Debate

Morte de Miguel, de 5 anos, expõe feridas da escravidão e corrente pede Justiça

por: Yuri Ferreira

A morte de Miguel Otávio, de 5 anos, é um retrato completo do país racista em que vivemos. É a imagem clara das feridas da escravidão que nunca saíram de nossa sociedade. Vamos lá: Mirtes Renata Souza, mãe de Miguel, levou seu filho para o seu trabalho de empregada doméstica na casa de Sarí Corte Real, mulher do prefeito de Tamandaré (PE) e moradora de um condomínio de luxo na capital Recife.

Após a patroa ordenar que a empregada fosse passear com os cachorros enquanto ela fazia as unhas, Miguel foi atrás de sua mãe, que ele viu na parte térrea do condomínio. Ele vai ao elevador e Sari, ao invés de apertar o botão do térreo ou tirar o menino do elevador, não impede a criança, que foi para o 9º andar. Miguel caiu 35 metros até o chão. A mãe viu o corpo de seu filho estirado no pátio.

Mirtes, mãe de Miguel, denuncia a omissão da mídia quanto a principal suspeita da morte de seu filho, Sari Corte Real

A notícia se espalhou na mídia sem constar o nome da patroa, principal suspeita do crime, Sari Corte Real. Em um momento em que as mortes de João Pedro e George Floyd tomaram o debate midiático expondo o racismo no mundo ocidental, a principal suspeita da morte de uma criança negra teve seu nome escondido. Mulher do prefeita e moradora de condomínio de luxo. Sem nome.

– Miguel e João Pedro: a morte pelo racismo que você, branco, finge não ver

 

“Se fosse eu, meu rosto estaria estampado, como já vi vários casos na televisão. Meu nome estaria estampado e meu rosto estaria em todas as mídias. Mas o dela não pode estar na mídia, não pode ser divulgado. Se fosse eu, a essa hora, já estava lá no Bom Pastor (Colônia Penal Feminina), apanhando das presas por ter sido irresponsável com uma criança”, afirmou a mãe de Miguel, Mirtes, ao Globo.

Vale ressaltar ainda que Sari pagou o preço de sua liberdade em fiança de R$20 mil para não ficar em prisão preventiva, mostrando que o preço pelo racismo é consideravelmente baixo perto da vida de Miguel.

– Mãe de Demétrio Campos fala como a alegria de viver do filho foi abreviada pelo racismo e transfobia

“A nossa supremacia branca é assim. Não tivemos leis segregacionistas, como nos Estados Unidos, mas temos o mesmo princípio de que algumas pessoas são mais humanas do que outras”, disse à BBC News Brasil Luciana da Cruz Brito, professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Se a própria existência de empregadas domésticas já é um traço do nosso racismo estrutural: a ideia de que uma casa rica precisa de uma pessoa para cuidar do lar vem da época da escravidão, como aponta  historiadora Bergman de Paula Pereira, da PUC-SP, no artigo ‘De escravas a empregadas domésticas – A dimensão social e o “lugar” das mulheres negras no pós- abolição’.

“Estudar o papel social e as condições de vida da mulher escrava parece fundamental para entendermos a história da escravidão brasileira, a atual situação da mulher negra é fruto de raízes históricas pautada na domesticação dessas mulheres, onde sua principal função era a do cuidado do lar das senhoras. Porque a negra é a babá dos filhos da mulher branca burguesa ou pequeno-burguesa, enquanto seus próprios filhos não existem ou percorrem soltos os morros e as ruas principalmente das grandes cidades?”.

O abaixo-assinado ‘Justiça por Miguel’, no Change.org, já tem a assinatura de mais de 1 milhão e 800 mil pessoas. Nesse momento, uma corrente por justiça pela morte de mais uma criança negra é essencial. Não podemos deixar o racismo impune.

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Fotos: Reprodução/Twitter


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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