

Demétrio era diferente porque sentia demais. Sentia por ele mesmo e sentia pelos outros, pelo mundo. “Ele odiava injustiça e preconceito. Não podia ver ninguém passando por dificuldades que queria ajudar. Se fosse preciso, tirava o casaco do próprio corpo e dava para quem estivesse precisando”, conta Ivoni. 

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Para a mãe, foi a perspectiva de viver como um homem negro e trans em uma sociedade que retrocede a cada dia que levou o filho a cometer suicídio no último dia 17 de maio, ironicamente a data em que se celebra o Dia Internacional de Combate à LGBTfobiaA morte do jovem carioca comoveu toda a comunidade LGBTQ+ e trouxe à tona discussões sobre o racismo, a transfobia e a depressão vivida pela comunidade.

Demétrio era diferente porque sentia demais

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Racismo e LGBTfobia geram depressão 

Focada em atendimento de pessoas negras e periféricas, a psicóloga Bárbara Oliveira Pina explica ao Hypeness que o racismo e a LGBTfobia podem favorecer o aparecimento de sintomas depressivos em pessoas que sofram com esse tipo de violência cotidianamente. 

“Nós estamos falando de sofrimentos que promovem a exclusão social, a exposição a atos vexaminosos,  à violência física, psíquica. Além disso, são grupos mais vulneráveis socialmente no que diz respeito ao acesso à saúde, a atendimento médico, educação, lazer”,  justifica a especialista. 

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Bárbara argumenta ainda que a exposição a todos esses fatores, principalmente por um longo período da vida, pode trazer sérias consequências para essa pessoa. “Se não a depressão propriamente dita, a dificuldade em se relacionar, dificuldade com o auto cuidado, auto imagem negativa, falta de perspectiva e objetivos na vida”. E estas eram exatamente as batalhas que Demétrio enfrentou ao longo da vida. 

A busca por pertencimento

Ao contrário de boa parte da população LGBT no Brasil, Demétrio sempre pôde contar com o apoio da família. Realidade diferente da maioria. Para se ter ideia, somente em São Paulo, a maior cidade do país, entre 5,3% e 8,9% do total da população em situação de rua pertencem à comunidade LGBT, como apontou o censo divulgado pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) da prefeitura. A pesquisa afirmou ainda que, maioria das vezes, este grupo está na rua por causa da rejeição e LGBTfobia da família, que expulsa os filhos de casa depois de se ‘assumirem’

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Este cenário é o oposto do que aconteceu na casa de Demétrio. “Eu não tive uma vida”, conta Ivoni. “Tranquei a faculdade e não tive direito de escolher um futuro. Tudo o que eu não consegui pra mim, eu quis pros meus filhos”

Ele e a família sempre dependeram do Sistema Único de Saúde (SUS) e Demétrio foi bem assistido para o seu tratamento hormonal com médicos endocrinologistas no sistema. Mas os pais, que sempre o acompanhavam nas consultas, nunca tiveram sucesso na procura de um psicólogo no Centro de Assistência Psicossocial (CAPS) de Cabo Frio. “Ele pedia uma psicóloga preta, mas o máximo que conseguimos foi agendar com um psiquiatra, que receitou muitos remédios. Ele vivia dopado e às vezes até passava mal”, lembra Ivoni.  

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De acordo com Bárbara, as populações negras e LGBT precisam de atendimento especializado e que convocam o profissional a ter um olhar diferenciado para suas vivências.

Por muito tempo a psicologia se ocupou de entender os conflitos internos dessa pessoa, as tramas desse sofrimento sempre estiveram muito atreladas ao funcionamento familiar, e hoje a gente tem construído uma psicologia com uma forte crítica social também, entendendo que o sujeito está no mundo e afeta e é afetado por ele, não tem sentido que a nossa leitura seja reduzida.

Ivoni ressalta ainda que o Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo – segundo dados da Rede TransBrasil e do Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2016 foram um total de 144 mortes. Entre outubro de 2015 e setembro de 2016, o número foi de 123, o que colocou o Brasil em primeiro lugar na escala, seguido apenas pelo México. “Esse fato com certeza afeta a forma como as pessoas desta comunidade vivem no Brasil”, explica. 

