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O relacionamento abusivo ao qual você sobreviveu pode salvar outras mulheres; um passo a passo

por: Clara Caldeira

Se você é mulher, você provavelmente já sofreu algum tipo de violência. Falamos recentemente sobre o aumento das estatística já críticas de violência doméstica no início da quarentena no Brasil e em diversos países do mundo. Mas o assunto hoje é outro. Não vamos falar da violência explícita, que infelizmente ainda faz muitas vítimas, mas sim dos relacionamentos abusivos, que podem ocultar níveis diversos de violências implícitas e explícitas, físicas e psicológicas, verbais e simbólicas e que, muitas vezes, acabam naturalizados, mesmo entre mulheres que se entendem como feministas e cujos parceiros se dizem progressistas, esclarecidos, desconstruídos ou qualquer outro rótulo que se mostre conveniente.  

No Brasil, a cada quatro minutos uma mulher é vítima de violência, e em 43% dos casos essa violência acontece dentro de casa. As estatísticas de violência contra a mulher nos ajudam a ter ideia das proporções do problema e a ressaltar a emergência de soluções. O problema é que no caso dos relacionamentos abusivos, a violência muitas vezes não deixa marcas visíveis. A frequente impossibilidade de denúncia e de um exame de corpo de delito impede qualquer tipo de mensuração. O resultado é a invisibilidade do problema. Um silêncio que serve de esconderijo para os agressores e que se converte numa prisão para as vítimas, que podem demorar para entender ao que estão submetidas. 

Muitas vezes, quando esse entendimento vem à tona as cicatrizes deixadas já são profundas. Muitas vezes, quando esse entendimento vem à tona, ele não é o suficiente para acarretar uma ruptura. Muitas vezes, quando esse entendimento vem à tona ele não nos imuniza automaticamente de repetir esse tipo de vínculo e relação. Muitas vezes esse entendimento não vem à tona.

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Para complicar ainda mais o cenário, não existe uma definição definitiva de em que exatamente consiste um relacionamento abusivo. E o pior. É possível viver situações de abuso dentro de um relacionamento que até então se desenrolava de forma saudável. O que quero dizer com isso é que o seu companheiro não precisa ser um abusador clássico ou machista convicto para que se comporte de maneira abusiva ou violenta em algum momento do relacionamento. Complicou? Pera que vai piorar. 

Não são apenas homens que se comportam de forma abusiva em relacionamentos e também não são apenas os relacionamentos heterossexuais que ocultam dinâmicas de abuso. Mas por questões óbvias e estatísticas, vamos nos concentrar aqui nos casos em que essa violência tem motivações e implicações de gênero, ou seja, nos casos em que um homem submete uma mulher a algum tipo de violência. Aproveito também para justificar aqui minhas escolhas semânticas. Vou tratar o abusador no masculino e a vítima no feminino. Mas fiquem à vontade para transpor essas situações para qualquer outro formato de relacionamento.

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Com base em experiências vividas por mim e por pessoas próximas além de muitos relatos lidos ao longo dos últimos anos na internet, criei um guia de algumas atitudes e posturas, testadas por mim na prática, e que se mostraram efetivas para apoiar pessoas vivendo relacionamentos abusivos. O objetivo é ajudar a vítima a atravessar esse momento e a construir internamente o processo que vai ajudá-la a se libertar e a curar suas feridas. A experiência de um relacionamento abusivo deixar cicatrizes profundas, mas a boa notícia é que as marcas dessa vivência dolorosa podem ajudar a resgatar outras mulheres.

1. NÃO se afaste

Em hipótese alguma, mesmo que seja difícil, não se afaste da pessoa que está vivendo um relacionamento abusivo. Uma das características marcantes desse tipo de relação é o afastamento do círculo habitual de amigos. O companheiro tóxico geralmente evita criar laços com os amigos da companheira, na melhor das hipóteses e, nos casos mais extremos, cria intrigas e proibições para afastá-la de sua rede de apoio. Não por acaso. Uma vítima solitária é uma vítima mais vulnerável e submissa.

2.Converse sempre e tenha paciência

Pode ser um pouco cansativo ser uma escuta ativa para quem vive um relacionamento abusivo, mas esse esforço é muito importante. Cansativo pois a história se repete, muitas e muitas vezes. A vítima costuma vir com reclamações e em seguida perdoa o abusador e isso costuma acontecer ciclicamente muitas e muitas vezes. Outro traço muito comum é que, mesmo durante uma queixa, a vítima costuma defender o companheiro tóxico, tirando o peso de seus atos. Lembre-se, esta pessoa está vivendo uma situação de abuso e precisa de você. Sua escuta ativa, tolerante e com problematizações e críticas pontuais pode ajudar e muito na construção de uma saída e no processo de conscientização e libertação afetiva da vítima.

