Debate

Weintraub deixa o MEC com menosprezo ao ensino público, diversidade e erro no Enem

por: Yuri Ferreira

Na última quinta-feira (19), Abraham Weintraub abandonou oficialmente o posto de ministro da Educação. Os 438 dias do economista em uma das pastas mais importantes do país foram dignos de medo e delírio, com caos, vergonha alheia e inquéritos sob seu nome. Para que não saísse manchado, uma articulação foi feita dentro do Planalto para que o representante da ‘ala ideológica’ no governo Bolsonaro saísse com ‘honra’, destino que seu antecessor, Ricardo Vélez, não teve, assim como Sérgio Moro, Nelson Teich, Luiz Henrique Mandetta, Osmar Terra e o General Santos Cruz.

Agora, Weintraub sai para um processo seletivo no Banco Mundial, podendo se tornar um dos diretores executivos do BIRD/AID. Se o futuro do ex-ministro pode ser promissor, o seu passado está marcado. Muitos o proclamam o pior gestor da história da educação brasileira. Por outro lado, os mais fervorosos defensores do governo estão ao seu lado. Aqui no Hypeness, vamos relembrar um pouco do seu caótico legado, afinal, ‘abe is out’.

Antes de ler tudo, abre outra aba aí pra relembrar o nosso compilado de bizarrices que Ricardo Velez, antecessor de Weintraub, cometeu.

Corte de verbas para educação

Manifestações contra as medidas de Weintraub tiveram adesão de centenas milhares de estudantes ao redor do país

No fim de abril de 2019, logo após a queda de seu antecessor Ricardo Vélez, Weintraub bloqueou quase 2 bilhões das Universidades Federais para arrochar os gastos do Ministério, sob a promessa de que, caso as contas do governo aumentassem, a verba poderia ser liberada. As principais vítimas da facada no orçamento foram as universidades. Os gastos ‘não-obrigatórios’ seriam afetados. Mas quais eram eles? Os básicos para o funcionamento de um estabelecimento: água, luz, terceirizados, obras, equipamentos e realização de pesquisas.

– Capes acaba com novas pesquisas em 2019 e quase 12 mil bolsas são cortadas

Bolsistas ficaram em risco, novas vagas e projetos de extensão foram colocados em xeque graças ao corte de Abraham Weintraub. A tendência de redução de verba do Ensino Superior no Brasil vem desde o Governo Dilma, sendo continuada por Michel Temer e sacramentada pelo ex-ministro da Educação. A medida causou fúria entre os estudantes universitários e também em secundaristas – que em breve entrarão nas faculdades. Manifestações enormes foram registradas em todas as capitais do Brasil.

A intransigência de Weintraub manteve os cortes, que foram, na verdade, ordenados por Paulo Guedes. Com os cortes (que aumentaram em 2020), em breve exemplo, diversos Hospitais Federais Universitários, responsáveis por significante parcela de atendimento e pesquisa, ficaram sem recursos para lidar com o novo coronavírus.

Um péssimo senso de humor

Abe is out.

Outra faceta trágica de Abraham Weintraub, que não afetava diretamente a carne do povo brasileiro, foi a tentativa de se tornar um ‘alívio cômico‘ do Governo Bolsonaro. Tudo começou com o vídeo ‘Está chovendo Fake News’, em que o ministro da Educação aparece emulando o filme ‘Singin’ In The Rain’ em uma paródia esdrúxula. À época, ele se defendia da ideia de que estaria segurando verbas para reconstrução do Museu Nacional (De fato, Weintraub não havia travado as obras, mas o MEC conteve R$ 980 mil para a reconstrução da fachada do Museu).

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Depois, ele apareceu novamente por, após concluir um pronunciamento oficial, colocou os óculos do meme ‘Turn Down For What’ dizendo ‘Abe is out’ (‘Abe está fora’). A tentativa de lacrada já não pareceria muito adequada para um adulto com mais de 40 anos no TikTok. Mas um ministro de Estado fazer esse tipo de piadinha só colaborou para desgastar a imagem de Weintraub.

