Inspiração

Professora que viveu na Alemanha nazista ensina inglês online no Brasil

por: Vitor Paiva

Corria o ano de 1939 quando Elisabeth Wagner, então com 4 anos e nascida em Prainha, no litoral paulista, cruzou o oceano com o pai, austríaco, e a mãe, alemã, para que a família se reunisse com seu avô em Brüx, cidade alemã na antiga Checoslováquia, para cuidarem de uma fazenda da família. Elisabeth tinha 4 anos quando viu explodir a Segunda Guerra Mundial no continente: impedida de voltar ao Brasil com a família, ela viveria até os 10 anos sob o regime nazista – hoje, aos 85 anos, ela ensina inglês pelo Youtube diretamente de sua casa em Florianópolis.

Em entrevista para o Universa, Elisabeth lembrou da vivência de sua infância, e de como a experiência viria a pautar toda sua vida. “Por muito tempo, não gostei de filme de guerra e se tinha fogos em São João ou em jogo de futebol, minha vontade era jogar-me no chão e procurar abrigo”, contou Elisabeth. “Levei um tempo para me costumar. Digo que não tenho trauma, porque se não tiver ninguém traumatizando, a gente supera. Mas durante a Segunda Guerra, eu não conhecia outra vida. Eram as bombas caindo, eu, meus pais e meus irmãos [um três anos mais velho, outro três anos mais novo] em abrigos, a terra tremendo”. Com o fim da guerra, já adolescente, Elisabeth migrou da Alemanha Oriental para a Inglaterra para viver com uma tia, somente retornando ao Brasil no início dos anos 1950. Elisabeth então falava poertuguês, tcheco, alemão, russo e inglês, e com menos de 18 anos foi dar aula em uma escola em São Paulo.

Elisabeth em seus tempos de aeromoça © arquivo pessoal

Além de lecionar e trabalhar como secretaria, Elisabeth também trabalhou como aeromoça e, depois de enfrentar os horrores do nazismo, teve de enfrentar também o preconceito por ser mulher. “”De vez em quando vinha alguém de firma estrangeira, um chefão americano, suíço. Ligavam para perguntar se a secretária podia ir no hotel para fazer correspondências, para ele dar o ditado. Me falavam: se você for, vão falar que você é puta. E eu dizia: E o que que tem? Eu não tô nem aí. Ele paga por hora. Tinha esse preconceito, principalmente quando eu ia a congressos e tomava nota nesses hotéis”, ela conta. Nos anos 1970 ela criaria uma escola de natação e inglês para crianças, no bairro do Morumbi, que funcionou até o ano 2000.

A professora diante da escola no bairro do Morumbi © arquivo pessoal

Hoje em seu canal no Youtube a professora se dedica a ensinar o inglês valorizando a forma mais natural de se falar o idioma, antes mesmo da escrita ou da leitura – outra recomendação é ouvir músicas em inglês, procurando compreender o que está sendo dito.

Batizado com seu nome, o canal Elizabeth Wagner já conta com mais de 118 mil inscritos, e aos sábados a professora realiza lives junto com sua filha, que permanecem disponíveis na plataforma.

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© fotos: arquivo pessoal


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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