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Já a questão de raça, embora tenha ganhado mais destaque, ainda é considerada ‘mania de perseguição‘ por muitos psicólogos não especializados, aponta Bárbara. “A maioria dos pacientes que me trazem esses relatos de outras consultas, na verdade está passando por situações de racismo, ou seja, a pessoa é violentada uma segunda vez quando não tem o seu sofrimento legitimado”, argumenta.  

O apoio psicológico para Demétrio veio depois de muita insistência de amigos, que o ajudaram a conseguir consultas gratuitas depois de uma primeira tentativa de suicídio. Segundo Ivoni, Letícia, irmã de Demétrio, precisou usar seus conhecimentos de enfermagem para salvá-lo em casa, pois não haviam ambulâncias disponíveis para a região Tamoios, região periférica de Cabo Frio, onde morou com a família. 

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Artista de múltiplos talentos – pintor, dançarino, produtor e modelo – Demétrio decidiu dar a volta por cima e se mudou para São Paulo em busca de aceitação e pertencimento. 

“Passei anos ao lado dele vendo-o comprar brigas por seus direitos. E quando ele não tinha forças para lutar, era eu que levantava por ele”, lembra Ivoni. “Fosse na escola, no supermercado, na fila do banco, no consultório médico… Sempre soubemos, eu e ele, que aqui em Tamoios não era o lugar dele. Ele achava que em São Paulo, se encontraria”, relata. 

Demétrio e a mãe, Ivoni / Foto: Arquivo Pessoal

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A capital paulista também não foi gentil com Demétrio. Ivoni conta das muitas vezes que o filho ligou decepcionado após ter sido discriminado em castings de agências que sempre preferiam pessoas brancas para seus comerciais ou fotos. Nas ruas, a violência o mantinha em alerta – ele chegou a ser espancado em uma blitz policial. 

Logo Ivoni se viu correndo para São Paulo para resgatar o Demétrio após uma segunda tentativa de suicídio. “Era o começo da quarentena por causa do coronavírus, então eu o trouxe de volta para o Rio, para passar esse período com a gente. Passamos a dormir com as portas abertas aqui em casa, sempre vigiando”, conta. 

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A busca por amparo

Sempre que não conseguiu contar com o sistema, Demétrio pôde contar com os amigos e a família. E o mesmo aconteceu após a sua morte. Mais uma vez sem poder contar com uma ambulância, a família, incluindo o irmão mais novo, precisaram trabalhar juntos para remover seu corpo do banheiro, onde foi encontrado. “Lucas precisou entrar pelo vitrô e dar de cara com o corpo do irmão para poder abrir a porta por dentro e assim tirarmos Demétrio de lá”, relembra Ivoni, emocionada. 

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Segundo a mãe, uma vaquinha organizada pelos amigos de Demétrio ajudou a retirar o corpo dele do IML (Instituto Médico Legal de Macaé), que tem acumulado trabalho de outras regiões em tempos de pandemia. “Tivemos que pagar uma funerária particular, se não meu filho ficaria lá por dias”

A mesma vaquinha tem ajudado a família de Ivoni a pagarem as contas por alguns meses. Ela manicure e o marido motorista, ambos estão sem novas demandas por causa da quarentena para contcer o avanço da covid-19. Ivoni também se preocupa com a saúde mental de todos após a perda de Demétrio, já que também não possui condições de pagar por tratamento particular para todos. 

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Ela, no entanto, conta que Demétrio deixou nela uma faísca pela busca por justiça e conscientização da sociedade contra o racismo e a LGBTfobia. Tudo isso traduzido na arte do filho.“Ele deixou fotos e quadros que penso em expor algum dia. Já até recebi propostas. Pode até ser que estão querendo ouvir o Demétrio depois que ele se foi. Mas sei que a arte dele vai ajudar muitos como ele”, conclui Ivoni. 

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Fotos: Arquivo Pessoal


Karol Gomes
Karol Gomes é jornalista e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Há cinco anos, escreve sobre e para mulheres com um recorte racial, tendo passado por veículos como MdeMulher, Modefica, Finanças Femininas e Think Olga. Hoje, dirige o projeto jornalístico Entreviste um Negro e a agência Mandê, apoiando veículos de comunicação e empresas que querem se comunicar de maneira inclusiva.

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