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3. Estratégia e cautela para quebrar o ciclo de manipulação 

A manipulação da vítima pelo abusador é uma das características clássicas dos relacionamentos abusivos. Quando você identificar que sua amiga está sendo manipulada, pare, respire fundo e pense com inteligência e estratégia. Dificilmente o confronto é o caminho mais efetivo. Além do mais, ela provavelmente está fragilizada emocionalmente pelo abuso psicológico. Desconstruir sutilmente algumas lógicas e dinâmicas instituídas pelo abusador pode ser um bom caminho. Fazer perguntas ou provocar reflexões disparadoras pode ser outra alternativa. Identificar padrões entre os comportamentos abusivos do companheiro também é um excelente caminho. Ajudar nesse processo no início pode, aos poucos, fazer com que a vítima passe a ter essa percepção por conta própria. 

4. Não pressione, cada um tem seu tempo

Você pode e deve ajudar sua amiga que está vivendo um relacionamento abusivo, mas se você já passou por algo parecido sabe que cada um tem seu tempo e que a construção de uma saída definitiva é um processo de cada um. Por mais que a situação a angustie, não atropele a construção da vítima. Acompanhe, oriente, acolha, mas lembre-se que este é um processo interno e muito pessoal. A saída efetiva deste tipo de relação depende da solidez dessa construção e isso pode demandar tempo.

5. Esteja atenta a sinais de violência física e dê nome aos bois

É muito comum que nos relacionamentos abusivos a vítima seja estuprada ou sofra violência física sem ter um entendimento claro de que passou por isso. É sempre bom lembrar que sexo sem consentimento é estupro, mesmo que aconteça dentro de um relacionamento. Em muitos casos, a confusão mental e a dependência afetiva da vítima são tamanhas que ela pode sofrer violência física sem se dar conta disso. Esteja atenta a marcas ou reações de medo excessivo e esteja pronta para agir de maneira mais enfática, chamando a polícia, por exemplo, ou fazendo uma denúncia pelo 180, caso isso se mostre necessário.

6. Compartilhe conteúdos empoderadores

São muitos os livros, séries, filmes, palestras, debates que podem servir de gatilho para que a vítima se dê conta do que está vivendo. Conteúdos inspiradores também podem agir lentamente no despertar de um desejo de mudança. São muitas as listas e curadorias circulando pela internet, uma busca rápida já traz resultados para diferentes gostos e faixas etárias.

7. Sugira, indique, oriente a busca por ajuda psicológica profissional

Você pode ajudar, mas entenda que isso tem um limite e que, a partir desse limite, a ajuda profissional pode ser bem vinda e necessária. A vítima não precisa procurar um(a) terapeuta por entender que está num relacionamento abusivo. Qualquer insatisfação sua pode ser um ótimo pretexto para que você traga essa sugestão. Uma vez iniciado o processo terapêutico, a questão do relacionamento abusivo vai acabar aparecendo e esse pode ser um dos caminhos mais seguros e eficazes de libertação, afinal, psicólogos têm experiência em como identificar e conduzir esse tipo de caso. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento psicológico de forma gratuita nos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Estes centros são compostos não apenas por psicólogos, mas também por psiquiatras, enfermeiros, assistentes sociais e terapeutas.

8. Lembre-a de suas potências, ajude-a a fortalecer sua individualidade

Outra característica típica dos companheiros tóxicos é destruir a autoestima da vítima. Menosprezar seu trabalho, sua aparência, censurar suas roupas, falar mal de seus amigos tornam a vítima mais fraca, acentuando a dependência emocional. O pior de tudo é que essa empreitada destruidora da autoestima geralmente vem acompanhada de ciúme e posse. Esse tipo de comportamento vai, aos poucos, enfraquecendo a individualidade da vítima e fazendo-a acreditar que ela não vai “conseguir nada melhor que aquilo” ou que “tem sorte de ele estar com ela”. O melhor antídoto pra esse tipo de violência é o empoderamento. Elogie sua amiga, lembre-a de suas competências, talentos, paixões, da importância de seus sonhos e projetos, jogue a bola dela pra cima sempre que puder. Isso vai deixá-la mais forte e menos vulnerável ao abusador.

