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O que levou a Coreia do Norte a explodir o escritório de relações com a Coreia do Sul

por: Vitor Paiva

Em 2018 a relação entre Coréia do Sul e Coréia do Norte parecia atravessar o melhor momento em décadas, ao ponto de ser criado um Escritório de Ligação entre os dois países, justamente na zona desmilitarizada entre as nações vizinhas. Pois se havia dúvidas de que a tal lua de mel entre as duas coréias vinha se aproximando do fim, essa dúvida se dissipou na última terça-feira literalmente como fumaça – depois que a Coréia do Norte explodiu o Escritório que funcionava como uma espécie de embaixada do país. A explosão ocorreu na última terça-feira às 14h50 do horário local, e derrubou os quatro andares do edifício que se encontrava desativado e vazio desde janeiro, por conta da pandemia do novo coronavírus. Além do escritório, um outro prédio de 15 andares, que costumava abrigar autoridades sul-coreanas, desabou parcialmente, igualmente vazio.

Momento da explosão, em foto fornecida pelo governo norte-coreano © Korean Central News Agency/Korea News Service via AP

A tensão entre os dois países vinha escalando nos últimos tempos, por conta principalmente do lançamento de propagandas de grupos dissidentes residentes na Coréia do Sul na direção do território norte-coreano. A retaliação pelo envio das propagandas através de balões de gás começou com o corte de todas as comunicações, civis e militares, entre Norte e Sul.

No último sábado Kim Yo-Jong, irmã do líder norte-coreano Kim Jong-um e aparentemente responsável pelas relações com o sul, já havia ameaçado destruir o escritório, e na terça-feira a promessa foi enfim realizada. “A área relevante da RPDC (República Popular Democrática da Coreia, nome oficial do país) implementou a medida de destruir por completo o escritório conjunto de ligação Norte-Sul na zona industrial de Kaesong, depois de ter cortado todas as linhas de comunicação entre Norte e Sul”, afirmou a mídia estatal.

Kim Yo-Jong, irmã do líder norte-coreano Kim Jong-um © Getty Images

Localizado na cidade fronteiriça de Kaesong, o Escritório de Ligação era uma das grandes conquistas do presidente sul-coreano Moon Jae-in, e a explosão representa não só um revés significativo para seu governo como um perigoso ponto de ebulição nas sensíveis relações entre os dois países. Ainda que a justificativa oficial sejam as propagandas, analistas políticos sugerem que o real motivo da explosão seria para pressionar a Coréia do Sul a fazer mais concessões, econômicas e políticas, para a Coréia do Norte, um dos países mais fechados e que mais sofre sanções internacionais no planeta.

O presidente da Coréia do Sul, Moon Jae-In © Getty Images

Segundo Kim You-geun, conselheiro adjunto de Segurança Nacional da Coreia do Sul, a explosão encerra a expectativa de avanço em uma relação pacífica e harmoniosa entre as duas Coréias. “Esclarecemos que o Norte é totalmente responsável pelas consequências que tudo isso possa gerar”, disse o conselheiro.

Nuvem de fumaça formada pela explosão © AP

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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