Arte

Sandra Benites, 1ª curadora indígena de museu do Brasil, diz não sentir mais medo

por: Vitor Paiva

Antropóloga, arte-educadora e artesã, Sandra Benites enxerga em seu trabalho um propósito maior: natural da etnia Guarani Nhandewa, da aldeia de Porto Lindo, no Mato Grosso do Sul, Benites acaba de se tornar a primeira indígena contratada para ser curadora de um grande museu no Brasil. Doutoranda em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), como nova curadora adjunta do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), Benites procura utilizar a arte como ponte entre os povos indígenas brasileiros e as populações de outras origens.

A curadora Sandra Benites © divulgação

“O que mais gosto é perceber as narrativas – todos possuem um jeito de contar uma história”, diz Benites, que atuará no MASP na curadoria de arte brasileira. “O que une os povos indígenas é nossa visão do mundo e como nos relacionamos com nosso território”. No doutorado, sua pesquisa se dobra sobre como os povos guaranis enxergam o corpo feminino, e para o ano que vem no museu, além de atuar na programação, procurará fortalecer a presença de vozes nativas no MASP – em 2021, toda sua programação será dedicada às “Histórias Indígenas”, projeto vencedor do “Sotheby’s Prize” que procura apoiar exposições sobre temas negligenciados ou pouco representados na história da arte.

O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) © Wikimedia Commons

Sandra Benites já vinha trabalhando com educação indígena desde 2004, tendo sido professora de artes no ensino fundamental no Espírito Santo, na comunidade Guarani entre 2004 e 2012, e também como coordenadora pedagógica na Secretaria de Educação de Maricá, no estado do Rio de Janeiro – seu trabalho visava também assessorar escolas indígenas na região. Entre 2017 e 2018, Benites foi curadora da exposição “DjaGuata Porã: Rio de Janeiro Indígena no Museu de Arte do Rio”.

Parte da exposição “DjaGuata Porã: Rio de Janeiro Indígena no Museu de Arte do Rio” © divulgação

Uma reportagem do New York Times contou recentemente a trajetória de Benites, que comentou na matéria sobre como a própria história indígena ensinou aos povos de que forma resistir a um momento sombrio como o atual, no qual o governo federal parece determinado a perseguir os direitos e conquistas indígenas no país. “Isso sempre aconteceu, mas era mais velado”, ela diz. “Agora está completamente desmascarado. Nós lutamos contra isso desde 1500, então não temos mais medo. Me lembro de todos os meus parentes dizendo que ‘quanto mais eles nos atacam, mais nós nos encorajamos’. Temos noção de nossa sabedoria e sabemos como atacar de volta, e isso se faz criando diálogos com outros”, ela diz. Para Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, a presença de Sandra como curadora do Museu é um privilégio transformador: “Essa é uma virada para o MASP e também para o cenário museológico como um todo, já que lideramos esse caminho para construção de narrativas mais plurais, diversas e inclusivas, não apenas discutindo e exibindo arte indígena, mas ao conseguir fazer isso sob a orientação excepcional de Benites.”

© divulgação

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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