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Miguel e João Pedro: a morte pelo racismo que você, branco, finge não ver

por: Kauê Vieira

O Brasil, mais uma vez, teve outro capítulo de sua história marcada pela escravidão que insiste em empilhar corpos de negros aos montes. Desta vez, o pequeno Miguel, um jovem pretinho de 5 anos, teve a vida precocemente encerrada pelo racismo de uma senhora branca. Sarí Côrtes Real, moradora de uma área de luxo da capital Pernambucana Recife, parece não ter suportado o ‘fardo’ de manter calmo um rapazinho que estava longe de sua mãe. 

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Mirtes é empregada doméstica. A profissão era dominada, segundo dados de 2015 da Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) ligado ao Ministério do Planejamento e a ONU Mulheres, braço das Nações Unidas, por 3,7 milhões de mulheres negras brasileiras. Mirtes estava passeando com o cachorro da patroa e deixou seu filho aos cuidados de Sarí, que fazia a unha. Sim, a mulher do prefeito de Tamandaré estava com duas pessoas dentro de sua casa durante uma pandemia que matou, em sua maioria, pessoas negras e pobres em solo brasileiro. 

Miguel tinha 5 anos

Mirtes, como muitas mães negras brasileiras, não teve escolha. Talvez pelo fechamento das escolas para impedir o avanço da covid-19, se viu obrigada a levar o filho ao trabalho. Na manhã de sexta-feira (5), disse no programa de Fátima Bernardes que confiou seu filho aos cuidados da patroa. Bastava que Sarí tivesse a paciência de acalmar um menino com medo de estar em um ambiente estranho, com pessoas estranhas e longe de sua mãe, que repito, estava passeando com o cachorro na rua. Rua esta que aumenta e muito as chances de contração do vírus. 

“Ela confiava os filhos dela a mim e a minha mãe. No momento em que confiei meu filho a ela, infelizmente ela não teve paciência para cuidar, para tirar [do elevador]. Eu sei, eu não nego para ninguém: meu filho era uma criança um pouco teimosa, queria ser dono de si e tudo mais. Mas assim, é criança. Era criança”, disse Mirtes, que perdeu seu filho único, ao G1. 

Não é paciência, doce Mirtes, é racismo. O coração de pessoas negras como eu e de quem ainda tem um pouco de humanidade chora. Como segurar a saúde mental em uma realidade em que nem a pandemia é capaz de impedir a morte de pessoas pretas? O El País mostrou que desde o início da quarentena, 290 pessoas morreram durante ações da polícia em comunidades e bairros com baixa concentração de renda do Rio de Janeiro

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As estatísticas não incluem o assassinato bárbaro de João Pedro, um jovem negro de 14 anos que teve a casa e o corpo atingidos por mais de 70 balas de fuzil durante operação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. O garoto estava, como manda o figurino, dentro de sua residência com os amigos. Nem isso o livrou da bala que sempre se aloja em um corpo de negro. Como se não bastasse, João foi levado por militares de helicóptero para uma base policial. Seu corpo ficou desaparecido por horas e a família teve que se dividir entre pedidos de ajuda no Twitter e rondas no Instituto Médico Legal (IML) de São Gonçalo, onde encontraram o corpo. 

Miguel queria encontrar a mãe, que passeava com os cachorros da patroa

O aumento de assassinatos não é exclusividade do Rio de Janeiro. Em São Paulo, maior e mais rica cidade brasileira, 255 mortes foram registradas entre janeiro e março, alta de 23% em relação o mesmo período do ano passado, diz a Secretaria de Segurança Pública. 

E o Miguel? 

A jornalista Flávia Oliveira, que agora é uma das novas comentaristas do programa ‘Em Pauta’, da GloboNews, após mais um escândalo da falta de representatividade negra na TV, foi certeira ao opinar sobre a morte de Miguel. Ela, que é filha de empregada doméstica, citou o fato de ter apenas uma única filha para falar da dor que Mirtes está sentido com a ausência de seu único rebento. Flávia lembrou ainda que um terço das empregadas domésticas do Brasil são negras. O país possui a maior população de trabalhadoras domésticas do mundo. São três domésticas para cada grupo de 100 mil habitantes, diz a Organização Mundial do Trabalho. 

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Sarí Côrtes pagou 20 mil reais de fiança

O show de racismo tem mais um capítulo doloroso. O caminho traçado pela pandemia do novo coronavírus, que matou até aqui mais de 30 mil brasileiros, começa justamente com a perda da vida de uma empregada doméstica negra. A mulher, que não teve a identidade revelada pela família para evitar retaliações, tinha 63 anos (estava no grupo de alto risco) e nem o fato de trabalhar para a mesma família há 10 anos fez com que seus patrões se sensibilizassem e a mantivessem dentro de casa. 

Pior, ela percorria 120 km por semana no trajeto entre sua casa no bairro de classe baixa de Miguel Pereira, até o apartamento no Alto Leblon, que é dono do metro quadrado mais valorizado do Brasil. Quando começou a passar mal, a patroa logo ligou para a família pedindo que alguém fosse buscá-la. Um taxista fez o serviço. Ela foi internada e acabou falecendo no dia 17 de março. 

“Estamos muito atordoados, mas precisamos conscientizar as pessoas da gravidade [da doença]. Quem voltou de viagem da Europa e apresentou os sintomas não deve ter contato com outras pessoas. O isolamento podia ter evitado essa morte”, relatou ao UOL a cunhada da mulher vítima da covid-19. 

Como de praxe, nada aconteceu e as mesmas pessoas tiveram suas vidas e psicológico afetados para sempre. A vida seguiu. Agora, três meses depois, outra empregada doméstica chora a dor da perda de seu filho. Sarí Côrtes Real chegou a ser presa, mas usando todo o privilégio do mundo, pagou fiança de 20 mil reais e vai responder ao processo em liberdade. A polícia, se escorando em um trecho da lei que autoriza a não divulgação do nome da acusada, tentou manter a identidade de Sarí oculta a todo custo. Não conseguiu. Seu nome e rosto estão aí para todos verem. O que importa? 

Mirtes, que sabe muito bem o que é ser mulher, preta e pobre nesse país, questionou o que aconteceria se fosse ela a responsável pela morte do filho da patroa, embora você saiba a resposta. 

“Se fosse eu, meu rosto estaria estampado, como já vi vários casos na TV. Meu nome estaria estampado e meu rosto estaria em todas as mídias. Mas o dela não pode estar na mídia, não pode ser divulgado”. 

João Pedro tinha 14 anos

Miguel Otávio Santana da Silva tinha 5 anos e caiu o nono andar do prédio de luxo onde morava Sarí Côrtes. A mulher foi autuada por homicídio culposo. Ela é casada com o prefeito de Tamandaré, Sérgio Hacker. Nas redes sociais, uma campanha pede #JustiçaPorMiguel. 

Enquanto isso, pessoas negras como eu choram mais uma morte de alguém com as mesmas características. Talvez tenha tido sorte de não ter o mesmo destino de Miguel. A insônia e as lágrimas que caem de meus olhos todos os dias são o suficiente para lembrar a inviabilidade de viver a negritude neste país chamado Brasil. Pátria amada? Pra quem? E você, branco, o que vai fazer? Vidas negras importam pra você? Que seja feita Justiça por Miguel.  

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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