9. Mostre que há luz no fim do túnel no caso de um término

É muito comum a sensação de que é impossível sair de um relacionamento abusivo. A dependência emocional é uma prisão de segurança máxima, mas mostrar as ‘brechas no sistema’ é o seu poder. Compartilhe histórias de outras pessoas que viveram situações semelhantes e superaram, lembre-se de todos os amigos e familiares (além de você, claro) que vão estar ao lado dela, pratique o item 8 dessa lista com afinco, lembrando-a de como ela é maravilhosa e de tudo o que tem pela frente. O item 7, dos filmes e livros, também pode ajudar aqui servindo de inspiração. Mas acima de tudo, esteja pronta para recebê-la de braços abertos e com atenção máxima

10. O pós relacionamento abusivo também é importante

 

Pronto, ela conseguiu. Colocou um ponto final, se libertou, encontrou a brecha e voou pra fora da gaiola. Missão cumprida? Ainda não. Infelizmente, como já falamos algumas vezes, um relacionamento abusivo deixa marcas profundas, e cicatrizar essas feridas é um processo longo, importante, que requer apoio, cuidado e atenção. O primeiro risco é a recaída, e isso é muito comum. É frequente o abusador procurar a vítima logo depois do término implorando perdão, dizendo que vai mudar, etc. Também é comum que mantenha algum tipo de comunicação, aplicando as já mencionadas técnicas de manipulação e escravidão afetiva. E mesmo que nada disso aconteça, a vítima estará ainda muito vulnerável. Para evitar que ela caia novamente nas garras deste ou de um novo embuste, se sujeitando involuntariamente a este tipo de pessoa, sua presença ativa é fundamental. Repetir alguns pontos desse passo a passo nesse momento pode ajudar e muito. É preciso olhar para o que aconteceu e esse pode ser um processo muito doloroso. Repetir os pontos 1, 2 e 3 é fundamental. O diálogo e a trocas serão muito importantes para que ela consiga dar nome a tudo o que aconteceu, identificar padrões e evitar repeti-los no futuro. Não se esqueça do ponto 4, não pressione, cada um tem seu tempo e esse será um caminho árduo, porém muito compensador. Os pontos 6, 7 e 8 também são grandes aliados no pós relacionamento abusivo. Geralmente saímos dessas relações em ruínas e toda a ajuda é bem vinda na reconstrução.

 

O mais maravilhoso disso tudo é que abraçar uma amiga neste processo, além de ser um ato de amor e generosidade muito potente, também vai ajudar você, que viveu um relacionamento abusivo, a terminar de cicatrizar suas feridas e a transformar a dor e o sofrimento em esperança. As marcas deixadas por essas experiências podem nos acompanhar por muitos anos, às vezes para o resto da vida. Nessa parceria, todas saem ganhando, só quem perde é o sexismo. Já diria aquele clichê (que eu amo): “as mulheres são como as águas, crescem quando se encontram”. Apoiar outras mulheres é uma das formas mais incríveis de luta contra o machismo. Desde os tempos ancestrais, os grandes poderes das mulheres – muito temidos pelos homens e pela igreja – são a troca, o afeto e a cura. Se nos organizarmos direitinho, o patriarcado cai e nenhuma mulher mais vai estar sujeita a esse tipo de violência.

 

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Dedico esse texto a uma grande amiga a quem tive a honra de acompanhar num processo lindo de libertação e reconstrução. Abraçar sua dor me ajudou a olhar para a minha própria dor com mais carinho e consciência, e a perceber que algo positivo poderia ser extraído dali. Algo poderoso capaz de subverter a lógica que nos submeteu e oprimiu.Pra terminar, deixo pra ela um poema-prece. Um agradecimento por ter me ensinado tanto.

O poema é de uma poeta que eu amo, negra, feminista e extraordinária, Ryane Leão:

“Nós duas juntas
podemos botar o mundo abaixo
balançar todas as estruturas
cê me lembra que somos incríveis
e livres
eu te lembro que somos cura”

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Clara Caldeira
Quatro anos e meio à frente do conteúdo do Hypeness, após atuar por seis anos como editora no Catraca Livre, Clara Caldeira é jornalista com 15 anos de experiência em cultura, comportamento, cidadania, tendências e pesquisadora em comunicação, gênero, corpo e meio ambiente. Já participou de projetos de reportagens, documentários, branded content e formações diversas com ONGs, assessorias culturais e publicações digitais variadas.

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