Desastre no ENEM

Não adianta ter a caneta preta e o RG certinho pra fazer o ENEM se contarem a nota da sua prova errado.

O ENEM nunca foi fácil. Uma prova aplicada em praticamente todos os municípios da nação, para milhões de jovens e que não pode ser vazada, sob hipótese alguma, é um baita desafio. Mas quem assume o posto de Ministro da Educação deve arcar com a responsabilidade de fazer o exame perfeito. Uma das plataformas de Weintraub era fazer ‘O Melhor Enem da História’.

Não rolou. Isso porque aconteceram dois vazamentos da prova – o que, a primeira vista, é normal (em 2011 e em 2014 também ocorreram divulgações ilegais do material) -, mas sobretudo pelo erro na correção. Milhares de pessoas tiveram notas alteradas e diminuídas por erros crassos do Ministério da Educação. Foram 6 mil notas revisadas.

O Ministro também foi intransigente com o adiamento do ENEM 2020. Enquanto o Brasil passa por uma pandemia e milhões de estudantes não estão tendo o acesso adequado ao EaD, Weintraub quis manter o calendário de provas de qualquer jeito, medida que privilegiaria os estudantes mais ricos do país. Somente após pressão e aprovação de um adiamento no Congresso que o Ministro concedeu o adiamento da prova mais importante do país.

Erros de português

Imprecionante.

Aqui a gente não vai escrever muita coisa. Não somos ‘grammar-nazis’. Mas acreditamos que um Ministro de Estado saiba utilizar a norma padrão da língua.

Declarações criminosas

A cara de Tarcísio Gomes Freitas, Ministro da Infraestrutura, atrás de Weintraub, resume bem a situação

Durante a Reunião Ministerial de 22 de Abril, divulgada sob ordem do juiz Celso de Mello, o ex-Ministro afirmou: ‘Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF’. A perigosa afirmação de Abraham é um atentado claro à democracia. Isso porque o STF é um poder independente, e pode agir da maneira que lhe conforma. Prender toda a Suprema Corte seria uma das maiores ofensas à democracia que qualquer presidente poderia cometer.

– Embaixada da China acusa Weintraub de racismo: ‘declarações absurdas e desprezíveis’

Uma semana depois, o STF ainda abriu um inquérito junto à PGR para avaliar um suposto crime de racismo de Weintraub contra o povo chinês. Em seu Twitter, sugeriu que o governo de Xi Jinping havia inventado o vírus, o que é uma teoria da conspiração absolutamente infundada. Depois, passou a substituir o R pelo L, satirizando a maneira como alguns chineses falam. “Geopolíticamente [sic], quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?”.

É inacreditável.

A infame cartada contra as cotas

Weintraub sai pela porta dos fundos da educação brasileira, deixando um legado devastador para a pasta

Em seu último dia no Governo Bolsonaro, Weintraub publicou a revogação de uma portaria de 2016 que criava grupos de estudo para implantação de políticas de ação afirmativa para pós-graduação em universidades. Na letra da lei, a alteração da portaria não mudaria muitas coisas, pois a maioria das Universidades Federais já possui esse tipo de medida implantada, mas conseguiu dar uma última causada com a caneta na mão, desviando parte do debate que estava centrado na prisão de Fabrício Queiroz.

Agora, Abraham provavelmente vai viver bem com os 100 mil reais mensais que vai ganhar como executivo do Bird, caso seja aprovado pela assembleia composta de oito países. E se os estragos do ex-ministro (os quais não citamos todos, faltando o Futura-se, a Carteirinha Digital, o Fundo Petrobras, as plantações de maconha nas Universidades, enfim, são tantos!) vão ficar marcados na História do MEC, resta saber quem vai o substituí-lo. E já adiantamos: não parece vir coisa boa por aí.

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Fotos: Destaques e Fotos 1, 2, 6: © Getty Images Fotos 3, 4 e 5: Reprodução/Twitter 


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness. No twitter, @porfavorparem.

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